Uma cena é marcante na trajetória da psicóloga Juliana Bilachi, autora do livro “Cigarro – como romper esse legado” e responsável por um bem-sucedido programa de combate ao tabagismo. Na última semana, um caso emblemático de como o vício do cigarro faz mal à saúde. O cantor Reginaldo Rossi morreu em consequência de câncer no pulmão provocado por ser um fumante inveterado.
A psicóloga conta que viu um fumante no hospital, em estado grave, chorando diante da família. Os familiares o culpavam pela própria doença, devido à resistência a deixar o cigarro. Era um sofrimento duplo: por causa da doença grave e devido ao comportamento dos familiares. “Ali tive o clique de trabalhar com o fumante na relação com os diversos sistemas”, conta. Isso foi em 2000. A partir daí, começou a escrever e nunca mais parou. O livro, cuja segunda edição foi lançada dia 28 de novembro nacionalmente na Livraria Saraiva do Shopping Center Norte, em São Paulo, é resultado da ampla pesquisa sobre o tema feita por Juliana, especialista em terapia familiar.
A psicóloga tem no currículo anos de experiência no Instituto de Moléstias Cardiovasculares (IMC), em São José do Rio Preto, onde montou um ambulatório de prevenção contra o tabagismo.
Experiências como a do paciente doente criticado pela família por causa do tabagismo logo mostraram a necessidade de focar o trabalho na abordagem sistêmica, ou seja, combater o hábito de fumar a partir da consciência de que o indivíduo vive inserido em vários contextos, como o familiar, o social, o profissional, o cultural e o religioso.
“Com a mudança no comportamento cognitivo do paciente, consigo fazer com que ele pare de fumar”, diz Juliana. “Essa mudança na forma de pensar e sentir acontece de forma natural. Quando a pessoa percebe, parou”.
O trabalho no IMC teve como resultado números positivos: dos 460 pacientes submetidos ao tratamento terapêutico, 322 (70%) pararam de fumar. Desse total, 26 (8%) sofreram recaídas.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a fumaça do cigarro é uma mistura de 4.700 substâncias tóxicas, incluindo nicotina (responsável pela dependência química), monóxido de carbono e alcatrão (formado por 48 substâncias pré-cancerígenas). O tabagismo é responsável por 30% das mortes por câncer, 90% das mortes por câncer de pulmão, 25% das mortes por doença coronariana, 85% das mortes por doença pulmonar obstrutiva crônica e 25% das mortes por doença cerebrovascular.
Para a psicóloga, o cerne é a família. “O legado do cigarro é determinado e solidificado pelos valores, pelos comportamentos e pelas crenças familiares. Ao longo do tempo, descobrimos os valores e as crenças que determinaram a trajetória do cigarro na nossa família”, escreve no livro.
Juliana aborda também outras relações que influenciam o fumante, como a religiosidade.
Fases
No capítulo sobre as fases do fumante, a autora explica que mais de 80% dos que procuram ajuda terapêutica passaram da fase de pré-contemplação para a de contemplação, quando assumem a posição de dependentes do cigarro.
A proximidade com uma rede de apoio formada por familiares e amigos é considerada fundamental no processo de abandono do tabagismo. Dessa forma, o ex-fumante sente que está protegido, acolhido e seguro na fase de “perda”. Nessa hora, os recursos internos pessoais também são essenciais. Ajudam a enfrentar os fatos da vida de forma mais otimista. O trânsito entre a teoria e a prática facilita a reflexão no livro “Cigarro – como romper esse legado”.