Bairros

Abandonado, Cadeião vira moradia

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Quioshi Goto

Rapaz com saco plástico e mochila observa a parte interna do cadeião minutos antes de entrar: situação também preocupa a vizinhança

Nas paredes do muro externo, entre os buracos, ainda há a marcação do dia em que os detentos recebiam familiares e amigos. “Visitas na 5ª-feira”. Hoje, porém, o acesso é livre todos os dias. Após anos de abandono, um lugar que ninguém gostaria de ingressar no passado passou a ser procurado por moradores de rua em Bauru. Assim se tornou a antiga Cadeia Pública da cidade, o conhecido Cadeião.

A “porta” é um grande buraco no muro lateral na quadra 3 da rua Pascoal Luciano. Ao entrar, já é possível ver sofá, um colchão, um travesseiro e uma mochila. Deitado ao lado do móvel destruído, um dos usuários não quer falar. “Estou descansando. Estou com dor de cabeça”.

Como se faz em qualquer residência, a reportagem bate palmas para entrar. Logo, outro “morador” sai. “Prefiro que vocês não entrem”, diz o homem, de 24 anos, que afirma habitar o prédio há cerca de três meses.

Apesar de ser um prédio público, a vontade do “morador” é respeitada. Do lado de fora, ele, que já esteve preso por tentativa de assalto, aceita falar.

Tanto os usuários de drogas que ali vivem quanto os vizinhos pedem para não ser identificados. Os primeiros, por vergonha da família. Os últimos, por medo dos usuários (leia mais abaixo).

“Eu vim de Promissão. Era garçom. Morava com minha mãe e tenho uma filha pequena. Perdi minha vida para o crack. Queria sair desse vício. Nunca pensei que estaria vivendo assim”, afirma.

Há alguns anos, ele passou a perambular pelas ruas. Saiu de Promissão, vagou por Lins e chegou a Bauru há oito meses. Aqui, conheceu a sua companheira, de 22 anos. “Ela também usa crack”.

Após algum tempo na cidade, ele encontrou um teto para dormir. E também para usar o crack. “Fumo três ou quatro pedras por dia. Às vezes, quando vem gente aqui que tem mais dinheiro, uso até mais”.

O endereço fixo passou a ser o antigo Cadeião. Construído na década de 1950, o prédio, que faz fundos ao Instituto Médico Legal (IML) de Bauru, deixou de abrigar os serviços policiais há cerca de 10 anos.

“Preferimos que não venha gente aqui. Saio para pedir no farol e fico com medo de deixar minha esposa sozinha. Peço na rua para sustentar o meu vício e para comprar comida para minha mulher”, revela.

O quarto do casal, segundo o “morador”, tem apenas um colchão no chão e as roupas ficam espalhadas. Os banheiros das antigas celas estão tomados por mato. “O jeito é usar o banheiro da rodoviária mesmo”.


Desativação

Por décadas, a Cadeia Pública de Bauru funcionou no local. Além da unidade de detenção, o imóvel abrigava ainda o 2º Distrito Policial (DP). Por problemas estruturais, acabou desativado em meados de 2004.

Na época, o JC noticiava a superlotação e as fugas que aconteciam na unidade, que era amplamente criticada por estar situada em área urbana, no Centro de Bauru, entre a avenida Nações Unidas e a quadra 1 da rua Doutor Enéas Carvalho de Aguiar. A proximidade com o Terminal Rodoviário também preocupava.

Após a extinção da Cadeia Pública, foi anunciada a criação do Centro de Detenção Provisória (CDP), que passou a abrigar os presos da antiga unidade.


Demolição

Em breve, porém, o prédio não mais existirá. Conforme o JC noticiou em julho, ele será demolido. No local, será construída a sede da Central de Polícia Judiciária (CPJ), que, no começo deste ano, passou a funcionar na quadra 23 da avenida Rodrigues Alves.

A Polícia Civil afirma que a mudança é para deixar de arcar com o aluguel. Hoje, a corporação paga mensalmente R$ 55 mil. “A demolição realmente vai acontecer. Fizemos uma série de pesquisas para saber como será essa demolição. Enviamos à assessoria jurídica da Secretaria de Segurança Pública e eles pediram mais detalhes”, explica diretor do Departamento de Polícia Judiciária do Interior-4 (Deinter-4), Benedito Antônio Valencise.

Ele complementa que, assim que forem acertados esses detalhes, abrirá a licitação para contratar a empresa responsável pela demolição. “Já é algo certo”, conclui. “Quando demolirem, não teremos o que fazer. Vamos sair daqui, né? Não tem como brigar com a polícia. É a ordem deles”, lamenta o homem que está vivendo no Cadeião.


Vizinhos sofrem com insegurança

Apesar de um dos usuários negar que haja muito movimento, os vizinhos afirmam que o “entra e sai” nas dependências do prédio é constante.  “Virou um ponto de venda e consumo de drogas. É horrível”, relata um homem, de 48 anos.

Todos os ouvidos pela reportagem afirmam que a movimentação dos usuários de drogas, aliada ao mato alto que tomou o local, gera bastante insegurança. E a consequência seriam pequenos crimes que, há tempos, tiram o sono dos moradores e comerciantes.

“Na última sexta-feira, por exemplo, estavam descarregando sacos de café e um homem passou e levou parte da carga. Correu para perto do Cadeião”, conta outro vizinho, alegando que o imóvel passou a ser usado frequentemente para esconder objetos roubados e furtados.

Alguns relatam ter sido preciso adquirir cães de guarda e instalar câmeras de segurança para evitar os crimes. Outros afirmam que nem isso foi o suficiente para que os problemas parassem.

“Tenho um comércio aqui há anos. Já sofri mais de dez furtos. É complicado. Além disso, atrapalha minha clientela. Quem quer vir aqui desse jeito? Atrapalha e muito”, critica o homem, de 30 anos.

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