Itapuí comemora seus 100 anos de emancipação política com o livro intitulado “De Bica de Pedra a Itapuí- Cem anos de história”. A obra permite conhecer e relembrar fatos e pessoas que construíram a história da cidade, localizada a 44 quilômetros de Bauru. Escrito pelos jornalistas José Renato de Almeida Prado e Léa De Ungaro Almeida Prado, tem prefácio do atual governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin.
Para o prefeito municipal, José Eduardo Amantini, e para o vice Guido Lanza, chegar ao centenário resgatando a trajetória de lutas e de muitas conquistas sociais da cidade é uma honra. Para eles, o momento que Itapuí está vivendo é de escrever novas páginas para que as futuras gerações possam conhecer um pouco mais das pessoas e do desenvolvimento do município.
A obra, escrita em linguagem coloquial, não se restringe aos fatos históricos, mas viaja por acontecimentos que por pouco não se perderam e foram obtidos pelas entrevistas e pesquisas feitas pelos escritores.
Fatos pitorescos, como um acidente aéreo durante a inauguração de uma pista particular em propriedade rural, e crimes que abalaram o então povoado Bica de Pedra - como o do funcionário da companhia telefônica que foi tirar satisfação com o genro que difamava sua filha e acabou morto -, registrados pela grande imprensa, foram resgatados no livro. Também fazem parte do livro fotos antigas e mapas.
Uma ilha
Curiosidades, como a existência de uma ilha no município, também estão contempladas. Só para aguçar a vontade do leitor em folhear as páginas, a ilha tinha formato de coração e surgiu com o represamento das águas para a construção da Usina Hidrelétrica Bariri.
A ilhota, que se tornou lendária na cidade e até hoje é lembrada, foi batizada de Ilha do Floro Sinatura. Ela compunha a paisagem à vista de quem se aproximasse da beira do Rio Tietê.
A terra foi cedida ao imigrante Sinatura pelo governo, sob a condição de cuidar de toda a extensão. Lá, ele construiu uma pequena casa e passou a cultivar café, eucalipto e pequenas lavouras de milho e arroz, além de árvores frutíferas para consumo próprio.
A barragem foi inaugurada em 1966 e a ilha foi submersa, mas as lembranças que ela deixou permanecem. O comerciante foi indenizado pelo governo e teve de virar a página. Sinatura era um imigrante que trabalhou em uma fazenda em Jaú, no auge da cultura cafeeira.
Aos poucos, aprendeu o ofício de sapateiro e abriu uma sapataria em Itapuí. Ao perceber que as vendas proporcionavam bom lucro, Floro deixa de ser sapateiro para se tornar comerciante. Em 1912, ele investiu seus recursos em novo ramo e abriu a Casa Floro - que se tornaria uma das mais conhecidas casas comerciais da cidade.
A primeira ponte sobre o Rio Tietê
A primeira ponte de ligação de Bica de Pedra com o distrito Floresta, hoje Boracéia, sobre o Rio Tietê foi inaugurada no dia 22 de março de 1919. O ato foi assistido por moradores e políticos, entre eles o prefeito de Jaú. A bênção foi dada pelo padre João Requena.
A ideia da obra surgiu em um churrasco na fazenda Bariri Grande, de propriedade do fazendeiro João Sajovic, que também possuía uma farmácia na cidade.
Dentre os convidados estavam o prefeito Manoel Galvão de França, Ferdinando Arruda, Gilberto Leite, Manoel Rodrigues Ferreira, Joaquim Luiz Nunes, Luiz Teixeira de Almeida Barros, Antonio Cesnik e João Galvão de França, que conversavam especialmente sobre o café.
Segundo relato do próprio Sajovic, seu cunhado Antonio Cesnik se dirigiu ao prefeito Manoel Galvão e falou sobre a necessidade de construir uma ponte sobre o Tietê, ligando Bica de Pedra aos bairros além-rio. Galvão teria considerado oportuno o comentário, mas pediu uma ideia ao interlocutor.
Cesnik teria respondido que construiria a ponte por 30 contos de réis, que construiria 24 botes, ligados por vigotas fixadas às margens, assoalharia, colocaria os corrimões etc. Luiz Teixeira de Almeida Barros sugeriu que a estrutura fosse baseada em cabos de aço, nos mesmos moldes da ponte de São Vicente, no litoral paulista.
Primeira planta
Sajovic, então, se reuniu com Luiz Teixeira de Almeida Barros, que tinha em mãos a primeira planta que se conhece da ponte de Bica de Pedra, uma cópia fiel da que havia em São Vicente. Os dois concluíram que, pelas características das margens, que diferiam totalmente das encontradas no litoral, o melhor seria assentar a ponte sobre pilares de cimento armado.
Uma nova planta foi desenhada e as tratativas começaram a tomar forma. Aquele pequeno grupo de bicapedrenses resolveu se unir para dar conta do recado. Abriram uma empresa e saíram em busca de acionistas.
Conquistaram vários deles e, assim, nasceu a primeira diretoria da Companhia Melhoramentos do Porto José Antônio, presidida por Manoel Galvão de França. A empresa passou por várias dificuldades para construir a ponte, mas concluiu a obra.
No dia 1º de outubro de 1917, o jornal O Estado de S. Paulo publicou imagem da ponte em construção, informando que a obra estava sendo feita sobre 14 pilares de pedra e possuía extensão de 280 metros.
Itapuí teve acidente aéreo
Uma exibição aérea para a inauguração de uma pista de pouso particular na propriedade de Joaquim Cardoso Duarte se transformou em uma tragédia em fevereiro de 1948, em Itapuí. Para não se chocar com um avião que ainda taxiava na pista, outra aeronave, que tentava aterrissar, desviou sua trajetória para o público que assistia o evento. Duas crianças morreram e três mulheres ficaram feridas.
O acidente aconteceu por volta das 14 horas no bairro Taquaral. O local estava repleto de populares que assistiam a exibição de dois aviões particulares, um do aeroclube de Bariri e outro de Pederneiras. O relato do acidente figurou nas páginas do jornal paulistano Folha da Manhã.
Bica de Pedra foi destaque em matéria no ‘Estadão’
O povoado de Bica de Pedra foi notícia no Jornal O Estado de S. Paulo, no dia 24 de maio de 1902, quando o empregado da Empresa Telefônica, Antonio Ribeiro Marins, após casar a filha com Sebastião Prudente de Mello, soube que o genro estava declarando que sua mulher havia sido infiel, antes de ter se casado.
O sogro se ofendeu e foi tomar satisfação. Interpelou o genro sobre o que considerava ser ponto de honra. Na ocasião, puxou uma garrucha e desfechou um tiro. Mello sacou uma faca e cravou-a cinco vezes no corpo do sogro, que morreu horas depois. O criminoso foi preso.
Morte do Bruto
Outro crime que abalou e foi muito comentado nas rodas bicapedrenses aconteceu no mesmo ano. O desordeiro Manoel Bento, conhecido por Manecão, foi morto com um tiro pelo cabo do destacamento policial da localidade, João Merloni. O homicídio foi notícia no “Estadão” do dia 5 de dezembro.
Conta-se que Manecão já havia sido preso diversas vezes em Jaú e Capim Fino por promover arruaças. No dia do crime, mais uma vez aprontava das suas. Passava em frente ao posto policial e disparava diversos tiros. Dois praças sob o comando do cabo Merloni foram ao seu encalço na saída de Jaú.
Ele resistiu à prisão e travou luta com os policiais, terminando por se entregar. Conduzido pela escolta, Manecão não deu sinal de querer escapar. Mas em um dado momento arrancou o sabre de um dos soldados e passou a descarregar uma série de pancadas.
Merloni, vendo que ele e seus camaradas corriam risco de morte, sacou uma garrucha e disparou um tiro certeiro contra o valentão, que morreu minutos depois.
1ª residência feita de tijolos
O povoado de Bica de Pedra ganhou a primeira casa de tijolos no ano de 1891. José Antônio da Silva Fonseca, filho do fundador, mandou buscar Manoel Rodrigues Ferreira, o empreiteiro que construiu a capela para erguer a edificação. A casa existe até hoje.
Conta-se que o empreiteiro tinha jurado nunca mais voltar ao povoado, uma vez que sofreu prejuízo na construção da Capela de Santo Antônio da Bica de Pedra. Ele teria relatado aso seus familiares e conhecidos que teria trabalhado praticamente de graça na obra e que seu sócio o havia lesado em quantia vultosa, algo em torno de três contos de réis. O empreiteiro teria retornado para Jaú a pé, uma vez que não tinha condução e nem montaria para alugar.
A suntuosa residência foi erguida no largo da igreja, esquina da rua Ruy Barbosa com a Rua Santo Antônio. O imóvel passou a ser referência para todos que por ali circulasse. Atualmente o imóvel pertence ao Grupo Itabom, que não ocupa a casa, mas faz questão de conservá-la e manter o estilo.
Empresa levou nome de Itapuí para o Exterior
O empresário Paulo Ferraz Costa Negraes é citado no livro como a pessoa que mudou o perfil econômico da cidade de Itapuí. Ele também contribuiu para a geração de empregos e um dos maiores incentivadores do surgimento de novos empreendimentos.
Graças a seu arrojo e ousadia, o nome da cidade ‘viajou’ por todos os cantos do Brasil e Exterior através da empresa fundada por ele, a Trident. O sonho de ter seu próprio negócio fez com que ele se empenhasse em várias tentativas antes de conseguir fundar a empresa.
A Trident nasceu a partir de uma loja copiadora instalada na rua São Bento, em São Paulo. Na loja, ele colocou à disposição dos clientes uma nova seção para vender papel heliográfico, lapiseiras, canetas, papel vegetal, réguas e percevejos com três dentes para fixar as plantas de engenharia nas pranchetas.
Resolveu vender a copiadora e papelaria e, com o dinheiro, fabricar no Brasil aquele e outros produtos até então importados. O próximo passo foi cuidar dos detalhes para colocar no mercado. Negraes mandou fazer embalagens que considerou apropriada e colocou nas prateleiras seus próprios percevejos, com a marca Tridente. Mas o produto encalhou.
Na busca pela razão do encalhe, ele encontrou a rejeição pelo produto nacional. Novamente, teve uma ideia. Escreveu em um papel a quantidade das unidades, pôs a frase “finíssima qualidade” e levou a um conhecido de origem alemã. Pediu que traduzisse tudo aquilo para o alemão.
Mandou fazer uma embalagem nova, assemelhada a uma caixa de fósforos, e outra maior onde coubessem vinte caixinhas. Fez retirar a letra “e” do nome do produto (antea Tridente), mandou fazer uma logomarca e fez gravar “made in Germany”. Foi um sucesso de vendas.
Bem-sucedido
A ação bem-sucedida estimulou o empresário a apostar em outros itens, sempre ligados à precisão e desenho industrial. Negraes sentia que o mercado estava apenas abrindo suas portas. Nessa época, ele contava com 12 funcionários Foi quando vislumbrou a possibilidade de se transferir para o interior.
Amigos e conhecidos tentaram dissuadi-lo da ideia de deixar o grande centro, mas o empresário estava decidido. Seu objetivo era fabricar produtos com alta qualidade para competir com os importados. Encontrava em São Paulo dificuldade com a mão de obra.
No interior, em uma cidade pequena, as oportunidades de ensino básico à população eram melhores e a rotatividade de mão de obra menor. Teoricamente, seria possível recrutar o jovem em seu primeiro emprego, ainda sem vícios profissionais, e treiná-lo. Assim, a Trident foi para Itapuí em março de 1964.
O primeiro endereço da fábrica foi na rua XV de Novembro. Em menos de um ano, a Trident contava com 30 funcionários e produzia normógrafos, lapiseiras e outros artigos. O segundo prédio ocupada pela empresa foi na Rua Prudente de Moraes. Atualmente, a empresa ocupa um espaço no Distrito Industrial.
Na década de 70, Paulo Negraes inaugurava sua nova fábrica, instalada em 17 mil metros de área construída. Alguns anos depois, com um quadro de mais de 500 empregados, a Trident não só abastecia o mercado interno, como também passou a exportar para os Estados Unidos, América Latina, Europa, Japão, entre outros, em um total de 32 países. Atualmente, além de atender o mercado interno, a Trident ainda exporta para os Estados Unidos, França e Alemanha.