Contam até hoje nos Correios sobre a jovem de vestido branco, cujo carteiro, hoje já aposentado, conheceu em pele e osso. Enquanto na ativa, ele via todos os dias, no final de seu distrito, que acabava já na boquinha da noite quase às escuras, em um casarão antigo no Jardim Estoril: a jovem loura de pele pálida, quase cor do vestido... Sua aparência triste lhe chamava a atenção.
Manhã de dezembro (véspera de Natal), quando colecionava suas cartas, chamou a atenção do carteiro José Paulo um envelope velho e amarelado, uma correspondência internacional, cujo remetente indicava: Itália. O destinatário também lhe chamou a atenção, não tinha certeza, mas estava quase certo de que era da jovem do casarão antigo.
Pela sua experiência sabia que a carta havia extraviado em alguma parte do percurso, talvez num porão de um navio qualquer, tendo agora essa carta voltada por um motivo desconhecido também, ao seu encaminhamento natural.
Naquele mesmo dia, no final da tarde fria, chegando em frente ao casarão, estava ali a bela jovem (tanto quanto estranha). Ele entregou-lhe a carta e foi embora. Nos dias que se seguiram, não vendo mais a moça, resolveu perguntar a um vizinho se havia acontecido algo com a jovem que via todos os dias e, desde que lhe entregou uma carta, nunca mais a vira. O vizinho com um olhar de estranheza respondeu-lhe que ali não morava ninguém, diziam os mais antigos que havia morado uma família que perdera uma filha muito jovem, loura e bonita nos dias que antecedem as festas natalinas. Disse também que havia encontrado no jardim da casa um envelope aberto e pediu ao carteiro que devolvesse ao remetente.
No caminho de volta, o carteiro não resistiu e leu as folhas amareladas onde Armando Bataiola, um praça Brasileiro no seu leito de morte, ditara a uma enfermeira da Cruz vermelha que tinha sido ferido mortalmente numa batalha e que não voltaria mais a vê-la.
Como aquela história não saía de sua cabeça, foi ao cemitério mais antigo da cidade e sobre um jazigo viu Gabriel: o anjo da anunciação esculpido no bronze velava a foto em branco e preto de Angela Rosenthal e sustentava o epitáfio "O mesmo amor que nos liberta às vezes é o que nos aprisiona" Angela Rosenthal 1922 - 1946.
Demerval Assis da Silva