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Onde estão os "Mandelas"?

Fabio Galazzo
| Tempo de leitura: 2 min

O mundo se despediu, na última quinta feira (5), de uma das maiores figuras políticas e humanas do século XX, o sul-africano Nelson Rolihlahla Mandela. Advogado, opositor ferrenho do regime que ficou conhecido como apartheid, apoiou a luta armada promovida pelo Congresso Nacional Africano (CNA) na década de 60 e, após um longo tempo na prisão (1963-1990), também soube abandoná-la, e buscar não só nas palavras, como nas atitudes políticas, a conciliação entre negos e brancos, num ato de grandeza, inteligência e liderança. A revanche, embora justificável, traria fatalmente um saldo trágico para todos, como é peculiar à sua natureza.

Curioso é constatar que as mesmas virtudes que qualificam Nelson Mandela e o tornam, por assim dizer, único, são características às quais se espera da grande maioria dos líderes quando eleitos ou promovidos à liderança por uma revolução popular. A inteligência, a sensatez e a grandeza de espírito, deveriam ser qualidades inerentes àqueles que postulam a representação máxima de um povo. Mas, infelizmente, não são. A enormidade da figura de Mandela contrasta e se justifica não somente pelo que ele foi, mas também pelo que todos os outros governantes deveriam ser, o que de forma alguma tira o seu mérito, pelo contrário. Porém, é intrigante pensar que tamanha figura se destaca por ter feito o que ninguém faz, embora seja o que todos esperam.

Aqueles que combatem regimes autoritários e/ou corruptos, via de regra, acabam por "usar a carapuça" dos mesmos quando chegam ao poder. Foi assim na Rússia de Stalin, na revolução de Cuba e porque não dizer no Brasil, onde o governo atual, historicamente de esquerda, também utilizou-se da conciliação, porém em versão menos honrosa, para conquistar seus objetivos. Não é raro ver nos dias de hoje os opositores dos tempos da ditadura aparecerem com os antigos inimigos de mãos dadas em palanques eleitorais, pronunciando palavras de cooperação, não para evitar o ódio, mas para associarem-se nos desmandos e no velho jeito brasileiro de fazer política. Resta então a seguinte pergunta: onde estariam os novos "Mandelas"? Por que não vemos surgir na política figuras que reúnam todas essas características?

É certo que a trajetória do grande "Madiba", como é natural da vida, foi fortemente influenciada pelas circunstâncias, que eram propícias ao surgimento de um líder condutor da população negra ao poder. Mas muitos países viveram e vivem em situações que também são altamente favoráveis ao surgimento de novos líderes de valor e, apesar disso, não é o que se constata. Estaria o homem valoroso, avesso à política que se pratica hoje, onde predomina somente o interesse econômico? Ou em uma perspectiva ainda pior, o poder e a influência desmoralizam o homem de bem? Triste seria constatar uma conjunção de ambos os fatores.


O autor, Fabio Galazzo, é colaborador de Opinião

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