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Com olhos para o perdão

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

Ilustração

Especialistas dizem que o exercício do perdão pode ser aprendido

Esta é a uma época do ano em que os sentimentos de amor, paz e solidariedade estão sempre presentes. Seja pelo espírito cristão, afinal Natal é acima de tudo um evento em que a memória do Cristo Salvador é reverenciada, certo? Ou  seja pelo fator social, apenas pela tradição já que somos educados a acreditar que o amor está no ar. É algo que aprendemos desde criancinha.

Isso é o que aprendemos. Até vivermos de fato esse amor vai uma grande distância. Afinal,  não é fácil esquecer as mágoas.  Quando alguém nos magoa, trai, machuca, acaba nos causando um intenso sofrimento. O mais comum inclusive, é surgir um sentimento de revolta. E mais do que isso: a vondade de vingança.

Conviver com a ideia de deixar a pessoa que nos fez mal impune, sem o troco é algo difícil, reconhecem os especialistas.  Mas também os mesmos especialistas dizem que quando a pessoa consegue passar por cima das mágoas e se perdoar ela não consegue um benefício que vai mudar totalmente sua vida. E o exercício do perdão pode ser aprendido. E de forma muito mais fácil do que se imagina. Uma delas é a prática de um exercício chamado a prática do Ho’oponopono. A outra é o reconhecimento do problema e a intenção sincera de passar uma borracha no passado.

Perdoar é divino, sou humano, portanto não perdoo?

Juliana Garcia escritora e master coach em psicodrama lembra que “o verdadeiro perdão consiste em abrir mão da esperança de que o passado fosse diferente”. Na maioria das vezes somos educados para pensar que o perdão é um ato divino, então, por ser divino, não perdoamos, afinal, somos humanos não é mesmo? “O perdão que abre o coração é aquele que reconhece que o passado passou e nada pode mudá-lo. Somente o presente bem vivido pode inserir novas pegadas nessa estrada. Perdão inclui a necessidade de reconhecermos que fizemos o que podia ser feito dentro das possibilidades que vislumbrávamos. Nos reconhecermos humanos, passíveis de erro e de acertos na tentativa do aprendizado”, diz ela.

O autoperdão e o passado no passado

É por isso que o autoperdão é importante.  A pessoa precisa largar essa sacola, se dar o direito de ser feliz novamente, reconhecer que nada pode fazer contra o erro cometido, mas que não pode andar com a faca nas costas como a exibir que é falível. Vira um ato de autocomiseração, a pessoa se pune, é quase uma coitadinha. Isso não é certo e, nem biblicamente falando, é o que Deus reservou para o ser humano. A natureza humana é para ser livre e leve. Assim como a vingança é um veneno que se bebe esperando que faça mal aos outros, o perdão é algo que vai mais além. É um cálice que se degusta acima de tudo sozinho. Perdoar a si mesmo em primeiro lugar é uma bênção que faz bem a si e depois faz bem a todos e permite que a vida seja tocada em frente de forma melhor.

E para libertar-se do passado e viver feliz a pessoa tem que entender que o poder do perdão está em suas próprias mãos. É preciso esquecer o que houve. Passou, passou.

O próprio médium espírita Chico Xavier já criou uma frase ótima com a qual ajudou muita gente: “embora ninguém possa voltar atrás e fazer um  novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”, pontuou ele.

Nesse sentido diz Juliana Garcia “não se trata de varrer a poeira para debaixo do tapete. É na verdade um exercício de ver e sentir tal poeira do passado, identificar de onde vem e onde está. E, então, começar a limpá-la, se necessário buscar ajuda para isso, usar todos os recursos disponíveis o para deixar a casa limpa e aberta para a brisa fresca dos novos tempos. Um coração que se abre para reconhecer e tratar de suas mágoas é um coração livre para bater de novo, no ritmo das emoções que surgirem aqui e agora”.

E o Ho’oponopono é uma dessas ferramentas. 

Medo de abrir a guarda

Muitas pessoas relutam em pensar o perdão por acreditarem que isso significaria abrir a guarda a pessoas e situações que lhe fariam sofrer. Seguem vida a fora carregando suas histórias de sofrimento como se fossem escudos: “Agora ninguém me fará mal novamente, eu tenho essa história para me proteger”. Só que esse escudo é pesado demais, grande demais e impede a visão plena, parece ser um grande espelho atrás do qual a pessoa se esconde e só vê os reflexos de si mesma com sombras do passado. Esse escudo não só protege de situações ameaçadoras, ele acaba por impedir qualquer tipo de contato e nos isola de nossa natureza humana que é a relação entre pessoas, lembra a terapeuta. Por isso em todas as famílias sempre há alguém que fica dias, meses e até anos sem nem se relacionar com outra pessoa. E ama essa pessoa sem dúvida.

“Mas se eu não guardar minha história de dor, ela não será reconhecida, como se um pedaço meu fosse deixado de lado”, algumas pessoas podem dizer. Sim, é importante reconhecermos cada pedaço de nós, mas não precisamos carregar as dores como se fossem troféus pesados numa sacola enorme. Precisamos reconhecer nossas cicatrizes como marcas do combate, mas sem peso e dor.”Precisamos reconhecer nossas cicatrizes como marcas do combate, mas sem peso e dor.”

Sinto muito, me perdoe, te amo, sou grato...

Ho’oponopono é uma palavra havaiana e significa, tornar certo ou corrigir um erro. De acordo com os antigos xamãs havaianos, o erro nasce de pensamentos contaminados por memórias dolorosas do passado que estão impressas na mente inconsciente, que ficam se repetindo, causando desequilíbrios, dor e doenças. Ho’oponopono oferece uma maneira simples, porém muito eficaz de liberar a energia desses pensamentos dolorosos que podem causar desequilíbrios e doenças.

No que ela consiste? Em dizer as palavras – sinto muito, me perdoe, te amo, sou grato. Simples assim. Não precisa nem dizer para quem você magoou ou para quem te magoou. Basta dizer sempre, todos os dias, até a mágoa refluir e principalmente toda vez que o erro do passado vem à mente. Diga sempre: “sinto muito, me perdoe, eu te amo, sou grato”.

Dentro dessa concepção depois que o erro está cometido, tentar falar com os outros não ajuda. Com o  Ho’oponopono o importante é trazer a paz para si mesmo. O princípio é o de que o universo físico é uma manifestação dos pensamentos. Se os pensamentos são negativos, eles criam uma realidade física negativa. Se são positivos criam coisas positivas, certo?

Assim pense “se os meus pensamentos são perfeitos, eles criam uma realidade física repleta de amor”. Exatamente como pediu Cristo, “ame o próximo como a si mesmo”. Então somos responsáveis por corrigir os pensamentos destrutivos que criam uma realidade enferma. E mais: como não existe o lá fora, tudo existe como pensamentos da sua mente, então o jeito é primeiro perdoar e mudar a si mesmo.

Por que Ho’oponopono?

* Quando você diz “sinto muito” você reconhece que algo (não importa se saber o que) penetrou no seu sistema corpo/mente. Você quer o perdão interior pelo o que lhe trouxe aquilo.   Você permitiu que isso acontecesse, mas não queria que acontecesse. Então você sente muito.

* Ao dizer “me perdoe” você não está pedindo a Deus para te perdoar, você está pedindo a Deus para ajudar você mesmo a se perdoar. Deus já o perdoou. Você é que precisa de ajuda a se perdoar, sentir-se melhor, deixar de lado o fardo que carrega.

* “Te amo” transmuta a energia bloqueada (que é o problema) em energia fluindo, religa você ao Divino.

* “Sou grato” é a sua expressão de gratidão, de mostrar sua fé e a certeza que tudo será resolvido para o bem maior de todos envolvidos. 

A partir deste momento o que acontece a seguir é determinado pela Divindade, você pode ser inspirado a tomar alguma ação, qualquer que seja, ou não. Se continuar uma dúvida, continue o processo de limpeza e logo terá a resposta quando estiver completamente limpo. Afinal, você sente muito, pediu perdão pelo que fez, ama quem magoou e acima de tudo a si mesmo e, é grato, muito grato pela oportunidade de mudar isso. Você está fazendo um novo começo para escrever um fim bem melhor.

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