Uma barbearia mantendo a velha tradição. Um “santuário” masculino, onde homens podem se sentar em uma cadeira vintage e fazer a barba com navalha e toalha quente. E tudo ao som do melhor dos anos 50. O cenário pode até parecer extinto, mas não é. A barbearia estilo rockabilly faz parte dos exemplos de comércio retrô, que pareciam extintos, mas que voltam com tudo nas principais capitais do mundo e já podem ser visto em cidades do Interior, como Bauru.
Éder Azevedo |
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A barbearia é um dos exemplos de comércio retrô que ressurgem; na foto, Rodrigo Matos corta o cabelo de João Gracino e Kiko Jr. faz a barba de André Fernandes |
“A profissão de barbeiro foi se perdendo com o tempo, mas esses lugares, feitos só para homens, estão voltando. Eu atendia o público feminino também, até que resolvi investir em algo novo para a nossa época, mas praticado há muito tempo. A diferença é que atendemos com hora marcada, o que dá um ar moderno à barbearia”, conta o proprietário da Barbearia Bauru, que fica na quadra 1 da avenida Odilon Braga, Vila Aviação.
A decoração é uma atração à parte. Porta chapéus e guarda-chuvas na entrada, piso quadriculado, rádio antigo, decoração com quadros e pôsteres de artistas e acontecimentos culturais do passado, mobília em madeira, caixa registradora e até uma geladeira da década, isso sem falar no traje a caráter dos profissionais. E não é preciso pagar mais do que o mercado pede para entrar no túnel do tempo e cortar os cabelos. Um corte por lá sai em torno de R$ 30.
Origem
A onda do comércio vintage ou retrô parece ter vindo para ficar, mais uma prova de que a moda é cíclica. Segundo o antropólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Cláudio Bertolli Filho, esse movimento cultural nasceu nos Estados Unidos, no final da década de 70/início da década de 80. “Eu acredito que ele se dá mediante duas diretrizes. A primeira surge com o desencanto com o mundo pós-moderno, em relação à segurança e eficiência dos itens modernos”, analisa o antropólogo.
Nesse contexto, as inovações prometem um mundo melhor e mais eficiente, mas, ao mesmo tempo, criam a ideia de perigo e risco para a vida coletiva. Um exemplo típico, de acordo com o professor, é a energia atômica, uma energia limpa, boa, mas que também pode destruir o mundo com acidentes nucleares e todo o seu potencial.
“Alimentos industrializados não são vistos com bons olhos hoje, assim como o uso de micro-ondas, tecidos sintéticos... Iniciou-se uma certa busca de pureza, algo que não se tem com essas novidades que vêm surgindo. Esta é uma dimensão. A outra é a do design. Parece que houve um certo cansaço em relação ao designs cada vez mais modernos e se volta ao mais antigo”, comenta.
Juntando os dois elementos, pode-se ainda, segundo o professor, pensar em como o que é novidade hoje, amanhã já é ultrapassado e substituído por elementos cada vez mais novos. Isso gera uma desconfiança, uma certa angústia em relação ao presente e ao futuro e, dessa forma, volta-se ao passado de forma simbólica, como uma estratégia de segurança e busca de refúgio.
Caiu no gosto da freguesia
Profissões e estabelecimentos comerciais que pareciam esquecidos no tempo têm clientela fixa nos bairros
O próprio nome já remete ao ar do passado, e o cheirinho único da mistura de ervas e temperos que se espalha pelos empórios completa o ambiente sem igual dos secos e molhados. Grãos, ervas, pimentas, chás medicinais, frutas secas e oleaginosas, itens diet e light e uma infinidade de outros produtos nacionais e importados expostos em sacos de estopa, cestas de bambu e prateleiras fazem reviver os antigos armazéns, agora com visual moderno.
Um dos diferenciais está na venda a granel, principalmente de cereais e grãos. Você escolhe o que levar (arroz integral, feijão, soja, milho, entre muitas outras sementes), pesa e leva para casa. “Quando montei a loja, a ideia foi justamente remeter ao comércio do passado, ou melhor, à qualidade dele, e agregar um novo sabor à rotina do consumidor. No supermercado, você compra tudo pronto. Já em lojas de secos e molhados é possível reinventar a comida, pensando no bem-estar e na saúde”, ressalta Dionícia Theodorakopoulos, proprietária da loja de secos e molhados Empório Hermes, na quadra 5 da rua Anvar Dabus, Vila Mariana.
Além da saúde, foco desse tipo de loja de alimentos, atualmente Dionícia aponta o valor dos itens que, vendidos a granel, costumam ser bem mais baratos. Segundo ela, um dos segredos dos empórios é a variedade de alimentos e produtos naturais. “A clientela é boa, prova de que as pessoas gostam do que é diferente e, ao mesmo tempo, tradicional e artesanal”.
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Aceituno Jr. |
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“A fabricação do vinil é uma aposta do mercado fonográfico, que vê o comércio crescer”, acredita o empresário Marcos José Kerche da Cunha |
No passado
Grande ou pequena, toda cidade tinha os seus armazéns de secos e molhados até as décadas de 50 e 60. Típico comércio do século XIX, eles vendiam grãos in natura a granel ou por litro, além de ferramentas para o trabalho rural e doméstico. A maior parte desses produtos era de origem artesanal. Quase extintos, eles caíram novamente no gosto do consumidor, principalmente pelos hábitos modernos que pedem a qualidade de vida oferecida pelos produtos naturais, como as ervas medicinais e os grãos integrais, entre outros.
Alfaiate
Ao contrário do que muita gente pode pensar, ainda há quem prefira escolher seus tecidos e encomendar roupas sob medida, feitas artesanalmente. E, mais, segundo o alfaiate José Roberto Faustino do Nascimento, há mais procura do que oferta de mão de obra. Alfaiate há 40 anos, ele começou a trabalhar aos 11 anos de idade e aprendeu o ofício com o pai, principalmente quando o observava trabalhar.
Em seu ateliê na quadra 8 da rua Padre João, no bairro Santa Tereza, ele produz peças não só para bauruenses, mas também para homens de toda a região, além de muitas cidades fora dela, como São Paulo e municípios de Santa Catarina. “Não é fácil encontrar bons alfaiates por aí, muitos apenas fazem reparos. Quem conhece o meu trabalho em Bauru e muda de cidade, continua a fazer encomendas. Eu faço e mando por Sedex”, conta.
Entre tecidos, tesouras e botões, o alfaiate diz se sentir valorizado e que nunca pensou em desistir da profissão, apesar da concorrência desleal das roupas feitas em larga escala. “Muitas vêm da China e são vendidas a preços baixíssimos. Mas a qualidade da roupa feita pelo alfaiate é o que chama a atenção dos clientes”.
Exclusividade
Um colarinho bem feito, em que a gravata se encaixa perfeitamente, e o caimento adequado da calça ou terno para cada tipo de corpo também fazem parte das exigências da clientela. Mas é claro que a qualidade e a exclusividade têm o seu preço, que não é alto na visão do alfaiate. Para fazer uma camisa, por exemplo, ele cobra cerca de R$ 90.
Advogados e demais profissionais da área jurídica, assim como funcionários de bancos, são os que mais procuram pelas tesouras de Nascimento. Muitos desses fregueses tornaram-se amigos de longa data. E a procura é tamanha que, desde outubro, aceita encomendas só para 2014. “Já até tentei trabalhar com a internet, mas eu não daria conta dos pedidos. Como disse, ainda há muita gente por aí que valoriza a alfaiataria”, defende.
O retrô no moderno
A onda retrô ou vintage também tomou conta das lojas virtuais. A oferta desses espaços de compra e venda de itens antigos e relíquias é grande. O colecionador e comerciante André Fernandes, por exemplo, sempre nutriu uma paixão pelo retrô através dos objetos antigos. Um gosto que ele define como mania e que deu origem a uma loja virtual, o site de compra e venda “Mundo Retrô” (www.mundoretro.com.br), há alguns anos.
“Quando criança, eu comecei a juntar rótulos de garrafas. Devo ter reunido cerca de 1.500 rótulos diferentes de cerveja, refrigerante, cachaça e água”, lembra. Nessa mesma época, André começou a sua coleção de carros em miniatura, o que não durou muito porque eles saíam das prateleiras para a lama e grama das brincadeiras infantis. Mas, aos 15 anos, o colecionador lembra que achou um tesouro que o pai achava estar perdido: uma pequena caixa de madeira com 15 miniaturas de bebidas destiladas, esquecida no meio de ferragens e peças que, mais tarde, decoraram a casa do avô junto com uma centena de outras garrafas.
“Comecei a colecionar um pouco de tudo que fosse antigo: cartaz, garrafa, peça de chopeira... Fui comprando coisas em viagens, ganhando de amigos e parentes... Até que montei a loja. Algumas relíquias eu negocio, outras nem tão relíquias assim, não tem preço”, garante.
E foi no universo novo e moderno da internet que André encontrou espaço para negociar o seu “velho” com os amantes do retrô: peças de artesanato, artigos militares, bebidas, ferramentas e brinquedos antigos, caixas de fósforo, iluminação, malas, bolsas, filmes e seriados, moedas antigas, móveis e eletrodomésticos do passado, revistas antigas, selos, telefones, veículos e diversos outros itens.
Sapateiro
Quantos sapatos você já encomendou para um sapateiro? Se a resposta foi nenhum, saiba que o hábito não é tão incomum nos dias de hoje quanto se pensa. É claro que é mais fácil encontrar profissionais que consertem os pisantes fabricados em larga escala, arrumem os saltos, pintem, recauchutem o couro... Mas ainda há muita gente que prefere ter o seu modelo exclusivo feito pelas habilidosas mãos desses profissionais.
Há 40 anos, “seo” José Carlos Fabiano transforma pedaços de couro em lindos pares de sapato. Cerca de uma dezena por mês: “Principalmente para elas, que querem ter modelos diferentes ou parecidos com os das artistas da televisão. O cliente traz um sapato como modelo ou uma foto de revista, internet... E eu faço”. Sapatos para pessoas com defeitos nos pés também são fabricados por ele sob encomenda.
Entre lápis, tesoura, couro, pregos, tachinhas, martelo, máquina de costurar e outras ferramentas, ele lembra que o ofício foi ensinado pelo pai, que assim como ele, já fabricou modelos no atacado. “Seo” Fabiano, por exemplo, teve uma fábrica de sapatos durante 35 anos na Praça Itália. Já aposentado, ele passa os dias trabalhando em uma oficina que construiu na casa que era do avô, na quadra 2 da rua Alfredo Maia, na Vila Falcão.
Variedade
“Meu pai fazia chuteiras para o Noroeste na época do Pelé”, orgulha-se José Carlos.
Atualmente, os sapateiros não se restringem aos calçados, mas sim a diversos outros acessórios como bolsas, carteiras, cintos e, no caso de Fabiano, botas de Carnaval. Sim, ele é o responsável pela confecção de uma boa parte dos sapatos usados pelos destaques das escolas de samba de Bauru, entre elas a Cartola e a Tradição. “Logo vou começar a trabalhar nesses calçados”.
Ter um par de sapatos exclusivos pode custar menos do que se imagina. Feitos com material sintético, eles custam em torno de R$ 45, e de couro R$ 60. Além do couro verdadeiro e do sintético, o experiente sapateiro usa pneus velhos para fabricar sandálias e chinelos.
Loja de música
Não é difícil encontrar crianças e adolescentes que nunca tenham pisado em uma loja de música. Alguns nem ao menos imaginam ir até um estabelecimento comercial para “comprar um som”. Contudo, mesmo em época em que a música é consumida e baixada instantaneamente da internet, os LP’s (sim, aqueles ouvidos em vitrolas) parecem voltar com força total. Segundo o comerciante Marcos José Kerche da Cunha, o Marcão, essa é a aposta da indústria fonográfica, principalmente nos Estados Unidos, onde ao menos 15% dessa indústria já é de vinil.
E engana-se quem pensa que isso é coisa do saudosismo dos mais velhos. “A garotada de 18 a 35 anos está apostando nessa forma mais artesanal de ouvir música para sair das telas, seja do computador, TV ou celular. É uma maneira de desestressar, porque a pessoa precisa ir até a prateleira, escolher o que quer ouvir, tirar o disco da sua embalagem, procurar a faixa que se quer ouvir... É uma delícia. Ela sai da mesmice, do mecânico do MP3, MP4... Você consegue ouvir os detalhes dos músicos. Até as capas são bacanas. Os artistas mandavam recados para os fãs por elas”, comenta Marcão, proprietário da Music Sound (Bauru Shopping), na Vila Nova Cidade Universitária.
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A onda chegou para ficar nos grandes centros do Brasil, mas em Bauru também é possível encontrar alguns clássicos produzidos em formato LP, principalmente os importados. Em alguns casos, o pacote oferece o álbum em vinil e CD, e o vinil é o principal.
“É claro que o que acontece nas capitais demora uns cinco anos para chegar ao Interior, mas chega. Temos produções quentinhas, saídas da fábrica e que já estão sendo vendidas para o Natal. Dá para encontrar um acervo de até 50 títulos diferentes”, garante Marcão.
Loja de restauração
Quando se fala em loja de móveis restaurados, a ideia que se tem é de um barracão com um amontoado de itens de madeira velha, certo? Não mais. A procura e a valorização por esse tipo de peças, principalmente pelos mais jovens, está levando cada vez mais à sofisticação desse tipo de comércio. Restaurar o que é velho e manter as suas características ou “dar uma modernizada” nas peças é, cada vez mais, tendência.
“As peças são de madeira maciça, coisa rara hoje em dia. Isso, aliado ao trabalho manual da restauração, garante charme e exclusividade às peças. Conheço um jovem casal que montou a casa todinha com móveis antigos, muitas peças relíquias de família”, narra o restaurador Fernando Rosa, dono da loja de compra e venda de móveis e decoração que leva o seu nome, na quadra 15 da rua Araújo Leite, Centro.
No ramo da restauração há 16 anos, Fernando lembra que o bom gosto também tem seu preço, mas isso varia de peça a peça. É possível comprar um criado-mudo de madeira maciça por R$ 160 a R$ 180. Valor que pode chegar aos R$ 2.400 em uma cômoda em estilo império.

