Articulistas

Você curtiu o Mandela?

Victor Kraide Corte Real
| Tempo de leitura: 4 min

"Baita pergunta de mau gosto puseram no título deste texto". Provavelmente foi uma indagação assim que provocou você a ler estas linhas. Muito bem, já que chamei sua atenção, vamos ver se consigo transmitir meu ponto de vista e explicar o duplo sentido do verbo "curtir" aqui utilizado. Sim, foi com mais de uma intenção que perguntei se você curtiu o Nelson Mandela. Pode parecer coisa de maluco isso, não é? Difícil imaginar alguém capaz de não curtir, admirar ou respeitar um Prêmio Nobel da Paz e árduo defensor dos Direitos Humanos. No entanto, sabemos quantos seres humanos tratam outros seres humanos de infinitas formas desumanas e pouco se importam com as questões em torno de preconceito e de amor ao próximo.

Mandela lutou durante toda sua vida por um mundo melhor, mais justo e mais humano. Sua morte deixa um vazio imenso, só nos consola pensar que também deixa um maravilhoso legado na mesma proporção. Portanto, sinto muito por aqueles que literalmente não curtem ou não curtiram o Mandela.

Mencionei acima a expressão "literalmente" para ressaltar o verbo "curtir" em seu mais profundo e sincero sentido de "gostar", "admirar". A partir disso, podemos embarcar agora num outro uso do "curtir", muito mais pop, contemporâneo, superficial, banalizado e... consagrado pelas redes sociais da Internet.

Volto, então, à pergunta: "Você curtiu o Mandela?" Mas considerando agora se você curtiu alguma publicação, no Facebook ou no Instagram, motivada pela morte de Nelson Mandela no último dia 5 de dezembro? Lembrando que "curtir", neste caso, significa assinalar com um "joinha", um "coraçãozinho" ou qualquer outro recurso disponível nessas redes para indicar que você visualizou um texto e/ou uma imagem.

Abro um pequeno parêntese para lembrar que "curtir", nas redes on-line, corresponde à tradução literal do termo original em inglês - "like" -, que no fundo não significa necessariamente "gostei", mas indica a concordância com alguma manifestação publicada por outra pessoa. Afinal, seria realmente coisa de doido "curtir", no sentido literal do verbo, a morte de alguém! Fecho parêntese.

Apesar da referida incoerência do termo, muita gente "curtiu" as inúmeras publicações a respeito do falecimento de Mandela. Mesmo antes do ocorrido, o líder sul-africano já figurava entre os 10 tópicos mais abordados no Facebook, mas durante o período de luto subiu para a primeira posição, desbancando as menções ao Papa Francisco, e se tornou pauta no mundo inteiro.

O questionamento que me faço e que deixo aqui para pensarmos é: até que ponto, o enorme volume de textos e imagens compartilhados sobre Nelson Mandela nos últimos dias pela Internet, representam, de fato, uma efetiva homenagem, contribuem para uma real reflexão ou não passam de mais um mero modismo? Pode parecer uma opinião um tanto radical e negativa, mas fico com o pé atrás por ter recebido tantas notificações sobre o Mandela de pessoas que, arrisco afirmar, apenas "pegaram carona" no assunto e não se preocuparam efetivamente em discutir o tema. Sinto a mesma inquietação quando vejo pessoas vestindo camisetas com a clássica imagem de Che Guevara e fico pensando o quanto sabem sobre ele.

É verdade que, em meio a avalanche de dados, surgem belas mensagens, profundas manifestações de pesar e sensíveis relatos sobre a trajetória de Nelson Mandela. Fico incomodado com os oportunistas de plantão que, incapazes de gerar conteúdo crítico próprio, simplesmente repassam e/ou "curtem" a reflexão dos outros.

Segundo os pensadores da Escola de Frankfurt e fundadores da Teoria Crítica, a reprodução em série e a padronização do conhecimento são consequências da Indústria Cultural. Naquela época ainda não havia nem mesmo projeto de Internet, a preocupação era com o Rádio e o Cinema, e como a mídia afetaria as manifestações artísticas e banalizaria a produção cultural.

Os estudos daqueles autores proporcionaram sólidas bases teórico-metodológicas para as pesquisas sobre a comunicação. Porém, eles também foram julgados por outros estudiosos como sendo elitistas e pessimistas quanto às possibilidades de democratização do conhecimento a partir do compartilhamento em massa de informações.

Percebe o quanto a indagação "Você curtiu o Mandela?" não é uma questão simples? Será que o simples "falem bem ou falem mal, mas falem de mim" contribui de fato, ainda que minimamente, para informar, instruir e tirar as pessoas de situações de ignorância? Não sou tão otimista. Acredito que apenas "curtir" e "compartilhar" nas redes de relacionamento não trazem benefício intelectual, só engrossam o caldo das informações superficiais que tentamos digerir diariamente.

O autor, Victor Kraide Corte Real, é docente da Faculdade de Publicidade e Propaganda da PUC-Campinas.victor.real@puc-campinas.edu.br)

Comentários

Comentários