Em um intervalo de menos de seis horas, duas pessoas foram assassinadas ontem na região da Vila Dutra, zona noroeste de Bauru.
No primeiro caso, ocorrido por volta das 10h, oito tiros de pistola nove milímetros mataram o comerciante Osman Francisco dos Santos, 49 anos, conhecido como Baiano, que foi executado enquanto trabalhava em sua mercearia localizada no cruzamento das ruas João Quaggio com Nelson Luiz.
Algumas quadras dali e poucas horas depois, o travesti Ariedson Brito de Oliveira, de 27 anos, conhecido como Thays, morreu atingido por um tiro no tórax durante um ataque à república em que ela morava com outras cinco travestis (leia mais abaixo).
O primeiro crime não durou mais do que 10 minutos. Dois homens usando roupas pretas chegaram em uma moto Falcon preta na mercearia de propriedade da vítima, pouco depois do estabelecimento ter sido aberto.
Conforme o JC apurou, um dos acusados teria descido do veículo e entrado no estabelecimento. Ao encontrar um cliente no interior da padaria, determinou que ele deixasse o local imediatamente e, logo depois, iniciou os disparos – foram sete tiros na cabeça e dois no peito.
Foram sete disparos seguidos e mais dois posteriores. O corpo do comerciante ficou estendido no lado interno do balcão. No momento em que a polícia chegou ao local, a vítima ainda segurava seu celular, que foi apreendido, para investigação. Uma mulher que ficou sabendo da morte do comerciante disse que a vítima era uma boa pessoa. “Eu comprava pão todos os dias aqui. Ele era um homem bom, emprestava dinheiro para muita gente. Hoje (ontem) fiz um bolo e não vim buscar pão. Meu marido passou aqui e me avisou.”
Os filhos – três mulheres e um homem, assim como a esposa do comerciante – não quiseram falar com a equipe do JC. Estavam em estado de choque e empenhados em ajudar a polícia a encontrar o autor dos disparos. Contudo, até o fechamento desta edição, ninguém foi preso.
Pistas
O titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) da Central de Polícia Judiciária (CPJ), Kléber Granja, esteve no local e afirmou de forma categórica que a motivação do crime ainda era uma incógnita. Nenhuma possibilidade estava descartada até que a equipe de investigadores colhesse todos os dados e traçasse uma linha a ser seguida.
“Os suspeitos são dois ocupantes de uma moto preta que usavam roupas pretas também. Eles chegaram e empurraram um freguês para fora e atiraram. Não temos pistas. Há muitas possibilidades.”
Os autores do crime não subtraíram nada do estabelecimento, o que afasta a hipótese de latrocínio.
Travesti é morto em república
O segundo crime que acometeu a região do bairro Vila Dutra aconteceu ontem por volta das 15h30 e também chocou os moradores.
Ariedson Brito de Oliveira, conhecido como Thays, foi morto com um tiro no tórax enquanto a república em que morava com mais cinco travestis era alvo de um ataque a tijoladas e disparos de arma de fogo por parte de um grupo formado por aproximadamente oito pessoas.
A vítima, quando foi atingida, estava sentada em um beliche próximo a uma janela, que teve parte dos vidros estilhaçados com o ataque. No momento, todas as moradoras estavam na casa, mas ninguém mais se feriu.
Após perceberem a morte de Thays, os acusados fugiram correndo do local. Dois suspeitos, um adolescente de 14 anos e um homem de 21 anos, chegaram a ser detidos pela Polícia Militar posteriormente acusados de participação no crime.
Mas, até o fechamento desta edição, os suspeitos aguardavam na Central de Polícia Judiciaria pelo reconhecimento das demais testemunhas e por exames residuográficos que pudessem detectar a presença de pólvora neles. A arma do crime não foi encontrada.
O casebre que abriga a república em questão fica na quadra 2 da rua Antônio Euclides Ribeiro, no Parque Real, região da Vila Dutra.
Thays era natural do Guarujá e morava em Bauru há aproximadamente duas semanas. Segundo as colegas de quarto, ela e outra amiga, também do Litoral, vieram para a cidade e se sustentavam por meio da prostituição na avenida Nações Unidas.
“Ela estava indo embora hoje (ontem) para o Litoral. O pessoal aqui é muito preconceituoso, tinha muita rixa com a forma como ela se vestia. Agora, vamos todas sair daqui, não tem condições de morar numa rua de biqueira”, ressaltam as travestis Paola e Flávia, que pediram para não terem os nomes de batismo divulgados na reportagem.
Opiniões contraditórias
Um homem sem camisa, tatuado e com o cabelo tingido chegou ao local do crime e foi logo ultrapassando a barreira imposta pela Polícia Militar (PM).
Gritava que Baiano era seu pai, possibilidade que logo foi descartada pela família e pelos documentos. Ele enfrentou os policiais e acabou sendo levado para a delegacia, sendo autuado, posteriormente, por desacato. Dizia que estava passando por momentos difíceis e que era incompreendido.
Uma moradora do bairro disse que o misto de mercearia/padaria e bar era frequentado por muita gente. “Aqui acontecia de tudo. Eu nunca vi, mas falavam que ele mexia com drogas também. Mas era um homem bom. Atendia a todos mundo bem.”
Outro morador contou que Baiano tinha muitos “rolos”. “Fazia rolos de carro, mexia com caminhão de laranja e tinha alguns desafetos. Ele construiu a casa em cima da mercearia, mas não morava ali não. Nem sei onde ele morava”.
Homofobia?
Para o delegado plantonista, Mario Henrique Ramos, que esteve no local, não há dúvidas de que o caso tenha envolvimento com a homofobia. “Ainda está tudo muito confuso. Elas dizem que a república existe há vários anos e que a briga com a vizinhança começou depois que chegaram as travestis do Litoral e andavam de shortinho e de biquíni pela rua fazendo programas”, comenta o delegado.
A mesma hipótese também não é descartada pelo delegado Kléber Granja, que atuou na ocorrência. No entanto, ele acredita que a intolerância da própria vizinhança quanto a questões relacionadas à perturbação do sossego possam ter motivado o vandalismo e resultado no crime.
Outra possibilidade levantada no local seria um possível acerto de contas de traficantes com a travesti. “Não descartamos nada ainda. Tudo será investigado”, acrescenta Ramos.
A Polícia Militar realizou buscas nas casas do adolescente e do homem suspeitos, mas nada foi encontrado.
Serviço
Denúncias de crimes contra homossexuais devem ser comunicados ao Disque 100, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos.
Malavolta Jr. |
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A área do crime foi isolada pela PM para o trabalho da perícia técnica |