Regional

Poluição do Tietê exala mau cheiro

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Moradores, rancheiros e visitantes da cidade de Boraceia (41 quilômetros de Bauru) estão estarrecidos com a poluição que apareceu no Rio Tietê há pelo menos 15 dias. A espuma branca acompanhada do forte odor, algo parecido com o cheiro exalado de um chiqueiro de porcos, afugentou os visitantes e causou prejuízos aos proprietários do Condomínio dos Ipês, conhecido como chácaras Clark.

 

Divulgação

Donos de ranchos dizem que estão deixando de alugar seus imóveis devido à poluição

O proprietário de rancho, Bolivar Alves da Silva, diz que o cheiro é de fezes. “Eu me preocupo com a saúde dos moradores. Eu moro em Bauru e posso optar em ficar no rancho ou aqui. Mas há moradores que estão sofrendo. Eles reclamam do prefeito e do governador, porém, nenhum órgão faz o que deveria fazer, ao menos verificar o que está ocorrendo”, reclama.


Silva alega que o problema maior vem dos ‘ninhos’ formados sobre uma poluição espessa. “Estão formando ninhos de pernilongos, não sei se é Aedes ou outro tipo. Tem muita água parada sobre a poluição. Há muito aguapé que não deixa a água se movimentar.”


Na opinião dele, a situação é alarmante. “Eu tenho a propriedade há 10 anos e nunca vi coisa igual. O lixo em grande quantidade é absurdo. Ele vem de Bauru, que descarrega o esgoto dentro do Tietê. Em função de toda a poluição, nasceu uma alga, como uma trepadeira ao contrário, que nasce dentro do rio e impede que a sujeira vá embora. Ocorre que já reclamamos para a prefeitura, para a Cetesb e para a AES Tietê, e ninguém tomou providências.”


Ele lembra que vizinhos estão sofrendo prejuízos financeiros. “Eles alugaram o rancho para o final de ano e ninguém quis ficar, pediram o dinheiro de volta. Não tem condições de ficar lá por meia hora. O odor é insuportável.”


A opinião é compartilhada por Valdecir de Jesus Favinha Filho. O pai dele tem um rancho em Boraceia e na última sexta-feira a família pretendia se confraternizar lá. “Não aguentamos o mau cheiro. Ficamos 20 minutos transferimos a festa para Pederneiras, onde moramos. Não deu para suportar. O odor impregnou na roupa, no carro. Meu pai tem o rancho há 30 anos e alega que nunca passou por situação semelhante. O cheiro é insuportável.”



Órgãos responsáveis


O proprietário de rancho do bairro Anhumas, Wagner Ferraguti, alega que o problema está acontecendo há mais de 15 dias. Nesse período, ele procurou por duas vezes a AES Tietê. “Prometeram enviar uma pessoa para verificar o problema, mas ela não apareceu e ninguém tomou providências, tanto que o problema persiste.”


Na Cetesb, Ferraguti diz que foi atendido e ouviu uma explicação de uma funcionária que não o convenceu. «Ela gentilmente me explicou que é um processo natural e que não tem solução. Estamos intrigados com o odor, pior do que cheiro de chiqueiro.”

A Cetesb Bauru e AES Tietê foram procuradas ontem pela reportagem para se pronunciar sobre o assunto, porém, não havia plantão nesses locais. Os números ligados são dos telefones fixos de ambos os órgãos.

 

Ministério Público deve ser acionado

O coordenador do Instituto Sócio Ambiental Eco-Vida, José Victor Ficcio, esteve no local onde a poluição está concentrada e ficou apavorado com a situação. “Estão matando o Rio Tietê. Já vimos de tudo, mas desta vez está pior. Não sabemos o que é, mas essa poluição está matando até os aguapés que estão nas margens do rio.”


Ficcio promete procurar o Ministério Público e fazer a denúncia o mais rápido possível. “Vamos entrar em contato com o MP de Jaú. Vamos representar e tentar identificar qual o agente poluidor, seja empresa ou pessoa física, que está causando este mal ao rio.”


Ele explicou que andou cerca de três quilômetros de forma linear à margem do rio e constatou que há uma ‘manta’ de poluição estacionada de 30 a 80 metros de largura, no bairro de Anhumas, em Boraceia.


“A poluição está nos estaleiros e por toda parte. Ela tem mais ou menos uns dois centímetros de espessura. Parece um óleo animal, mas não sabemos o que é. De vez em quando a gente encontra uns torrões com um tipo de pedrisco por cima. Não é uma matéria orgânica. É uma espuma esbranquiçada consistente, parece uma clara em neve com uma substância azulada, azul bem vivo.”


Ele explica que procurou a usina e que eles alegaram que não foi feito nenhum lançamento poluidor no rio. “Segundo eles, não foi feito lançamento. O cheiro que a gente está acostumado aqui, que é o cheiro do bagacinho da cana, não é esse. Desde que eu conheço o Rio Tietê  nunca vi algo semelhante. A água verde é proveniente do aguapé e de composição de matéria orgânica das plantas, mas isso aqui não tem nada a ver.  Está matando os aguapés que estão as margens  da beira do rio numa faixa de uns 5 metros de largura está tudo seco.”



Aguapés apodrecidos


A assessoria de imprensa da Prefeitura de Boraceia explicou ontem que o mau cheiro é proveniente do apodrecimento dos aguapés que se formam no rio nesta época do ano. “O aguapé fica parado na boca da barragem. A água que vai para as turbinas tem uma espécie de rede que filtra os aguapés que ficam parados ali. Esses aguapés só vão descer o rio quando as comportas forem abertas. Como o reservatório está no limite, não será aberto agora. Só abrirão quando começar a chover muito. Quando isso acontecer, os aguapés desaparecerão.”


O odor é de matéria orgânica podre, segundo a assessoria. “O cheiro é sentido de cima da ponte do Rio Tietê. Quem passa por Bariri e Boraceia sente o mau cheiro. Infelizmente, não tem nada que possa ser feito. Os responsáveis pelo rio ésãoa AES Tietê e o Departamento Hidroviário do Estado de São Paulo.”


O lixo acumulado nas margens do rio, segundo a assessoria de imprensa, é dos próprios ranchos. “A região é de muitos ranchos. O pessoal descarta o lixo no rio. No início do ano a prefeitura de Boraceia vai desencadear uma campanha para conter a situação. Queremos que eles acondicionem o lixo porque há coleta na área rural.”

 

 

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