Pedagogo com pós-?graduação em Planejamento e Administração da Educação pelo International Institute for Educational Planning (IIEP) da França, superintendente do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP) e diretor regional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP), Walter Vicioni Gonçalves reúne diversos títulos e um desejo: que o Brasil possua um projeto de nação de longo prazo para se desenvolver, se aperfeiçoar e exportar tecnologia.
“Precisamos saber o País que queremos para que a gente possa se organizar e se especializar em uma área. Hoje, a política educacional é descolada da política tecnológica e industrial, algo bastante complicado para uma instituição como o Senai”, observa.
Gonçalves esteve nesta semana em Bauru para participar da formatura de 170 alunos de cursos técnicos do Senai, realizada no Teatro Veritas da Universidade Sagrado Coração (USC) na noite da última quinta-feira.
Em entrevista exclusiva concedida ao JC, ele analisou parte da trajetória percorrida pelo serviço ao longo de 71 anos de existência e as mudanças pelas quais a instituição passou à medida que o próprio País se transformava.
Atualmente, o Senai-SP conta com 165 unidades no Estado e contabilizou mais de 900 mil alunos matriculados em 2013. Em número de cursos, são 88 na área de aprendizagem industrial, 40 técnicos de nível médio e 40 de educação à distância, além de 16 faculdades, 17 cursos de graduação tecnológica e 25 de pós-graduação lato sensu (especialização).
JC - A grande procura por cursos técnicos atualmente é a maior já registrada pelo Senai?
Gonçalves - A educação profissional tem seus altos e baixos porque depende muito do crescimento econômico, que exige mão de obra qualificada. Os cursos técnicos sempre tiveram uma boa procura, mas, hoje, acredito que as pessoas buscam mais a profissionalização.
JC - Quais os cursos mais procurados?
Gonçalves - Temos muita demanda na área de automação, tecnologia da informação, comunicação e construção civil.
JC - O valor que os jovens dão aos cursos acadêmicos ainda é muito maior em relação aos técnicos?
Gonçalves - Sim. No início do século passado, as primeiras escolas de aprendiz e artífice foram criadas para os ‘desprovidos da fortuna’, enquanto os filhos dos grandes latifundiários iam fazer faculdade. É uma realidade histórica que ainda reflete no desejo que o brasileiro tem de fazer cursos acadêmicos de engenharia e direito, por exemplo.
JC - Neste aspecto, há algum prejuízo para a economia?
Gonçalves - Dos 24 mil cursos superiores existentes no Brasil, menos de 10% são da área de engenharia, tecnologia e ciência. Há um desequilíbrio porque outros cursos demandam menos investimentos para as instituições privadas de ensino e as mensalidades são mais baratas, o que atrai maior número de alunos. Faltam profissionais para que o País possa ser um gerador de novas tecnologias.
JC - O Senai de Bauru encontra dificuldades para formar turmas na área de construção civil. Foi por conta deste histórico do século passado que algumas profissões, como a de pedreiro, acabaram ficando tão estigmatizadas, por mais que a contratação seja certa e a remuneração, satisfatória?
Gonçalves - No meu modo de ver, a construção civil ainda não deu um salto tecnológico, como ocorreu na França, Estados Unidos e China. Por consequência, não atrai profissionais porque as condições de trabalho são difíceis. Eles preferem assumir outras ocupações, como a de vigilantes de shoppings, condomínios e bancos, cuja demanda é crescente. O salário é semelhante e o status, maior.
JC - O Senai é uma instituição gerida pela indústria. Como é feito o diagnóstico de demanda para a abertura de turmas?
Gonçalves - Não atendemos a uma demanda social, mas de mercado. Temos pesquisas e observatórios para detectar as tendências e formar profissionais que possam ser absorvidos rapidamente pelas empresas.
JC - É um planejamento que não ocorre na maioria das instituições.
Gonçalves - Não ocorre nem mesmo como projeto de nação. A política educacional é descolada das políticas tecnológica e industrial, algo bastante complicado para uma instituição como o Senai. Não sabemos o País que nós queremos e nem temos um plano de longo prazo para que a gente possa se organizar e se especializar em uma área. Precisávamos de mais indústrias de capital nacional fortes, como é a Petrobras e como foi a Vale do Rio Doce. Sem um projeto de nação, o Brasil já é a sétima economia do mundo. Imagine se tivesse.
JC - Os ensinos técnico e acadêmico podem ser complementares, sendo o técnico o primeiro passo para a profissionalização?
Gonçalves - Nosso itinerário de formação profissional começa com a aprendizagem técnica industrial e vai até o ensino superior. Hoje, temos 15 faculdades de tecnologia no Estado de São Paulo e também cursos de pós-graduação. No futuro, queremos trazê-los para Bauru. A partir do momento em que o aluno se profissionaliza, nosso desejo é de que ele continue se aperfeiçoando sempre.
JC - Os cursos do Senai buscam ser estritamente técnicos ou, mesmo no ensino profissionalizante, há uma preocupação em fazer algumas abordagens críticas sobre a realidade social e econômica do País?
Gonçalves - O aluno não é visto apenas sob o ponto de vista do capital humano, mas sob todas as suas dimensões humanas. Ele deve exercer sua cidadania e tem direitos e deveres. Com isso, o profissional formado no Senai aprende a buscar a perfeição. Ele executa seu trabalho com organização, limpeza e esmero. Gosta do que faz e é isso que vai diferenciá-lo no mercado.