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Entrevista da semana: Honorina Selmo Escobar

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Ela nasceu em Bauru, mas cresceu em São Paulo por causa de um tratamento contra o sarampo. Conheceu e se apaixonou pelo piano ainda menina, aos 10 anos de idade, e não se separou mais do instrumento, tornando-se uma das primeiras professoras de música da cidade.

Foi com uma simpatia de dar gosto e um constante sorriso no rosto (isso sem falar no cafezinho que ela fez questão de preparar) que a entrevistada de hoje, Honorina Selmo Escobar, falou ao JC sobre as suas principais passagens ao completar 90 anos de idade.

“Eu tenho segredos para estar bem aos 90 anos, sim. Alimentação, menina. Nada de bebida alcoólica, a não ser por uma tacinha ou outra de vinho, afinal, os médicos dizem que meia taça de vinho tinto por dia faz bem à saúde”, revela com bom humor e sabedoria.

A professora de piano foi casada com o contador Hamilton Escobar, conhecido por seu trabalho no JC e no Expresso de Prata. Tem dois filhos que herdaram a sua paixão pelas teclas do piano, os músicos Wellington e Fúlvia Escobar.

Apaixonada por viagens, ela já correu o Brasil e o mundo e relembra, agora, algumas de suas principais passagens.

Jornal da Cidade - A senhora é uma das mais antigas professoras de piano de Bauru...

Honorina Selmo Escobar - Eu ensinei piano durante 32 anos. E eu gostava muito de dar aulas para crianças. Na verdade, somente para elas. O fato é que eu nunca consegui chamar a atenção de um adulto. Achava que chamar a atenção de um adulto era uma aberração. Por isso eu dava preferência para os pequenos. Agora, quando o moço ou a moça eram filhos de amigos meus e eu sabia sobre a sua criação, eu ensinava. Dei aulas para centenas de alunos. Não dá para ter ideia do número. Diziam que eu era a melhor professora de piano para crianças e iniciantes de Bauru. 

JC - A sua escola era em casa?

Dona Honorina - Sim. Eu tinha uma escola de música no fundo de casa. Chegamos a ter oito pianos. A concertista Clarice Leite vinha mensalmente a Bauru, era diretora no “Colégio das Freiras”, e ficava em casa. Ela dava aula para professores e alunos mais adiantados. Foi naquela época que eu comecei a minha escola. E a alegria das crianças é o que eu mais guardo na lembrança. Havia um japonesinho que descia do carro e corria pelo corredor de casa até a escola, cheio de vida. Um dia da minha semana era destinado para o pessoal da colônia japonesa. Eles gostam muito de música.

JC - E como a senhora conheceu a música?

Dona Honorina - Minha mãe era irmã da esposa do Gerson França e, quando eles se casaram, minha mãe ainda era mocinha e foi viver com eles. Praticamente acabou de ser criada por eles. O casal gostava muito de música e minha mãe absorveu isso e passou para mim. Quem me ensinou as primeiras notas foi a Moema Castanho, filha do Luiz Castanho. Quando comecei a estudar piano eu tinha uns 10 anos de idade, e não parei. Apaixonei-me pelo piano. Mas eu sempre gostei mais de ensinar do que propriamente a tocar o instrumento, sabe (risos). 

JC - Seus filhos herdaram esse amor pelo piano.

Dona Honorina - Sim (risos). Meus filhos tinham o que a gente chama de ouvido absoluto. Wellington já tocava aos cinco anos de idade e a Fúlvia, com quatro anos, sentava-se ao piano e tocava tudo o que os alunos tocavam. Então comecei a dar aulas para ela.

JC - E tornaram-se pianistas profissionais.

Dona Honorina - Isso. Bem, como a minha filha venceu diversos concursos, eu a levei para o Rio de Janeiro, onde ela teve aulas com o grande pianista Arnaldo Estrela. Lá, ela ganhou um concurso e uma bolsa para estudar na Polônia, no Conservatório de Chopin. Hoje, ela mora no Rio de Janeiro, mas é uma pianista internacional. Já tocou em muitos países, como Alemanha, Holanda... Já fez concerto em todas as capitais do Brasil e eu a acompanhei, nessa época. Meu filho também ganhou concursos em Bauru, em São Paulo... Fúlvia se voltou para o erudito e, ele, para o popular. Ele ganhou uma bolsa na Faculdade Paulista de Música e os próprios professores o orientaram a se voltar para o jazz, por exemplo. Como pianista profissional, ele já rodou o mundo em cruzeiros durante apresentações. Morou muito tempo em Santos e agora está ao meu lado, em Bauru.

JC - A senhora foi casada com “seo” Hamilton Escobar, conhecido por seu trabalho no JC e no Expresso de Prata...

Dona Honorina - A forma como nos conhecemos foi até engraçada. Naquele tempo, havia o Colégio Estadual e um estádio do Noroeste perto do atual Sesi. A minha classe fez uma apresentação de ginástica rítmica, lá. Ele e um amigo estavam no evento e combinaram que encontrariam uma namorada na festa. O amigo dele apontou a mim, mas ele disse: não, esta será a minha namorada. Naquela tempo, a gente ia ao cinema e fazia o tradicional footing, um passeio antes de entrar. Os moços ficavam parados e as meninas faziam o passeio. Entramos e ele sentou-se ao meu lado. Eu tinha 14 anos e o casamento aconteceu seis anos depois. Hamilton foi contador e trabalhou no então Instituto Nacional de Previdência Social (INPS). Também trabalhou por muitas décadas como diretor do Expresso de Prata e do Jornal da Cidade. Ele faleceu em 2002.

JC - Como foi a sua infância?

Dona Honorina - Eu nasci na rua das Flores, atual Saint Martin. Quando meu tio Gerson França faleceu, a família dele se mudou para São Paulo. Nessa época, eu tinha uns dois anos de idade e fui viver com eles para fazer um tratamento sério contra o sarampo. Em Bauru, não havia recursos suficientes até então. Passei a minha infância praticamente toda na Capital. A filha do meu tio, Judite França, era farmacêutica e ajudou a cuidar de mim. Quando eu estava maiorzinha, minha mãe me buscou. Ficou com ciúmes (risos). 

JC - O artesanato é hobby?

Dona Honorina - Sim. Eu gosto muito dos trabalhos artesanais. Faço as peças de tricô artístico, principalmente. Eu acho que esse tipo de ocupação faz muito bem para a saúde da mente. Você fica contando os pontos e trabalha o cérebro. É uma terapia. Além disso, eu oferto os itens feitos por mim para entidades assistenciais, como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), entre outros. Meu sogro faz parte da história de fundação do Centro Espírita Amor e Caridade e do Albergue Noturno. Então a família toda cresceu nesse ambiente de solidariedade. Eu trabalhei muito tempo no artesanato do Albergue, no Cantinho do Amor Perfeito. E ainda trabalho, porque mando as peças para eles.    

JC - O que a encanta?  

Dona Honorina - As viagens. Viajo sempre com meu filho. Viajo muito. Acho até que é outro hobby. Passo mais tempo em Poços de Caldas do que em Bauru, por exemplo. Conheço meio mundo (risos). Egito, Alemanha, Itália, França, Grécia, Espanha... Maiorca é lindíssima. Já visitei boa parte do Brasil, também. Mas Las Vegas... Ah, aquela é uma cidade luz, com todos os seus cassinos... Viajar é uma satisfação.

JC - Um momento inesquecível.

Dona Honorina - Quando meus filhos entravam em concursos de piano e conquistavam os primeiros e segundos lugares... Eu ficava tão feliz que nem sei dizer o quanto.

JC - Na última sexta-feira (20), a senhora completou 90 anos de idade, com disposição física e memória invejáveis. Qual é o segredo (risos)?

Dona Honorina - Ah, menina, é a boa alimentação. Nada de bebida alcóolica, a não ser por uma taça ou outra de vinho, afinal, os médicos dizem que meia taça de vinho tinto por dia faz bem à saúde (risos). Outra coisa é a homeopatia. Boa parte do meu tratamento é homeopata.  

JC - Um presente de aniversário?

Dona Honorina - Um presente de aniversário aos 90 anos? Saúde!   


Perfil

Nome: Honorina Selmo Escobar

Idade: 90 anos

Marido: Hamilton Escobar (falecido)

Filhos: Wellington Escobar e Fúlvia Escobar

Cidade: Bauru

Hobby: Artesanato

Livro de cabeceira: “O Evangelho Segundo o Espiritísmo”, de Allan Kardec

Filme preferido: “Casablanca”

Estilo musical predileto: Música clássica

Time: Santos

Para quem dá nota 10: Para a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae)

Para quem dá nota 0: Para o PT (Partido dos Trabalhadores)

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