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Entrevista da semana: Augusto Francisco Cação

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Augusto Francisco Cação é coronel da Polícia Militar do Estado de São Paulo, mestre em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, especialista em Gestão e Direito de Trânsito e bacharel em Direito. O currículo é extenso, só não é maior que a simplicidade e humildade do entrevistado de hoje.


Aposentado desde junho de 2013, o atual projeto de Augusto é divulgar a direção defensiva e segura por meio de palestras e cursos. “Precisamos ao menos diminuir o número de vítimas no trânsito. No meu ponto de vista, há dois requisitos básicos necessários ao volante: o respeito ao conhecimento sobre as leis e a paciência. Os motoristas precisam entender e aplicar isso”, analisa.


Casado com Magali há 22 anos, com quem tem uma filha, Vanessa, de 20 anos, na entrevista a seguir ele também fala sobre suas lembranças de infância, quando se apaixonou pelo Noroeste. “Meu pai tinha um bar no campo no Norusca, e eu não saía de lá”.


Augusto também é articulista da coluna Opinião do JC. Recentemente, ele tem publicado uma série de artigos sobre segurança no trânsito. As aventuras e experiências vividas nas estradas, sejam a trabalho pela Polícia Militar Rodoviária ou sobre uma motocicleta (hobby), também fazem parte das passagens que você lê, a seguir.


 

Jornal da Cidade - Por que a carreira militar?


Augusto Francisco Cação - Eu acho que toda criança um dia quer ser policial. Eu nunca tive isso fixo, mas pensava. E tinha um primo que era policial, o que acabou me incentivando a prestar a prova para a Academia de Polícia Militar do Barro Branco (APMBB). E eu me apaixonei pela profissão. Entrei para a polícia aos 17 anos e saí aspirante aos 19 anos. Trabalhei 31 anos e quatro meses e agora passei para a reserva.


JC - Entre as suas atividades diárias está a consultoria na área de trânsito.


Augusto - Isso. Eu fiz especialização em gestão e direito de trânsito. Por ter trabalhado durante 20 anos na Polícia Militar Rodoviária, eu senti que precisava de conhecimento e argumentação extras, até mesmo para orientar o usuário na rodovia. A população tem muitas dúvidas e eu era questionado. Hoje, ministro palestras e cursos para empresas, prefeitura, escolas, Rotary Clube e quem mais se interessar e entender que é necessário ter um conhecimento a mais na área de trânsito. Meu projeto atual é esse: divulgar a direção defensiva e segura por meio de palestras e cursos para ver se conseguimos diminuir o número de vítimas no trânsito.     


JC - Qual é a sua avaliação sobre o comportamento do motorista brasileiro?


Augusto - No meu ponto de vista há dois requisitos básicos necessários no volante: o respeito ao conhecimento sobre as leis e a paciência. Com esses dois itens você resolve qualquer problema de trânsito. Se você souber o que você pode e não pode fazer e tiver paciência, resolve-se qualquer problema como motorista. Entretanto, a população anda sempre no limite: da velocidade, do tempo, da paciência... E assim fica difícil ter um trânsito seguro.    


JC - Como foi a sua trajetória profissional?


Augusto - Bem, eu saí da APMBB aspirante em 1984. O nosso aspirantado, tempo antes da promoção a segundo tenente, foi cumprido no Interior. Eu fiz meu estágio aqui, em Bauru.  Retornei para São Paulo e fui trabalhar no Tático noturno, na zona sul. Sempre trabalhei no policiamento móvel à noite. Em São Paulo, nos anos de 1985/86 e 87, até que fui convidado a retornar para Bauru. Anos depois, em 1992, surgiu o convite para o Policiamento Rodoviário, onde eu praticamente fiz a minha carreira. Afinal, foram mais de 20 anos entre as regiões de Bauru e Sorocaba.


JC - Muitas ocorrências devem ter mexido como as suas emoções em todos esses anos de estrada.


Augusto - Toda ocorrência na pista que tem criança envolvida em acidente faz você sentir aquele momento mais de perto e marca você para sempre. Na hora você pensa em filhos. E foram muitas. Em 2005, por exemplo, um casal se acidentou em Duartina, foi hospitalizado e estava com uma menininha de pouco mais de 1 ano no carro. Como não tinham parentes na região, eu a levei para casa até os avós chegarem, no dia seguinte. Minha esposa levou um susto ao abrir a porta e me ver com uma criança no colo. E ela não queria me soltar.  Foi aquela mobilização com os vizinhos. Um deu mamadeira, o outro chupeta, outro roupinhas, leite... Tempos depois, o pai da criança, um promotor, enviou-me uma carta em agradecimento. Fiquei emocionado com as palavras dele.


JC - Qual era a sua válvula de escape?


Augusto - Nunca tive uma válvula de escape. Eu fazia orações e preces antes de entrar em casa para deixar para trás aquela situação, aquele ambiente ruim do local do acidente. Mas a polícia rodoviária me deu muito orgulho e boas histórias. Muita gente não sabe que mais da metade dos órgãos doados no Estado de São Paulo é transportada por nossas viaturas policiais. Imagine você estar na estrada e, de repente, ver um cachorro na garupa de uma moto com capacete e tudo ou, então, um motorista dizer na cara dura que o carro foi abduzido por óvnis para tentar se safar de uma multa (risos). Coisas assim acontecem diariamente nas estradas. Fiz escoltas para muitas autoridades, como o então presidente Fernando Collor de Mello, Lula, Mário Covas, Geraldo Alckmin...    


JC - Você é religioso?


Augusto - Sim. Não tanto quanto a minha esposa, mas eu faço parte do Centro Espírita Amor e Caridade.


JC - A paixão pelo Noroeste nasceu na infância?


Augusto - Quando eu tinha uns 7 anos de idade, meu pai tinha um bar dentro do campo do Noroeste. Então, desde aquela época eu frequento o campo, torço muito para o time. Hoje eu fico observando como as coisas mudaram, até mesmo por uma questão cultural. Antigamente vendia-se cerveja e refrigerante em garrafas. O pessoal bebia e ficava tudo por ali, espalhado na frente do bar.  Não tinha essa briga, essa violência da torcida. Ir ao campo era um programa muito mais família. Mudou muito. Mas o Noroeste me acompanha. Já trabalhei em várias cidades e a camisa ou a bandeira do Norusca iam comigo. Quando estava em São Carlos, por exemplo, o pessoal via os símbolos e brincava dizendo que eu não torcia para um time grande. Eu dizia: Claro que torço, o Noroeste é um time grande.    


JC - Por falar em infância, como foram os seus dias de menino?


Augusto - Eu tenho um irmão, um ano mais novo, e a nossa infância foi bastante comum para as crianças do Interior, na época. Jogamos bola na rua, empinamos pipa... Meus pais sempre nos apoiaram e nos deixaram livres para escolher a profissão. Sempre tivemos uma convivência harmoniosa.   


JC - A motocicleta é outra antiga paixão?


Augusto - É, porque foi o meu primeiro veículo. Quando eu tirei a minha habilitação, ganhei a minha primeira moto da minha mãe. Era uma Turuna 125. E o amor por motocicletas me pegou. Já tive várias motos e vários acidentes. Quando eu estava nas férias do segundo ano da Barro Branco, por exemplo, caí na avenida Duque de Caxias, esquina com a rua Araújo Leite, e fiquei imobilizado durante sete meses. Não me lembro do acidente. Estava com um amigo na garupa e, quando acordei, já estava no hospital. Eu fiquei sabendo como foi o acidente depois, pelo jornal. Mas não desisti do hobby.


JC - Você costuma viajar de moto?


Augusto - Já viajei mais. Agora estou mais calmo, por causa da idade (risos). Inclusive estou sem moto, no momento, mas já pesquisando a próxima. Já participei de muitos encontros de motociclistas em Estados como São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais... Escrever é outro hobby, inclusive estou sempre contribuindo com a coluna Opinião do JC, principalmente com artigos sobre o trânsito. Sempre gostei de escrever, mais do que falar (risos).


JC - Um desafio superado.


Augusto - Acho que uma conquista foi ter conseguido terminar a academia junto com a minha turma. Como eu me acidentei, precisei ficar engessado por sete meses e conseguir acompanhar a rotina das aulas foi um desafio muito grande. Eu contei com a ajuda de meus amigos, principalmente depois que eu tirei o gesso e precisava realizar as provas de educação física, cavalaria... Então, o meu maior desafio profissional foi ainda na academia. O comandante até queria me desligar. Se isso acontecesse, eu ficaria um ano “atrasado” e não teria me formado com os meus amigos. Mas recebi a permissão e segui engessado. Graças a Deus superei as dificuldades e deu tudo certo.


JC - Um fato marcante.


Augusto - O nascimento da minha filha. Hoje Vanessa tem 20 anos e estuda medicina em Barretos. Ela vem sempre para cá e, quando não consegue, eu e minha esposa vamos para lá (risos). Sou casado há 22 anos com a Magali. Uma companheira formidável que eu conheci através da polícia, quando ela estava fazendo um concurso.

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