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Gorduras acumuladas nas camadas internas dos vasos deixam as paredes ásperas |
O mundo celular e molecular teima ensinar e demoramos muito a compreender. Por exemplo, demorei décadas para aprender: ganha-se uma discussão, perde-se um amigo. Não vale a pena, exponha sua ideia e que ela ganhe vida própria e adeptos: se adotada tinha a força intrínseca do argumento; se não, ela era ruim ou inoportuna! Ganhar discussão no grito, na imposição e ou com palavras imponentes e rebuscadas se chama aspereza! O dono da verdade e controlador do ambiente só faz mal!
No sangue, o líquido se chama plasma, a parte sólida são células. As vermelhas são hemácias ou eritrócitos, as brancas são leucócitos ou células de defesa ou imunológicas. As hemácias são mais numerosas, por isso o sangue é vermelho. No sangue, ainda tem as plaquetas, pequenos pedaços de células cheios de substâncias importantes. As substâncias do plasma e das plaquetas são essenciais para o sangue coagular; sem elas, morreríamos de hemorragias.
Dentro do vaso é tão liso que, se passássemos o dedo, teríamos a mesma sensação de deslizarmos sobre a superfície da gelatina na geladeira: é muito liso! Quando andamos, os movimentos normais machucam os vasos por dentro e é normal. As plaquetas e as substâncias plasmáticas fecham por dentro as pequenas lesões e reparam a parede dos vasos, como uma mangueira furada vazando água: uma cola interna fecha os buraquinhos!
Como o organismo sabe que deve coagular o sangue nos machucados dentro ou fora do vaso? Nos machucados, o plasma deixa de passar em uma superfície super lisa dentro do vaso e vai encontrar superfícies ásperas, irregulares, molhadas, ressecadas, irregulares: isso ativa o fator XII ou de Hageman ou da aspereza!
O fator de Hageman inicia uma sequência de reações bioquímicas que resulta na coagulação do sangue, fora ou dentro do vaso, ao se encontrar com superfícies ásperas. Na hematologia, dá-se nome dos primeiros pacientes às doenças e substâncias onde foram encontradas pela primeira vez, como em John Hageman, identificado em 1955 por Ratnoff e Colopy.
Nos sangramentos e hemorragias se usa gaze no lugar de algodão para estancar e comprimir os vasos. No algodão hidrofóbico, o sangue, saliva e outros líquidos formam uma superfície lisa, tão lisa que não facilita a ativação por aspereza do fator de Hageman. A gaze hidrofílica absorve o líquido e fica sempre áspera, o que facilita muito a coagulação e o estancamento sanguíneo nos ferimentos. Se utiliza a gaze e não o algodão nestas situações pela sua aspereza!
Infarto e aspereza
Do intestino para o fígado, nosso centro metabolizador, e deste para outras partes, a gordura transita pelo sangue e, entre elas, o colesterol. Os vasos sanguíneos são como uma mangueira d’água, internamente são revestidos por uma fina película de células ou endotélio, apoiado na camada mais interna ou íntima da parede do vaso que nutre e suporta-o. O endotélio tem permeabilidade às gorduras que se acumulam gradativamente em uma área da parede do vaso.
Em outras palavras: debaixo do revestimento delicadíssimo dos vasos, acumula-se com a idade gorduras como o colesterol. Em um vaso no cérebro ou no coração, pode se acumular gorduras em um ponto, o diâmetro por onde passa o sangue pode diminuir e nesse lugar o revestimento ficará áspero. Neste ponto, células musculares proliferam, fagócitos aumentam e a inflamação ocorre, aumentando-se o efeito nocivo do acúmulo de gordura.
O sangue, ao passar pelas elevações e irregularidades internas por depósito em excesso de gorduras, ativa o Fator de Hageman ou o “fator da aspereza”! Neste lugar formará um coágulo sanguíneo intravascular e o fluxo sanguíneo será parcial ou totalmente interrompido, afetando a função daquela parte do corpo.
Se isso acontecer no coração ou no cérebro, a parte dos tecidos nutrida por este vaso entupido sofrerá necrose ou morte celular. A área necrótica se chamará infarto e deixará de executar as funções como contração do miocárdio e estímulos neurais. A morte do indivíduo pode acontecer, pois a lesão pode ser maior ou menor. A causa de morte mais comum em brasileiros são os distúrbios circulatórios, especialmente o infarto do miocárdio ou cerebral.
O corpo fala: a aspereza pode matar! Sejamos elegantes e educados. Até porque o áspero, rústico, reclamão e mal educado também é estressado, come, ama e vive mal, além de ficar imunodeprimido e infeliz.
Sai pra lá! Xô!
Alberto Consolaro é? professor titular
da USP - Bauru. Escreve todas
as segundas-feiras no JC.
Email: consolaro@uol.com.br
