A ideia de que a economia mundial e a brasileira terão um crescimento menor em 2014 do que em 2013 é fruto de uma avaliação apressada de quem acredita que não existe governo, nem aqui, nem na China e, especialmente, nos Estados Unidos, onde se inicia uma recuperação que ? como habitual ? sai sempre na frente. No Brasil, ainda não temos números seguros sequer sobre o crescimento de 2013, mas já existem apostas para o ano que vem. O último resultado da pesquisa que reflete a mediana das opiniões do mercado financeiro crava 2,35% de crescimento do PIB para este ano e prevê um crescimento menor (2,1%), em 2014.
O ano que está terminando foi muito difícil tanto para a economia mundial como para o Brasil. Nosso PIB deve ter um crescimento próximo dos 2.3%, talvez um pouquinho mais no caso de se confirmar a atividade no trimestre em curso, mas não muito longe disso. As previsões pessimistas para o próximo ano são ainda fruto da ansiedade das pessoas diante dos atrasos na realização dos leilões das concessões de infraestrutura e da demora em resolver a questão dos preços dos combustíveis. E também, da recusa em enxergar os aspectos positivos das mudanças no relacionamento do governo e setor privado, que resultaram no sucesso dos recentes leilões das concessões de modernização da estrutura aeroportuária e de importantes eixos rodoviários.
O crescimento em 2014 não está "escrito na pedra"; é preciso conhecer os sinais indicando que a economia mundial começa a melhorar um pouquinho, adicionando ? pela primeira vez depois de cinco anos ? fatores positivos ao crescimento do comércio exterior. Isso vai se somar à recuperação de nosso câmbio: a resposta da indústria vai demorar um pouco, mas com certeza acontecerá ao longo do ano.
Os Estados Unidos são a maior economia do mundo ? e vão continuar sendo por muitos anos. Estão enfrentando o grave problema fiscal, melhorando as condições de retomada da atividade em bases firmes. Por enquanto, permanece no campo das apostas o momento da tomada de decisão do seu Banco Central ? o FED - para começar a reduzir a dimensão do afrouxamento monetário, cuja primeira consequência será a forte elevação dos juros, com rápida valorização da moeda americana. Isso pode ser anunciado já no primeiro semestre de 2014, significando um risco para o Brasil se o governo não tomar providências enérgicas para restabelecer a confiabilidade da sua política fiscal.
O que vai acontecer com a economia no ano que vem, insisto, não está escrito nas estrelas: o crescimento do PIB brasileiro dependerá muito da compreensão da sociedade, em primeiro lugar; da agilidade do governo, em segundo lugar, de entender o que está acontecendo lá fora e de reagir na direção correta, tempestivamente; e da habilidade no relacionamento com o setor privado, que é quem faz a produção.
Não há nenhuma razão para imaginar que 2014 será pior que 2013. Pelo contrário, há esperança que 2014 seja ligeiramente melhor do que 2013, desde que o governo tome as providências para atender as exigências das políticas fiscal e monetária, antecipando-se às mudanças das políticas monetária e fiscal americanas.
O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC