O arcebispo sul-africano Desmond Tutu não irá comparecer ao funeral do amigo e também herói anti-apartheid Nelson Mandela, hoje, porque não recebeu um convite formal e não quer ser um “penetra”, disse ele ontem.
Reuters |
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Após inúmeras homenagens, corpo de Mandela é levado para a casa da família em Qunu |
Autoridades do governo insistiram em dizer que ele está na lista de convidados. No entanto, o escritório do prelado anglicano declarou em um comunicado que Tutu cancelou os planos de viajar para a província do Cabo Oriental para o funeral “por não ter recebido nenhuma indicação de que seu nome esteja em uma lista de convidados ou de credenciados”.
Mandela, primeiro presidente negro da África do Sul e falecido na semana passada aos 95 anos, teve uma amizade estreita com Tutu - ambos foram laureados com o Prêmio Nobel da Paz -, forjada durante a luta contra o apartheid.
A ausência de Tutu na despedida final do ícone mundial despertou dúvidas sobre o relacionamento tenso do verborrágico clérigo com o atual governo sul-africano e com o partido governista, o Congresso Nacional Africano (CNA).
“Se eu, ou meu escritório, tivessemos sido informados de que eu seria bem-vindo, não perderia por nada no mundo”, disse Tutu no comunicado.
“Por mais que eu fosse adorar comparecer à cerimônia para dar meu último adeus a alguém que amei e valorizei, teria sido desrespeitoso com Tata entrar sem convite no que foi informado ser um funeral particular”, disse, usando o termo afetivo ‘Tata’ para Mandela, que na língua Xhosa significa ‘pai’.
Indagado a respeito do não comparecimento de Tutu, Clayson Monyela, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, disse mais cedo à Reuters: “Desmond Tutu com certeza está na lista de convidados”.
‘Vá bem, Tata’
O corpo de Mandela deixou a capital, Pretória, ontem, e chegou a Qunu por volta das 16h (12h de Brasília), seguido por forte aparato de segurança (inclusive helicópteros).
Líderes políticos, familiares de Mandela e chefes de sua tribo acompanharam a viagem. Entre os presentes, a ex-mulher do líder, Winnie Mandela, e a viúva dele, Graça Machel.
Com músicas revolucionárias, alguns punhos levantados e tributos ao “camarada Mandela”, o antigo movimento de libertação ao qual Mandela dedicou sua vida disse adeus a ele na base aérea de Waterkloof, na capital Pretória.
“Vá bem ‘Tata’, você fez sua parte”, disse o presidente sul-africano e líder do CNA, Jacob Zuma, em um elogio no qual usou a palavra em Xhosa para “pai”. Ele recordou a vida de Mandela como um combatente pela liberdade na luta contra a minoria branca, pela qual passou 27 anos na prisão.
A despedida do CNA liderada por Zuma, que contou com a presença da viúva de Mandela, Graça Machel, e sua ex-esposa Winnie Madikizela-Mandela, ocorreu depois de nove dias intensos de luto e atividades fúnebres carregadas de emoção, realizada em Joanesburgo e Pretória.
Isso incluiu três dias de velório em Pretória, de quarta a sexta-feira, no qual mais de 100 mil pessoas ficaram por horas nas filas para dar o último adeus ao primeiro presidente negro da África do Sul.
Um dos netos de Mandela, Mandla, agradeceu aqueles que apareceram para prestar suas homenagens ao prêmio Nobel da Paz.
Escoltado por caças, o corpo de Mandela estava sendo levado pela força aérea da África do Sul para a sua região de origem Cabo Oriental, onde seria levado para a casa da família em Qunu, uma aldeia a 700 km ao sul de Joanesburgo.
No local, um funeral de Estado ocorre hoje, combinando pompa militar e ritos tradicionais de Xhosa abaThembu, clã de Mandela. Ele terá a participação de membros da família, líderes nacionais e convidados estrangeiros, incluindo o príncipe britânico Charles e o ativista norte-americano dos direitos civis, reverendo Jessie Jackson.
Na homenagem do CNA ontem, o evento mais abertamente político no período de luto desde a morte de Mandela em 5 de dezembro, aos 95 anos, os líderes do partido no poder e os sindicatos aliados saudaram Mandela como um “soldado” determinado e revolucionário.
O evento do CNA contrastou com o memorial público feito na terça-feira, onde Zuma, que está no poder desde 2009, foi submetido a um coro de vaias e zombarias, um sinal preocupante para o partido no poder, seis meses antes das eleições.
