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A retirada da ferrovia da área urbana

Archimedes A. Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

O Relatório de Competitividade Global, do Fórum Econômico Mundial, em edições mais recentes, vem apresentando queda constante na percepção da qualidade dos sistemas de infraestrutura de transportes brasileiros. Na edição de setembro último, o país está colocado na posição de número 103, dentre 148 países pesquisados, com referência à qualidade da infraestrutura ferroviária. A realidade não é muito diferente para os outros setores. Para os setores de transportes rodoviário, aéreo e portuário, as posições são, respectivamente, 120ª, 123ª e 131ª. A situação da ferrovia é somente "menos ruim" do que a dos demais serviços de transportes no país.

Extremamente defasado nos dias atuais, o sistema ferroviário nacional já foi um importante meio de propulsão da economia brasileira. No entanto, como afirmou a Presidente Dilma Rousseff, "o Brasil ficou muito tempo sem investir em ferrovias" e "estamos dois séculos atrasados" neste setor.

Não há dúvidas de que o país terá de retomar os investimentos em ferrovias, pois não há outra solução para o transporte de cargas para longa e média distâncias. Porém, o modelo do passado, que de forma passional é defendido por saudosistas, não é mais viável. Novos sistemas, modernos, eficientes, racionais, seguros e de qualidade precisarão ser construídos, para atender à demanda dos modernos sistemas logísticos. Isto implica em não interferir e ser influenciado pelo meio urbano.

A precariedade das malhas que permeiam as cidades impõem velocidades de 50 km/h em trechos normais e de 25 km/h em cruzamentos em nível. Ainda assim, tem-se registrado muitos acidentes que resultam em perda de cargas e interdição da via por longas horas, além de perdas humanas inaceitáveis. O recente acidente de São José do Rio Preto, com a morte de oito moradores, que no conforto de suas casas tiveram suas vidas tragicamente ceifadas, é exemplo dos mais graves. O tráfego de composições na região metropolitana de São Paulo, passando a uma distância de até um metro distante das precárias moradias, além de crianças brincando nos trilhos, mais parece cenário dos mais pobres países africanos.

Urge que os trilhos das ferrovias de trajetos não urbanos sejam removidos para fora do perímetro das cidades. Isto não significa que o patrimônio arquitetônico não seja devidamente preservado, como parte da memória ferroviária, tão comum em muitas cidades, principalmente, do estado de São Paulo. Tão pouco que transportes urbanos sobre trilhos não sejam implantados em cidades de grande e médio portes.

Espera-se que os estudos realizados pela ALL (América Latina Logística) e Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), com o apoio da prefeitura, para a remoção dos trilhos, se concretizem efetivamente. Isto trará benefícios enormes para a cidade, que poderá ter o degradado espaço ferroviário revitalizado para o uso social, além de poder-se utilizá-lo para a implantação de modernos sistemas de transportes de maior capacidade, inclusive margeados por um parque linear, para atender às necessidades de lazer da população.

O autor, Archimedes A. Raia Jr., é engenheiro, doutor em Engenharia de Transportes, professor da UFSCar em Transportes e Logística, e diretor de Engenharia da Assenag)

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