Cada passo depende da ajuda de uma bengala, a visão e a audição já estão reduzidas, mas Jacy Nobre Silva esbanja lucidez e simpatia. Hoje, a senhora de cabelos brancos e riso fácil completa 100 anos de idade, uma marca que, apesar dos avanços da medicina, ainda poucos de nós conseguem alcançar.
O aniversário foi comemorado ontem, em uma grande festa que reuniu todos os filhos, netos, bisnetos, genros e noras de Jacy - totalizando aproximadamente 100 pessoas. “Estou muito feliz. Poder ver todos da minha família bem é minha melhor recompensa”, celebra a centenária.
Nascida em 1913 no município de Santana dos Olhos D’água, atual Ipuã, na região de Ribeirão Preto, Jacy morou em Guaiçara e Lins, até se fixar definitivamente em Bauru, em 1952. Na cidade, criou sete filhos, três deles já falecidos. “Na verdade, eu tive oito filhos, contando a Ana Rosa, que morreu com 2 anos e meio”, ela faz questão de destacar.
A memória de Jacy, aliás, impressiona. É ela quem lembra o ano de nascimento de todos os filhos - Álvaro, João Geraldo, Amaury, Ajax, Ana Rosa, Marilena, José Roberto e Carlos Antônio, que têm idades entre 65 e 83 anos - e o número de netos (12) e bisnetos (17) da numerosa família.
Apesar de já ter retirado um dos rins, ter perdido parcialmente a visão, utilizar aparelho auditivo e caminhar com certa dificuldade, Jacy não depende de qualquer medicamento e, há dois anos, não precisa procurar ajuda médica. “Não sinto qualquer dor no corpo e faço quase tudo sozinha”, diz, orgulhosa.
Talvez não por coincidência, a perda de visão teve início em 2006, justamente o ano em que dois de seus filhos, João Geraldo e José Roberto, faleceram. Por conta do problema, passou a ser cuidada pelo caçula Carlos Antônio, que mora com a mãe na casa ela onde viveu seus últimos 30 anos, no Jardim Estoril.
“Ele me proibiu de cozinhar, coisa que eu adorava fazer. Mas ainda faço o café da manhã, enquanto ele arruma a mesa”, narra Jacy, em tom de brincadeira, ciente da atitude zelosa do filho. É ela ainda quem cuida, sozinha, do amplo jardim que ocupa quase todo o quintal da casa.
Segredo
O espaço é tomado por roseiras, hortênsias, orquídeas, estrelítzias, lírios-da-paz e pés de uva, mamão e babosa, entre outras espécies. “Eu venho aqui e rego todos os dias. É uma terapia”, diz, mostrando algumas flores que resistiram ao intenso calor de Bauru.
Além de cuidar das plantas, diariamente Jacy gosta de assistir ao telejornal da noite e acompanhar as missas pela televisão, já que não tem mais a mesma disposição física para ir à igreja. O segredo da longevidade, ela diz, está em manter a cabeça ativa.
Por toda a vida, Jacy trabalhou como costureira, ofício que aprendeu com as irmãs mais velhas. Viúva de Isaac Silva, “um fazendeiro que perdeu tudo e se tornou funcionário público”, ela conta que enfrentou muitas dificuldades e que a criação dos filhos e a costura tomaram praticamente todo o seu tempo de vida.
“Fazia vestidos de noiva e de festa para a alta sociedade. Sempre preferi trabalhar sozinha e assim também foi com a criação dos meus filhos. Foi uma vida muito dura, mas fui e sou muito feliz”, comemora.
Herança genética
Sem qualquer preocupação específica com a alimentação, Jacy diz comer tudo o que há de mais gorduroso. Mas, se a dieta não interferiu na saúde, a herança genética, além da vida ativa, aparentemente contribuiu para que ela pudesse chegar aos 100 anos.
Os 11 irmãos, todos já falecidos, viveram até quase chegar aos 90 anos, assim como os pais de Jacy. “Era bastante para aquela época, assim como é fazer 100 anos hoje. Nunca pensei que chegaria a tanto e nem penso no dia em que vou morrer. Mas vivo cada dia como se fosse o último”, completa.