Ele vive desafiando obstáculos e manobras da vida, já levou muitos tombos, claro, mas também evitou outros tantos, como se o equilíbrio sobre as rodinhas do skate - sua paixão desde garoto - lhe ensinasse que a queda prepara para a execução perfeita. Para o promotor de justiça Enilson David Komono, a comparação não só é cabível como elemento simbólico, como também integra seus horizontes. Em casa, o skate é elemento obrigatório. Na sala da Promotoria Pública, o enfrentamento dos “desequilíbrios sociais” acontece de paletó e gravata. Na sociedade, o engajamento com projetos sociais e ações humanitárias é, ao mesmo tempo, pêndulo e antídoto.
Por isso, sua trajetória tem a junção entre a disciplina, a fé e a perseverança em relação aos objetivos, além de uma pitada diária de enfrentamento de conflitos sociais que, como na convivência com os usuários de crack, por vezes surgem na rampa como tombo certo. A vida, entretanto, nunca lhe foi fácil e, por outro prisma, nunca lhe será como uma manobra hardflip - típica do skatismo que parece difícil, mas no fundo, é de fundamentos simples.
Enilson David Komono, nascido no Jardim Bela Vista e que viveu a infância em uma casa com mais três irmãos no Altos da Cidade, é um sujeito simples, engajado em causas sociais, sobretudo ligado ao socorro a catástrofes em alguns países, integrou ações do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), é o titular do MP em Duartina (SP), o personagem que divide com os leitores o que fez e o que pensa sobre a arte de viver sem fronteiras, por dentro e por fora.
Jornal da Cidade - Quais são suas lembranças da educação recebida dos pais e da infância?
Enilson Davi Komono - Minha mãe soube muito bem combinar a educação com a tradição de nossa origem oriental com bom humor e a transferência de valores e limites, e ainda soube sempre ser muito tolerante, eclética e também incentivadora, como a possibilidade de aprendermos música, enquanto meu pai, sempre muito trabalhador, nos posicionou com referências.
JC - Qual sua relação com disciplina, meta e a trajetória da escola pública até o Ministério Público?
Enilson - A identificação com a disciplina e a meta de buscar objetivos esteve presente ainda em minha geração e isso fez a diferença em minha vida, a ideia de não desistir de objetivos, de persegui-los. Eu estudei a vida toda em escola pública e sou exemplo de que, apesar da dificuldade enorme, é possível. Não tem como salvar essa geração de diplomados semianalfabetos com cotas. Isso não vai resolver, só vai empurrar o problema. O mal causado na história não serve como elemento para romper essa barreira. 38% das pessoas que se formam em ensino superior têm dificuldades com a leitura. E no ensino médio isso chega a quase 70%. As cotas não resolvem, elas aprofundam.
JC - Qual a relação entre meta, disciplina e a escolha por sua carreira?
Enilson - Eu fui criado com metas de estudar e trabalhar. É até engraçado, porque as pessoas reconhecem meu feeling para o Direito, mas isso veio não por escolha direcionada, aconteceu. Eu trabalhava desde moleque e comecei a arrumar peças de skate, pesquisei e achei uma fábrica de peças em São Bernardo do Campo (SP) e ia pra lá sozinho de ônibus. Comprava peças, anunciava no Jornal da Cidade, vendia, estudava à noite, cheguei a ter quatro empregos durante uma fase da faculdade. Sempre fui estimulado a suar, ir atrás e buscar a independência financeira. Meu pai é exemplo pra mim, porque além de trabalhar muito, foi fazer faculdade de Direito depois dos filhos formados. E por isso, eu pensei de uma forma simplista que o direito seria um caminho, mas sem ter essa noção de carreira ainda. E fui fazendo a faculdade do jeito que dava, trabalhando as vezes à noite. Eu não sou amante da leitura. Tenho facilidade para memorização. Não sou apreciador de discussões sobre teorias jurídicas, mas o aprendizado me trouxe essa boa relação com o Direito. Ao concluir a faculdade, passei meses estudando no cursinho do Damásio Evangelista para passar em concurso. Eu tinha um Logus, uma moto CBR e eu vendi a moto e fui estudar em São Paulo. Era tudo o que eu tinha. Estudei, me dediquei e passei. Eu pensei em ser juiz, mas a magistratura na época exigia exercício da advocacia por três anos, como é hoje para ambas as carreiras. Então eu optei pelo Ministério Público. A estabilidade falou mais alto, e daí a opção pelo concurso público.
JC - Mas nessa busca de objetivos, você foi instigado a desistir e vieram obstáculos e decisões a tomar?
Enilson - No primeiro concurso eu fiz 77 pontos e a nota de corte era 78. Não passei. Fiquei muito chateado, e na mesma semana entraram na casa de meus pais e levaram meu carro, que era o único que não tinha seguro à época. Minha reserva financeira se foi. Na semana anterior eu fui reprovado na segunda fase em um concurso para procurador em Goiás. Eu acumulei uma série de traumas nessa época. E o dinheiro da moto estava acabando. E eu teria de retornar a Bauru e trabalhar. Fiquei bem chateado. E eu pensava só que “eu sou”, “eu vou”, “eu posso”. E é preciso tomar cuidado com esses sentimentos. Ao ir no metrô, em um dia chuvoso, senti meu contato com Deus e senti que ele me dizia que eu parasse de pensar que eu poderia tomar conta de tudo, que confiasse em Deus e perseguisse sim os objetivos, mas com calma. Meu pai me ligou e disse que largaram meu carro em frente a um colégio com a chave dentro. Eu fiquei em paz. E naquela semana, pela primeira vez em concursos, o Ministério Público reformulou uma questão e eu havia acertado, mas não pontuado. Passei para a segunda fase e nas etapas seguintes e ingressei para a carreira. Sou promotor deste concurso em que eu havia sido reprovado inicialmente. A partir daí, passei a entender que eu devo seguir meu esforço, valorizar ele, mas ter a convicção de que existe Deus conduzindo o universo. Cresci em ambiente cristão, mas a gente só entende Deus e a questão espiritual quando tem experiências como essa que eu tive. E também entendi que entrei para o Ministério Público com o dever de servir ao próximo, e tenho que retribuir à sociedade e desempenhar meu papel com afinco.
JC - O que aflige o promotor público em seu cotidiano?
Enilson - O individualismo e, no caso das atribuições do promotor, a insistência do poder público e da sociedade em tratar a questão da droga como problema psiquiátrico. Eu atuo em uma Comarca, em Duartina, onde o promotor tem todas as atribuições, porque é um juiz e um promotor. O tratamento ambulatorial para o viciado não tem adesão e o usuário abandona, nem inicia a recuperação de fato, e regride. Creio que o regime de recuperação tem de estar atrelado a tratamento juntamente com inserção psicológica e social. Junto com o tratamento em si, medicamentoso ou não, tem de estar vinculadas ações multidisciplinares, de assistência social e psicológica, acesso à cultura, esporte, novas amizades, ambiente propício. Se não houver essas questões ligadas, não vai funcionar. Internar em um hospital, tratar com medicamentos, quando é o caso, e devolver esse jovem à sua vida não funciona. Na outra ponta, se não investir em prevenção não adianta. Essa bomba já está estourando na sociedade. O crack é praticamente irreversível, muito difícil reverter, recuperar. Isso me gera muita aflição.
JC - Como você se engajou com o voluntariado?
Enilson - Sempre tive vontade de ajudar em ações pós-catástrofe e conheci a SOS Global, uma organização que é o braço da Associação Missão Esperança no Brasil, e eu ajudava financeiramente no início. Mas a partir de 2009, quando houve uma catástrofe em Ilhota, em Santa Catarina, eu tive oportunidade de ir pra lá. Tirei férias e participei da ação lá, verificando no local que há muito espaço para trabalho de organização, liderança em campo, logística, distribuição, organização da galpão, abrigo e estrutura. Para um médico poder atender pacientes em volume é preciso uma logística de gente que saiba fazer triagem, preencher ficha, distribuir medicamento. Se o médico não tem esse apoio ele atende 30, quando poderia atender 100 com logística de apoio. E me engajei nisso. E eu gosto dessas atividades e acabei me tornando uma dos coordenadores da organização.
JC - Qual sua visão sobre o promotor público e o universo de desigualdades?
Enilson - Na Promotoria que estou atuando vejo o papel que o promotor pode desempenhar e ações em que ele pode se omitir também. Uma boa parte das aflições sociais depende dessa participação ativa do promotor, que tem a obrigação de tomar ações em defesa da sociedade. Acho que o promotor na situação atual não pode ser somente de gabinete, tem de deixar o gabinete, interagir com o meio, visitar entidades, verificar o cumprimento de normas e obrigações in loco. E ao percorrer a rua, as instituições, o promotor vislumbra outras realidades que não chegam a seu gabinete. Tem de conhecer o diretor da escola, visitar o diretor do hospital, participar, ir ao asilo, creche, casas de recuperação, etc. O promotor de gabinete é possível, mas inviável como guardião do cumprimento da lei. A vida é resultado de escolhas e de perseverança.
JC - O que é o projeto Sementinhas?
Enilson - Estamos atuando, com minha esposa e outros amigos, no projeto de uma creche em regime integral para 100 crianças. O projeto chama-se Creche Sementinhas. Adquirimos o terreno com mais de 800 metros quadrados na Vila Independência e, junto com a minha esposa, concluímos o projeto. Ela é arquiteta e fez o projeto. Montamos já a Associação Creche Sementinhas. Começamos a construir e a levantar recursos para esse custeio. Tem amigos, parceiros engajados no mesmo trabalho e conseguimos levantar mais de R$ 100 mil, além de parcerias fortes como Blocos e Blocos, Tauste, Expresso de Prata. Agora estamos com divulgação de material institucional para concluir a obra e precisamos de parceiros para essa etapa. Empresas ou pessoas físicas interessadas podem me contatar pelo e-mail (enilsonkomono@gmail.com).