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Dinheiro não traz só felicidade

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 7 min

Ontem, pobre. Hoje, milionário. Ficar rico da noite para o dia é sonho de bilhões de pessoas no mundo. Quem nunca pensou ou fez planos, mesmo que em segredo ou em uma conversa em tom de brincadeira e despretensão, sobre o que faria se, de repente, acertasse as seis dezenas da Mega-Sena, mesmo que a probabilidade seja de 1 em 50.063.860, e se visse sem mais preocupações financeiras pelo restante da vida?


Sonhos de consumo, viagens, ajudar aquela pessoa querida, projetos sociais... tudo entra nas listas de objetivos atingíveis com a bolada. Porém, mais que a alegria de ficar abonado repentinamente, ganhar na loteria pode trazer efeitos colaterais, como o caso dos irmãos que foram sequestrados em Guarulhos (leia mais ao lado) após um deles ganhar R$ 7 milhões na Mega-Sena. Além disso, ficar rico traz angústias e problemas que os pobres têm a “sorte” de não ter.


Acordar um dia e ter todos os sonhos dentro do bolso pode acarretar mais do que felicidade. O momento de colocar em prática aqueles planos que sempre povoaram a imaginação pode trazer descontrole e desequilíbrio à vida do novo milionário, alerta a psicóloga Andréia Georges. “Os desejos e sonhos que a gente tem muitas vezes são positivos porque nos alimentam. No sonho tudo é tranquilo, a gente pinta do jeito que quer um sonho. Quando ele se torna realidade, a gente perde um pouco o poder de conduzir do jeito que gostaria. A vida tem autonomia e nem sempre a gente tem poder sobre ela. Quando se trata de dinheiro, ele tem um caminho próprio”, define.


O excesso repentino de dinheiro pode trazer novas angústias e um vazio nas relações, atrapalhando a avaliação da afetividade social em que a pessoa está inserida. “Do mesmo jeito que o dinheiro traz muitas realizações, ele não traz realizações afetivas. Às vezes, as pessoas conquistam as coisas materiais, mas não conseguem conquistar o afeto. Isso causa insegurança afetiva”, pontua Georges.


“Quem tem muito dinheiro passa a ficar inseguro sobre até que ponto o amigo que está do lado dele está o agradando pela pessoa que ele é ou pelo dinheiro que ele tem e pelas coisas que pode proporcionar para este amigo”, aponta a psicóloga.


O repentino poder de realizar todos os sonhos materiais requer cautela para analisar com calma o que fazer com a bolada e descobrir seu novo estilo de vida, segundo Georges. “Quando a pessoa descobre que acabou de ganhar na loteria é um choque muito grande. Ela se vê potente a realizar tudo o que sempre quis na vida. E quando a gente se vê podendo tudo, paralisa. É muito grande o poder tudo. A melhor coisa a fazer é dar um tempo para ela se conscientizar que ganhou na loteria poder organizar passo a passo o que vai fazer com o dinheiro e como quer dizer para a família e para as pessoas”, sugere a psicóloga.



Cobranças e manutenção


O fato de se ver livre de possíveis cobranças de credores não salva o “novo rico” de outras cobranças, aquela pressão de cumprir promessas feitas em um momento de empolgação. “Muitas vezes a pessoa está tão eufórica que fala de uma maneira como se estivesse agregando todo mundo nesta questão financeira. E quando passa esta euforia, às vezes, ela faz outros planos com o dinheiro. E vêm as chantagens”, alerta Georges. Aquelas promessas feitas quando se era pobre são reivindicadas por amigos e parentes. “Quando a gente não tem este dinheiro, fala para os amigos ‘se eu tivesse dinheiro, eu lhe levaria para passear’, ‘eu fazia isso, aquilo’, ‘eu fazia e acontecia’. Quando acontece de ganhar muito dinheiro, também vem a cobrança. As pessoas começam a achar que quem ganhou tem obrigação de pagar tudo. E, às vezes, a pessoa que ganhou o dinheiro quer proporcionar tudo isso e é onde acaba até perdendo o controle financeiro”, analisa Georges.


Como não perder o dinheiro é outra questão que pode atormentar, de acordo com a psicóloga. “Manter este dinheiro é muito trabalhoso. Você tem que se preocupar com muitos detalhes, tem que aprender sobre aplicações financeiras ou a parte do mercado onde pode investir ou não”, aponta. Georges ressalta que a obrigação de virar um investidor do dia para noite é angustiante.


Paradoxalmente, em casos extremos, perder aquilo que tanto almejou traz alívio e felicidade. “As pessoas geralmente gastam muito, pela euforia. Muitas vezes, perdem tudo e até se sentem aliviados por perder. No fundo é angustiante, mas no íntimo se sentem aliviadas. E como se elas perdessem o dinheiro e resgatassem a autenticidade nos relacionamentos afetivos”, conclui Georges.

 

Riqueza e drama

Dinheiro não traz felicidade. A frase é um dos maiores clichês, mas foi sentida na pele por um ganhador da Mega-Sena há alguns dias, em Guarulhos. Um pedreiro, que faturou R$ 7,8 milhões, e o irmão dele foram sequestrados em sua casa na Grande São Paulo. O ganhador e o irmão, após a notícia da premiação, seguiram trabalhando normalmente por três meses para despistar, mas os sequestradores, de alguma forma, souberam do novo milionário, apesar dele só ter contado que tinha ganhado na loteria para duas pessoas, e agiram.


A Polícia Civil estourou o cativeiro, houve troca de tiros, um suspeito morreu e outro foi preso. De acordo com informações da polícia, os irmãos se preparavam para viajar para a Bahia, de onde são naturais, e tinham R$ 5 mil em casa. No dia do sequestro, o ganhador passou no banco e sacou mais R$ 5 mil. Aproximadamente meia hora depois, a casa dele foi invadida pelos sequestradores armados. Após ser libertado, o pedreiro disse que o prêmio da Mega-Sena não traz felicidade.

 

Economista aconselha bom senso e discrição

Ganhei dinheiro, pronto. E agora, o que fazer? Gastar? Como não perdê-lo? Estas são algumas das questões que este repórter, que nunca ganhou na loteria, imagina que passa pelo cérebro daqueles sortudos que se veem ricos após conferirem seu bilhete premiado. Muitos as considerariam doces dilemas. Mas a palavra aqui fica com uma especialista no assunto, a economista Salete Lara. O que fazer? Como agir?


“Um dinheiro inesperado e valores elevados são muito bem-vindos, contudo é muito difícil não dar ‘bandeira’ para todos que lhe rodeiam. Não existe uma receita de como lidar com isso, pois o ser humano é único, em sua forma de pensar e agir, mas neste momento é necessário bom senso”, aconselha.


A economista afirma que a mudança repentina de condição social exige cautela. “Muitos estão observando o que acontece conosco. É do ser humano aparentar o que possui, ou o que não possui, e quando ganha uma ‘bolada’ a tendência é sair comprando tudo o que desejava e não tinha condições financeiras de adquirir. Além de bom senso, é preciso que haja prudência nos gastos e aquisições”, orienta.


No momento de investir, nada de precipitação ou empolgação. É necessário parar e analisar com calma qual a melhor opção e a se orientar com um especialista de confiança, de acordo com a economista. “Planejar é vital. A partir do momento em que ganhou dinheiro, o sortudo deve conversar com seu gerente de confiança para planejar todos os investimentos adequados ao dinheiro que possui e também em função do perfil de investidor”, pondera Lara.


A economista aconselha a diversificar a forma como se emprega o dinheiro ganho. “Aplicar em vários tipos de investimentos é o ideal, devido à ciranda de juros que há no mercado financeiro brasileiro. Por exemplo, se você é um investidor tradicional e não quer correr riscos, pode investir em caderneta de poupança. Mas se for mais arrojado, pode investir na Bolsa de Valores”, exemplifica.


Lara salienta, no entanto, que é preciso investir o dinheiro para não ter perdas. “Não se pode esquecer de que ganhar muito dinheiro e não investir adequadamente pode levar a perdê-lo totalmente. Para que isso não ocorra, procure seu gerente e faça as melhores escolhas em investimentos”, reitera.


Conter o ímpeto de sair gastando desenfreadamente é fundamental, segundo Lara, para não cair em armadilhas do próprio mercado. “A análise a ser feita é que gastando desenfreadamente e de repente chamará a atenção de todos, inclusive pessoas de má índole e que poderão tentar tirar seu dinheiro. Portanto, gastar com bom senso e sem alarde é o mais correto para a segurança de quem ganhou dinheiro e também de sua família”, analisa a economista.

 

 

 

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