Tribuna do Leitor

Conta-Gotas


| Tempo de leitura: 2 min

Há anos, respeitoso advogado chama-me a atenção por haver declarado: a personagem morava "na rua". Corrige-me, declarando que "quem mora na rua é mendigo, e o correto seria morava à rua". Não respondi, mesmo porque não fui seu professor de Português. Registre-se: que mora, mora em algum lugar, logo mora na rua... A Língua Portuguesa insere-se num contexto mais amplo: a Comunicação e Expressão. Talvez seja esse um dos motivos por que sempre procuro analisar os comerciais. Um há de que não me esqueço. É por volta do Natal. A mãe tem dois filhos. O primeiro oferece-lhe um lenço. Ela o abraça e agradece. O segundo entrega-lhe um frasco de perfume. A mãe emociona-se: estreita o filho nos braços e chora. A seguir o primeiro filho diz:

- Use o lenço, mamãe!

Gostaria ? imenso ? de que a cena fosse real e não uma simples publicidade. É que no gesto espontâneo, marcado pela simplicidade, a imagem de um líder nato, fadado a grandes vitórias. A praticidade demonstrada na singeleza da atitude encanta-nos. Sete, oito anos?! Não mais do que isso. É a fase da heteronomia. A fase do vir a ser. Está pronto para buscar seu caminho, sem perder-se na jornada. Pena fazer tanto tempo...

Cena de esporte surpreende-me; melhor, encanta-me. A suavidade de uma música lenta, suave, por certo erudita. Quem seria o compositor? Belline, Beethoven, Mozart, Liszt? Não o sei eu. Mas a seguir aparece o "maestro" regendo a orquestra de jogadores de futebol. É o Felipão, gesticulando, braços para cima, para os lados, para baixo. Não há sintonia entre as jogadas e os gestos do "maestro". Nem podia. Um título para cena: "contraste"...

Mas o técnico afirma de maneira categórica: "O Brasil será campeão!"

Lembra-nos uma cena do passado: Vicente Feola reúne os jogadores para uma preleção. Diz a cada um o que fazer. Como desarmar os adversários russos, como chegar à vitória. Nisso, Garrincha, sempre tido como simplório, pergunta:

- Já combinou isso com os adversários?!

Não vislumbro qualquer "simplicidade" na pergunta. Hora de perguntar: Já está tudo certo com os rivais? Lembre-se: o centro-avante do Uruguai é muito mais técnico que Ghiggia... Não se esqueçam de 1950!...

Álvaro Baptista Pontes

Comentários

Comentários