Geral

Protagonistas de si mesmo

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 7 min

Pegar o celular, esticar o braço e fazer um autorretrato para postar nas redes sociais e mostrar um “estado de espírito”, a visita a um lugar interessante ou apenas para “se mostrar” mesmo, sempre sendo o centro da atenção da fotografia. Em uma sociedade com cada vez mais celebridades instantâneas, o culto à imagem cresce e dá um certo novo significado à frase do artista plástico e cineasta Andy Warhol: “Um dia todos terão direito a 15 minutos de fama”. A fama, neste caso, não está necessariamente associada ao tempo de exposição, mas costuma ser medida pelo número de curtidas e comentários. Ou seja, ninguém precisa mais aparecer na televisão para ser visto.

Malavolta Jr.

Letícia posa para foto do JC: exemplo da “moda selfie”

Enquanto existe um debate nacional em torno da liberação ou não da publicação de biografias não autorizadas, opondo direitos fundamentais como livre expressão e privacidade, muitos não refletem uma vez sequer antes de postar imagens expondo momentos particulares na rede à vista de todos.


A prática de se fotografar nas mais variadas situações e lugares e se expor para todos na internet está tão difundida que ganhou um verbete exclusivo no Dicionário Oxford online. O termo “selfie” foi integrado com o significado de “fotografia que a pessoa tira de si mesma geralmente com smartphone ou webcam e posta em uma rede social”.


Porém, quando o hábito torna-se um vício ou uma necessidade, corre-se o risco de cair em uma superexposição, o que pode ter consequências negativas. Até que ponto é válido sair se expondo na internet para ganhar atenção? O psicólogo Cláudio Salviano alerta que o impacto das redes sociais nem sempre é positivo e o exibicionismo pode estar associado à carência nos relacionamentos off-line.


“Como vivemos bombardeados pela necessidade de ‘atualizações’, muitas delas (redes) não são benéficas, ao meu ver. O modismo do exibicionismo hoje se instala em muitas mentes que, na maioria dos casos, são carentes de atenção e de relacionamentos com ‘raízes’. O indivíduo que necessita mostrar-se ininterruptamente, com certeza não está em equilíbrio com as demais dimensões da vida”, aponta.


O fotógrafo J. R. Duran escreveu recentemente em sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo sobre o assunto e atacou a mania do “selfie”. “A internet está repleta de imagens de pessoas que se fotografam em qualquer lugar, seja no banheiro, no restaurante, chapados na balada, com o bicho de estimação no colo, grávidas, dormindo, ou no reflexo de alguma superfície espelhada, a qualquer momento e sem nenhuma razão”, fulmina Duran, famoso por fotografar nove entre dez das mulheres mais desejadas do País.


O fotógrafo profissional condena a necessidade de autoafirmação das pessoas através do mundo digital. “Convencionou-se que se você tem um celular na mão e não está inserido em algum lugar você não existe. O que conta no fim do dia é a historia oficial espalhada na internet, como se a pessoa tivesse de ver sua imagem refletida na rede para ter certeza da própria existência”, analisa. “Os narcisos do smartphone precisam desesperadamente da polinização fotográfica nas redes sociais para que isso possibilite uma autofecundação digital de pixels emocionais”, raciocina Duran.


Salviano entende que gerações formadas na “era dos reality shows” ainda potencializam o desejo narcisista de fazer a própria fama. “Existem pessoas que, inclusive, sofrem deste Transtorno de Personalidade Narcisista. Estão sempre necessitando de uma atenção maior, é um padrão invasivo de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos”, alerta o psicólogo.


A necessidade de reconhecimento estaria ligada mais a uma sensação. “Não precisamos, acreditamos que precisamos. Nós somos o que acreditamos”, define Salviano.


Para evitar uma superexposição ou combater aquela compulsão de postar fotos de situações particulares ou banais, Salviano cita a necessidade de se criar estratégias para se manter ocupado no “mundo real”. “Acredito que, diante das tentações, necessita-se preparar o dia para mantermos a mente ocupada com o essencial, agendando os compromissos de fato importantes e não querendo dar a pseudossensação de ocupação simplesmente por estar online. Se cada pessoa se ocupar com atividades físicas, espiritualidade, altruísmo, trabalho e família, sobrará apenas o tempo necessário para mostrar, se a pessoa assim quiser, algo online”, pondera o psicólogo.

Superexposição traz riscos à vida

Advogado alerta que muitas informações postadas em redes sociais servem para “alimentar” atos criminosos

O “selfie” é parte de um fenômeno já consolidado em redes sociais: a superexposição em busca de visibilidade. Seja em busca de mostrar-se fisicamente, como quem faz um “diário online” do progresso na academia, mostrar-se em lugares que a pessoa julga interessante, mostrar-se em situações engraçadas e “momentos marcantes” ou mostrar como se sente, o verbo, propositalmente, é “mostrar”. E mostrar o protagonista de sua própria vida: você. Porém, de forma descontrolada ou impensada, o simples ato de manter a vida como um livro ilustrado aberto nas redes sociais pode gerar consequências inesperadas e desagradáveis. “O crime faz uso intensivo das informações das redes sociais”, alerta o advogado José Antonio Milagre, especialista em direito digital.


Milagre elenca os riscos e consequências que a superexposição na internet pode causar. “O primeiro grande risco é furto de identidade. A partir do momento que você divulga informações, a pessoa pode coletar estas informações e se passar por você nas redes sociais, criando um perfil falso, um fake. Isso é um risco associado comumente à divulgação de muitas informações na rede, uma superexposição. O segundo risco está relacionado a crimes envolvendo golpes e fraudes, sobretudo a crimes de falso sequestro, de extorsão, em que a pessoa se aproveita daquelas informações que são publicadas para simular um ambiente que não existe e consegue vantagem financeira”, aponta.


Milagre alerta que, de posse de informações simples como nome e outras que vêm em uma foto postada, como a roupa e a identificação do local onde a pessoa se encontra, é possível simular até um sequestro. “Alguém liga para os pais, diz o nome da pessoa, fala a roupa que usa está usando e onde ela está e diz que está de posse da pessoa. Às vezes, os pais se desesperam e acabam fazendo um depósito”, exemplifica. “É um manancial de informações. Eu costumo dizer a internet gerou um playground digital. São informações que as pessoas pegam para aplicar golpes”, acrescenta Milagre.


O advogado lembra também que a superexposição pode facilitar ou levar a fraudes financeiras. “Muitas vezes, a pessoa coloca dados pessoais, como CFP, RG, data de nascimento e outros. Com base nisso, consegue fazer compras, simular a venda de produtos que nunca entrega, criar contas em sites. Em algum momento, a pessoa vai ser lesada, vai contratar algo que não contratou, vai vender algo que não vendeu”, constata Milagre. O especialista em direito digital ressalta que a vítima ainda pode ser responsabilizada juridicamente em função de alguém ter usado seus dados pessoais para contratos falsos.


Milagre pondera também que mesmo em casos que não representam riscos criminais, a superexposição pode trazer prejuízos relativos à violação de privacidade. “A partir do momento em que você fornece dados às redes sociais, está abastecendo de informações e não tem controle sobre elas. Estas informações podem ser utilizadas para traçar seu perfil, seu temperamento, para verificar se você vai ser um bom empregado ou não. Hoje, as empresas monitoram as redes sociais e coletam estas informações”, comenta.



Lulu


O advogado salienta que as informações também são frequentemente usadas para fazer propaganda direcionada e em aplicativos não autorizados pelo dono dos dados. “Todo mundo está falando do aplicativo Lulu, que está fervendo e já tem até ações judiciais. Ele pega seus dados e joga para mulheres fazerem avaliação. Você não tem como controlar ou vetar o que espontaneamente forneceu nas redes sociais”, explica. “É uma questão séria, pois, de certo modo, existe um uso indevido das informações, mas um dia você forneceu estas informações”, pondera.


Milagre lembra que o “ranqueamento” com o do aplicativo Lulu pode fugir da mera opinião sobre o sexo oposto e atrapalhar a vida profissional e financeira. “Você pode ser ranqueado desde aspectos físicos, mas pode ser ranqueado também no financiamento que você não sabe o motivo de não ser aprovado, em um emprego que você não entende por que não conseguiu a vaga. Com certeza, tem o dedo das redes sociais. Existem empresas que fazem um levantamento completo da vida da pessoa só com informações que ela forneceu, informações públicas”, conclui o advogado.

 

 

Comentários

Comentários