Ciúme é algo transcendental. Não adianta. Todo mundo tem. Quem diz que não tem, mente. Quem não tem, com certeza tem. Você é ciumento, colega. Você range os dentes por conta daquele ciúme raivoso, sim senhor. Ou sim senhora.
Pasmem-se. Até a primeira-dama dos Estados Unidos mostrou que tem ciúme do marido. Apesar do depoimento do fotógrafo afirmando que as imagens foram mal interpretadas, prefiro continuar com a primeira ? e mais maldosa - versão.
Michelle fechou a cara enquanto o presidente norte-americano tirava foto de rostinho colado com a premiê dinamarquesa para postar no Insta. Se ela não tivesse franzido a testa e logo dado um jeitinho de trocar de lugar com o marido, com certeza a imagem teria ido parar na rede social com as hashtags: #socialmandibasfuneral #apartheid?hereno #Denmarkisbeautiful #blondegirl.
Não adianta. Todo mundo tem ciúme. Quem nunca quis voar no pescoço do companheiro depois daquele comentário no Facebook? Quem nunca quis matar quem deixou tal comentário? Que casal nunca passou horas brigando porque passou uma moça com pouco pano nas pernas? Quem nunca? Quem nunca que atire a primeira pedra.
Por falar em pedra, dizem os especialistas que não há qualquer indício de ciúme na pré-história. Como o instinto de sobrevivência estava sustentado na coletividade, tal comportamento individualista não teria vez. Será? Eu já acho que as clavas atiradas nos crânios da época eram os "avôs" dos rolos de macarrão.
Um dia, escrevi neste mesmo jornal a palavra "ciúmes". Por e-mail, um leitor me achincalhou. Mandou todo seu currículo como escritor de várias revistas famosas para me corrigir. "Sentimento não tem plural. Não existe ?ciúmes?", reclamou.
Está certo, leitor escritor de revistas famosas. Pelo português tradicional, você está certo. Substantivo abstrato não tem plural. Contudo, atualmente, muitos consideram correto pluralizar o "ciúme". E também a "saudade" (eu, por exemplo, tenho mais de uma saudade, mas isso não vem ao caso).
A expressão fechada da Michelle Obama pode ajudar a explicar o porquê de pluralizar o sentimento. Havia muitos ciúmes ali. Mais difícil do que enfrentar a oposição política, consertar os sistemas de saúde e tributário e explicar os escândalos de espionagem, será deixar de dormir no sofá, caro Obama.
O autor, Vitor Oshiro, é ciumento; repórter do JC em férias e com tempo livre; e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia