Que o Brasil se desenvolveu é inquestionável. O que é questionado é que poderia estar melhor. Vejam os casos do Japão e da Coreia do Sul, a transformação que realizaram em menos de um século. O que somos ainda não é um país desenvolvido, mas um arquipélago de ilhas paradisíacas em meio a um oceano purgatorial. Mansões, resorts, hotéis e restaurantes estrelados, escritórios suntuosos, hospitais de alto padrão, automóveis de luxo e helicópteros para ir ao trabalho, enfim, são as ilhas de prosperidade que nada ficam devendo ao primeiro mundo. O oceano é o purgatório das favelas, da seca do Nordeste, do trabalho em condições degradantes, da falta de água potável, do esgoto a céu aberto, do transporte coletivo como sardinha prensada em lata enferrujada, de inundações e deslizamentos que destroem tudo de quem já tinha pouco, dos prontos-socorros, hospitais e presídios que já são um degrauzinho do inferno. Esse é o nosso país, que até o ministro da Fazenda acha que cresce com as "pernas mancas", pois até hoje não conseguiu andar direito.
Na comparação com outros países, nossas posições sempre deixam a desejar. No IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), divulgado pela ONU, embora tenhamos melhorado, estamos em 85º lugar, entre 108 países. Na América Latina ainda estamos atrás do Chile, Argentina, Uruguai e Peru. O desempenho em matemática, no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes da OCDE), subiu de 356 para 391 pontos (2003 a 2012). Ainda assim, ficou em 58º lugar entre 65 países que fizeram a prova, isto é, no rabo da fila. O Brasil ocupa a 72ª posição no ranking de investimento em saúde, da Organização Mundial de Saúde (OMS). O desempenho brasileiro é 40% mais baixo do que a média internacional, na avaliação de 193 países. O Banco Mundial divulgou relatório em que aponta os principais desafios do SUS, na assistência básica e hospitalar, e conclui que os problemas de acesso e cuidados especializados no SUS têm mais a ver com desorganização e ineficiência do que com falta de dinheiro.
Recentemente esteve no Brasil o papa da estratégia, o professor de Harvard, Michael Porter. Veio para divulgar o Índice de Progresso Social ? IPS, que idealizou para substituir o IDH, como nova medida do desenvolvimento dos países. Segundo ele, esse índice é mais abrangente que o IDH, sendo composto de 52 indicadores, agrupados em três categorias: 1) necessidades humanas básicas (nutrição e serviço de saúde, habitação, ar, água e saneamento e segurança pessoal); 2) princípios de bem estar (ecossistema sustentável, acesso ao conhecimento básico, acesso à informação e comunicação, saúde e bem estar) e 3) oportunidade (equidade e inclusão, liberdade pessoal e escolha, direitos pessoais e acesso à educação superior). Nessa primeira aplicação o Brasil ficou em 18º lugar entre 50 países. Por item, em oportunidade foi o 2º em equidade e inclusão, mas em 33º em acesso à educação superior. Em saúde e bem estar ficou em 31º. O pior foi em segurança pessoal, 46º. Chile e Argentina ficaram na frente, com a 14ª e 15ª posições, mas, para consolo, entre os Brics o Brasil ficou em primeiro lugar, melhor que a Rússia, Índia, China e África do Sul .
O que todos desejamos é que o Brasil acerte o passo, que deixe de ser esse mosaico de pedras preciosas em massa de cascalho ou esse arquipélago sacudido pelas ondas do oceano de purgação de enorme parcela de nossos irmãos. Mas para isso é preciso recuperar a moral, a honra, a dignidade e o decoro, que deixaram de informar a conduta dos governantes, como escreveu, na Folha, o jurista Modesto Carvalhosa. Mas o caminho não é fatiando o governo, para atender os apadrinhados de três dezenas de partidos políticos, colocados em pontos estratégicos, despreparados e voltados para interesses pessoais. "A febre de poder como um fim em si mesmo, própria dos homens medíocres, traz uma questão de consciência que se coloca em função de uma lei que nunca foi escrita, aquela da probidade inconteste e presumida. A sociedade não pode se aperfeiçoar assistindo ao ininterrupto desfile dos delinquentes do setor público, sucessivamente pilhados. Há que se mobilizar a cidadania para que se restabeleça a honra - expressão suprema da consciência humana - na arte de governar", como diz o ilustre jurista.
O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras