Bairros

Amostras manuais ao ar livre

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

Rita prepara o porta-malas do carro logo após o almoço e parte em direção à praça Nabi Gebara, zona sul, na rua Fuas de Matos Sabino. É uma quinta-feira, mas o ritual se repete em outros dias da semana, sobretudo no segundo domingo de cada mês, sendo esta data permanente. A montagem da amostra com tenda faz revezamento no Parque Vitória Régia, na praça Rui Barbosa, na Praça Portugal e na Feirinha da Fuas.

A artesã do Núcleo Octávio Rasi está há uma década no ramo. Na feira do último dia 12, o medo da chuva era o componente que mais preocupava. Mas esse conflito com “São Pedro” é permanente. “Eu não saio de casa preocupada em vender, mas em poder expor minhas peças às pessoas. E esse trabalho também proporciona o encontro entre pessoas para conversar. Na verdade, o que eu mais temo é a chuva. Porque para mim ela estraga tudo, o material, a oportunidade de expor as peças e afugenta o público”, comenta, com humor, Rita Aparecida Botta.

Presidente da Associação de Artesãos de Bauru e da Feira Ubá, ela fala com orgulho da regularização da organização, “com CNPJ e tudo”. “Hoje nós temos pelo menos 45 associados cadastrados e a associação tem documentação, tem CNPJ. Esse trabalho teve início há quatro anos e isso traz segurança para quem atua no ramo”, cita.

“Aqui tem de tudo. Tem gente que atua com decupagem, entalhe de madeira, tecido, tem muito patchwork (artesanato com retalho) e todos os antigos - como bordados, ponto cruz, além de pedraria, tricô, crochê -, bolsas de tecido, cobre mesa, cobre jarra, cobre botijão. Isso tudo é feito em casa e garante a renda de toda essa gente”, acrescenta.

Em razão do período natalino, artesãos também procuram oportunidade para expor em supermercados. “O grande movimento de consumidores nessa época atrai muitos interessados. A associação organiza a relação com os lojistas, e a forma de apresentação nos supermercados e o expositor são escolhidos por sorteio entre os que comparecem às reuniões. Nas vendas feitas nos supermercados, 10% vão para entidades, neste caso, a Sapab e a Fraternidade Amor Universal (Fau)”, explica. O associado tem de estar em dia com a mensalidade da associação.

Ah! Na feira da rua Fuas de Matos Sabino da penúltima semana, Rita não teve sorte. O “tempo fechado” lançou raios e trovões. A chuva chegou quase pontualmente às 17h, infelizmente, no momento em que os frequentadores assíduos costumam aparecer tomar, na rua, o “cafezinho da tarde”. A cobertura da barraca de pastel deu um jeito na acomadação de algumas pessoas. Mas as guirlandas, patchworks e bordados tiveram de voltar para o porta-malas dos carros dos artesãos. 

A vice-presidente da Feira Ubá, Sumie Awane Otani, aproveitou o mau tempo para cobrar. “O enorme pátio da estação ferroviária, no Centro, está lá parado e sem dinheiro para reforma. Mas o espaço é amplo e abrigaria artesanato permanente e com proteção, ajudando a levar movimentação àquela região da cidade. Nós também estamos lutando para ter a Casa do Artesão”, explica.


Definição

O artesanato é tradicionalmente a produção de caráter familiar, na qual o produtor possui os meios de produção e trabalha em sua própria casa, realizando todas as etapas da produção, desde o preparo da matéria-prima até o acabamento.

Artesão é o trabalhador que de forma individual exerce um ofício manual, transformando a matéria-prima bruta ou manufaturada em produto acabado. Tem o domínio técnico sobre materiais, ferramentas e processos de produção artesanal na sua especialidade, criando ou produzindo trabalhos que tenham dimensão cultural, utilizando técnica predominantemente manual, podendo contar com o auxílio de equipamentos, desde que não sejam automáticos ou duplicadores de peças.


História

Os primeiros objetos feitos a partir do ato do artesão são identificados do período neolítico (6.000 a.C.), quando o homem aprendeu a polir a pedra, a fabricar a cerâmica como utensílio para armazenar e cozer alimentos e descobriu a técnica de tecelagem das fibras animais e vegetais.

A partir do século XIX, o artesanato ficou concentrado em espaços conhecidos como oficinas, onde um pequeno grupo de aprendizes vivia com o mestre-artesão, detentor de todo o conhecimento técnico. Este oferecia, em troca de mão-de-obra barata e fiel, conhecimento, vestimentas e comida.

Na tentativa de lidar com as contradições da Revolução Industrial, William Morris funda o grupo de Artes e Ofícios na segunda metade do século XIX, tentando valorizar o trabalho artesanal e se opondo à mecanização.

 

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