É difícil para um cidadão de bons princípios entender como é que se pode legalizar o uso e o consumo da maconha, substância considerada nociva à saúde e causadora de degradação física e moral. O Congresso do Uruguai aprovou e o presidente do país José "Pepe" Mujica sancionou a lei que permite aos residentes no país com mais de 18 anos comprar até 40 gramas de erva por mês, cultivá-la em casa ou em clubes. O objetivo principal é o de combater o narcotráfico mediante o uso controlado de um entorpecente "leve". Em outras palavras, acabar com o tráfico mediante o enfraquecimento do mercado. Nem o presidente uruguaio está certo da eficácia da proposta. Também deixou claro que não se trata de um "viva o baseado!" Algumas tentativas semelhantes resultaram em incentivo ao consumo, levando países que adotaram legislações mais liberais a voltar atrás, como ocorreu na Inglaterra.
Quem conhece Amsterdam viu os tradicionais coffee shops, onde a maconha é vendida abertamente. A cidade recebe mais de sete milhões de turistas por ano, grande parte atraída pelas facilidades de curtir um barato sem o perigo de ser preso. Desde 1976 o uso da cannabis foi descriminalizado. Mesmo os que são viciados em drogas pesadas como a cocaína e a heroína, uma vez cadastrados pelo governo têm direito a uma cota na farmácia oficial, mediante a apresentação da carteirinha de toxicômano irrecuperável. Que morra. Pelo menos o tráfico perde o cliente. É o raciocínio do legislador. Os holandeses estão satisfeitos. A decisão fez com que as autoridades conseguissem separar o comércio de drogas pesadas e o de drogas leves. Os traficantes mudaram de endereço. Em Amsterdam também a prostituição é legalizada. Lá existe o famoso "bairro da luz vermelha" onde mulheres se exibem em vitrines iluminadas com lâmpadas daquela cor, como estratégia de marketing para a indústria do sexo. É por minuto... Se for com poppers é mais caro. Trata-se de um incenso líquido que dizem garantir sucesso sexual e sensações diferentes, sem viciar. Basta destampar a ampola na beira da cama e aspirar ao cheirinho que se evola. Os ativistas holandeses defendem que Amsterdam é uma cidade liberal e continuará sendo. "Não pertence a nenhuma seita que queira acabar com o pecado no mundo".
Nos Estados Unidos, os estados do Colorado e Washington também aprovaram, recentemente, o "uso recreativo da maconha". As penas são severas para quem tenta burlar as regras. Mesmo assim já houve prisões de adultos que compraram a droga para adolescentes. Prova de que não basta o rigor da lei se o poder público não tiver condições de fiscalizar adequadamente a sua aplicação. No Brasil, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já havia se pronunciado a favor da descriminalização da cannabis. O Estado falhou na repressão ao crime organizado. Quem sabe avacalhando o mercado o resultado seja melhor. A ousadia de Mujica pode dar certo. Merece o acompanhamento de outros países, inclusive o nosso. O Uruguai, que equivale à metade do Rio Grande do Sul, se dispôs a criar um laboratório de baratinados com a intenção de produzir melhores fórmulas de levar os traficantes à ruína financeira. Tem só 3,4 milhões de habitantes. O Brasil, com 200 milhões "em ação, salve a seleção" é outra realidade. Os neurologistas garantem que existe uma coisa chamada "endocanibinóide". O mesmo princípio ativo da maconha é produzido naturalmente pelo cérebro. A princípio, seríamos todos "maconheiros" mesmo sem saber. Esta substância é que provoca no cérebro a sensação de fome. Com a provocação externa vinda da marijuana o efeito triplica. Os curtidores de um fininho chamam isso de larica. É o pós-barato que dá uma fome de cão. Maconheiro é capaz de devorar qualquer coisa. Por mais estranhas que sejam as misturas. Alguns exemplos de quem já viveu em tribo: sanduíche de feijão frio com ovo; coca-cola com Nescau; miojo ao molho de calda de chocolate, ambos com prazos de validade vencidos. Nos meus tempos de república vi um cara abrir lata de massa de tomates e comer de colherzinha.
Vivemos em campanhas permanentes contra o tabaco. Dá câncer, é brochante, há casos de amputações de membros por problemas circulatórios. Fico pensando nas fotos que poderiam ser estampadas nos pacotinhos de maconha num esforço dissuasório do Ministério da Saúde.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC