Bairros

Semma propõe cercar lagoa da Quinta da Bela Olinda

Marcele Tonelli com Bruna Dias
| Tempo de leitura: 5 min

Quioshi Goto

Mesmo com aviso sobre mais de 70 mortes, banhistas seguem nadando na lagoa

Palco de mais de 70 mortes por afogamento ao longo de décadas em Bauru, a lagoa da Quinta da Bela Olinda parece estar com os dias de banho contados. 

A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) deve apresentar na próxima quinta-feira, ao prefeito Rodrigo Agostinho, um projeto que propõe o fechamento com cercas e a urbanização da área.

A medida, segundo o titular da pasta, Valcirlei Gonçalves da Silva, tem como objetivo coibir os banhos no local, transformando a lagoa artificial em um recinto de contemplação e espaço de lazer e descanso.

A informação sobre o projeto foi antecipada ontem pelo secretário que, apesar de contar detalhes sobre o “futuro parque” à reportagem, não apresentou oficialmente a planta.

“A lagoa permanecerá e a proposta é a revitalização do local com pistas para caminhada, como já fizemos no Parque União. O banho continuará sendo proibido, até porque aqui não é local apropriado. Muitas pessoas trazem até animais, como cavalos, neste local”, alertou Valcirlei.

O projeto da Semma ainda está em fase de levantamento e deve ser apreciado pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), responsável pela autorização e regularização ambiental da obra. O órgão também deve estar presente na reunião que será realizada às 9h, com o prefeito, na sede da Semma, na próxima quinta.

‘Ibirapuera de Bauru’

Na prática, o parque teria aproximadamente 158 mil metros quadrados, área que corresponde desde o “meio” do bairro até as margens da rua Dezenove.

A lagoa ganharia grades ou alambrados em seu entorno e teria entrada e saída dos usuários controladas por funcionários em uma guarita construída no local.

Além disso, o projeto, segundo o secretário, também contemplaria a construção de pistas de caminhada e ciclismo, sanitários, pergolados e decks de madeira com vista para a lagoa.

“Seria como um Ibirapuera, mas menor. É como se fosse o Vitória Régia dentro do Bosque da Comunidade. Um parque voltado para o lazer, mas com regras e horários controlados”, compara Valcirlei.

Questionado sobre a possibilidade de cobrança para ingresso dos usuários, Valcirlei é enfático. “É claro que preferimos que seja gratuito, mas tudo irá depender dos recursos disponíveis. Talvez haja necessidade de uma taxa para preservação e manutenção do local, mas tudo será estudado”.

Além da mudança estrutural, o secretário lembra ainda da necessidade de criação de uma lei municipal que proíba o banho no local. O projeto em questão é desenvolvido pela arquiteta da Semma, Raquel Biem, e, conforme o secretário, é inspirado em modelos de parques existentes nas capitais brasileiras.

“Alguns técnicos defendem que aquela área deveria ser isolada, mas assim a segurança não ficaria garantida. É preciso que a proibição de banho exista. Uma obra como essa, além de assegurar isso, irá valorizar o bairro e proporcionar mais lazer para a cidade”, defende Valcirlei.


Alto índice de mortalidade

Com aproximadamente 60 mil metros quadrados de área, a lagoa da Quinta da Bela Olinda é o local onde os afogamentos são registrados com maior frequência em Bauru. Com a proximidade do verão, a tendência é que os acidentes com pessoas que se arriscam na água voltem a ocorrer.

O alto índice de mortalidade na lagoa da Quinta da Bela Olinda deve-se, basicamente, a duas características do local: o sedimento que compõe o fundo da lagoa e o terreno irregular.

Até mesmo próximo à margem, a lagoa tem variações de profundidade que podem alcançar até 8 metros de profundidade, conforme afirma o Corpo de Bombeiros.

Apesar de existirem placas há anos, que apontam o perigo do local – inclusive o número de mortes –, crianças, jovens e adultos continuam frequentando a lagoa para banho.

Nesta semana, a adolescente Karoline Beatriz Natal Dias, 12, moradora do Pousada da Esperança 2, morreu afogada na lagoa enquanto nadava com outros dois amigos. O corpo dela acabou afundando, sendo encontrado por uma equipe do Corpo de Bombeiros pouco mais de uma hora após o ocorrido.

No dia 5 de outubro, uma adolescente de 14 anos também morreu afogada no local. Mariana Cristina Vieira Caetano era moradora do bairro Ferradura Mirim.


Treinamento

O Corpo de Bombeiros de Bauru realizou ontem uma solenidade para comemorar a formação de oito bombeiros em um curso de especialização em mergulho autônomo. Do total de mergulhadores, dois serão deslocados para a equipe de Bauru, que já conta com 15 profissionais da corporação formados na área.

O curso em questão, conforme explica o coordenador da equipe, tenente Victor Tozi, teve duração de 45 dias e contou com estudos práticos e treinamentos.

“O índice de afogamento na região aumenta muito no verão. A formação permite a eles atuarem em águas profundas e com visibilidade quase zero, como é o caso dos rios da região e da lagoa da Quinta da Bela Olinda”, frisa o tenente.Além disso, a capacitação também deve proporcionar maior rapidez em resgates de vítimas de afogamento, inclusive com corpo submerso, como aconteceu em Bauru com a jovem Karoline nesta semana.


Vereador quer mudar nome da lagoa

Preocupado com mais uma morte por afogamento na lagoa da Quinta da Bela Olinda, o vereador Markinho da Diversidade (PMDB), esteve no local na tarde de ontem acompanhado do secretário municipal do Meio Ambiente, Valcirlei Gonçalves da Silva, e do coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito.

Na oportunidade, Markinho da Diversidade lançou uma campanha para que a população passe a chamar a lagoa por um novo nome – “Lagoa Assassina” – e já conseguiu patrocínio de uma empresa para a confecção de placas indicativas para serem fixadas no local.

“Toda época de calor o problema é o mesmo e isso precisa acabar. Por isso eu sugeri o nome de ‘Lagoa Assassina’, para que quem venha aqui fique impactado com o nome”, explicou.

Markinhos abordará o assunto na sessão da Câmara da próxima segunda-feira.

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