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Um conto árabe

Ismar Pereira
| Tempo de leitura: 2 min

Os italianos e os espanhóis vieram a nossa região para pegar no pesado, isto é para trabalhar nas lavouras de café. Talvez pela própria maneira de ser, aliada ao desgaste provocado pelo trabalho árduo, muitas vezes esses imigrantes eram introvertidos.

Já com os árabes em geral ocorria exatamente o oposto. Eles vieram para desempenhar um trabalho bem mais ameno, isto é, praticar o comércio. Talvez pelo próprio DNA aliado às exigências da profissão, sempre foram muito falantes e extrovertidos. E foi um libanês, avançado em anos mas sem nunca ter perdido a jovialidade, quem me contou esta história.

No meio de um deserto terrível, com sol implacável e calor escaldante, havia um oásis maravilhoso, com muitas tamareiras e um lago de água límpida e fresca. Enfim, era uma verdadeira benção de Deus.

Ou, em outras palavras, um pedaço do paraíso perdido no meio do inferno. Com tantos atrativos, o local tornou-se parada obrigatória para todas as pessoas que ousavam desafiar o deserto. E foi exatamente lá que dois homens, relativamente jovens, conheceram-se e se tornaram grandes amigos. Um deles era sultão, poderoso e rico, dono e uma fortuna incalculável. O outro era um mercador, razoavelmente aquinhoado mas ainda lutando por "um lugar ao sol" (desculpe o trocadilho).

Durante uma tarde calorenta, os dois estavam nadando no lago quando o sultão sofreu um mal súbito e começou a se afogar. Só não morreu porque o amigo, arriscando a própria vida, conseguiu salvá-lo. Já refeito, de volta à tenda, o sultão chamou o seu homem de confiança e ordenou-lhe: "Procure a rocha mais dura e escreva nela, com letras grandes: ?neste local, arriscando a própria vida, Mustafá salvou a vida do seu amigo El Shakir!"

Tempos depois, durante uma discussão por motivos fúteis o mercador perdeu a cabeça e deu um tapa na cara do sultão.

Quando caiu em si e percebeu a gravidade do ato que havia cometido, ficou apavorado. Diante da possibilidade de perder a cabeça ? desta vez, literalmente!

- Tremeu quando o sultão chamou o ordenança. Aguardando o que poderia ser a sua sentença de morte, ouviu o seguinte: "Escreva: neste local, por motivo fútil, Mustafá deu um tapa na cara do seu amigo El Shakir!" E completou: "Mas escreva na areia!"

Passado o susto, o mercador disse ao amigo: "Quando eu salvei a sua vida, você mandou escrever na rocha. Agora eu lhe dei um tapa, você mandou escrever na areia. Qual o motivo dessa mudança?" A resposta foi sábia: "As coisas boas devem ser escritas na rocha para durarem para sempre.

As coisas ruins devem ser escritas na areia, para que o vento consiga varrê-las o mais rápido possível. ?

Em tempo: E você, prezado leitor, escreveu na rocha algo que deveria ter escrito na areia? Acredito, sinceramente, que não. Mas, se eu estiver enganado, aproveite esta época para fazer a mudança. E o seu Natal será muito melhor!

O autor, Ismar Pereira, é advogado aposentado e colaborador de Opinião

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