Uma tragédia familiar ganhou contornos ainda mais complicados para amigos e familiares de uma comerciante de 35 anos. Entre o horário da morte da mulher e a liberação do corpo, foram 15 horas. Revoltados, os enlutados chegaram a acionar a polícia. O Instituto Médico Legal (IML) alega que demorou quatro horas para liberar o corpo.
A morte ocorreu por volta das 21h20 de anteontem, na residência onde a vítima morava, na Vila Pacífico. Lá, ocorria um churrasco, quando, segundo o boletim de ocorrência (BO), em determinado momento, a comerciante discutiu com seu marido por ciúme.
Testemunhas informaram que ela deixou os amigos na festa e se trancou em um quarto. Pouco tempo depois, foi ouvido um disparo de arma de fogo.
Foi preciso arrombar a porta do cômodo em que a mulher estava trancada. Caída ao lado de um revólver calibre 38, a vítima chegou a ser socorrida, porém, não resistiu e morreu.
A tristeza da tragédia teve que conviver ainda com outro sentimento: a indignação. Desde a hora da morte até a liberação do corpo da comerciante, amigos e familiares alegam que se passaram 15 horas.
Por volta das 11h, Haniel Martins da Costa, 32 anos, foi até o IML para saber o que estava ocorrendo. “A vítima era uma amiga muito querida minha. Então, eu fui saber o que estava acontecendo. Fui saber o motivo da demora em liberar o corpo”, conta.
Lá, ele alega ter sido informado de que não havia médicos naquele momento no instituto. “Disseram que o médico só ia chegar depois do meio-dia. Ela estava morta desde antes das 22h. Como podem fazer isso? É uma falta de respeito enorme. Pessoas morrem 24 horas por dia. O IML tem que ter médicos 24 horas por dia”, critica.
Revoltado, ele chamou a Polícia Militar (PM). “E vou registrar um BO amanhã (hoje)”, promete Haniel da Costa.
Às 12h30, o corpo da comerciante foi liberado. “Como eles haviam dito antes, o médico só chegou ao meio-dia mesmo. E ele me tratou muito mal. Disse que iria fazer o trabalho em seu tempo”.
O velório começou pouco após a liberação do corpo e os amigos tiveram cerca de três horas para se despedir da mulher. O sepultamento foi realizado no Cemitério Parque Jardim do Ypê, às 16h30.
Outro lado
Por meio da assessoria de comunicação, a Superintendência da Polícia Técnico-Científica (SPTC) informou que o corpo da vítima “deu entrada às 8h50 desta segunda-feira, sendo examinado e liberado para a família às 12h30”.
O comunicado oficial não confirmou se faltavam médicos para liberar o corpo antes, porém destacou que há concursos para a contratação de profissionais em todo o Estado em várias áreas, incluindo 144 médicos legistas.
Problema recorrente
No fim de outubro, o JC divulgou caso semelhante. Na ocasião, a família de Fábio Henrique Caetano de Paiva, de 32 anos, também esperou mais de 14 horas entre a morte do segurança e a liberação do corpo.
A vítima morreu no fim da tarde do dia 26, há exatamente um mês. Fábio fazia trilha de bicicleta quando caiu do topo de uma cachoeira de 30 metros. O segurança saiu de Bauru com amigos, no sábado à tarde, para fazer o caminho na zona rural de Agudos. Por volta das 18h30, ele teria parado para fotografar a paisagem, mas acabou se desequilibrando e caindo.
Amigos e familiares do segurança começaram uma corrida contra o tempo para prestar a última homenagem. O corpo só foi liberado por volta das 12h30 do dia seguinte.
“É uma situação pela qual nunca pensamos passar. Meu sobrinho morreu e, depois de mais de 12 horas, ainda não temos o corpo para velar”, criticou, na ocasião, Mara Sílvia Carvalho Leite, tia de Fábio.