Bairros

Um olhar da Rodrigues Central

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 10 min

Uma avenida formada de um corredor de árvores, com casarões instalados nos dois lados ao longo das quadras da região central e com os mais importantes pontos de comércio e serviços, inclusive públicos, instalados ao seu redor.  


Esta era a avenida Rodrigues Alves na região central, entre as quadras 01 e 13, que o JC percorreu, ponto a ponto, na última semana, para observar suas mutações. Castigada pelo piso de asfalto, em detrimento aos corredores de transporte coletivo com placas de concreto nas principais cidades, a Rodrigues Alves surpreende quando olhada a partir de seu eixo periférico e paralelo, o que exige descer do carro e frear a correria do cotidiano por algum tempo.


O jornalista e historiador Luciano Dias Pires empresa os arquivos do Bauru Ilustrado para colaborar com a identificação dessa mutação, agora não só pela trajetória do tempo, mas pela adequação da Rodrigues central.


Nas exemplificações dessa relação do passado com o atual estágio da avenida, Pires recorda da “multidão” que povoava a esquina da avenida com a rua Agenor Meira, um ponto que foi farmácia desde a década de 20 e onde o Edifício São Lucas abrigava o Instituto Dramático e Musical de Bauru (foto 1 – antes e depois).


Na segunda sequência de imagens, a avenida Rodrigues Alves toda arborizada. “Consta que essas árvores da época começaram a dar muito inseto e a apelidaram de Lacerdinha, em referência a Carlos Lacerda. Como não conseguiram extirpar a ‘praga’ decidiram acabar com as árvores”, cita Luciano.


Na terceira relação de fotos do passado com a paisagem atual da Rodrigues central um foco posicionado da área perto de onde hoje está instalada a Câmara no sentido de quem olha para a direção bairro-Higienópolis.


Mas a Rodrigues central mudou e muito. Por lá, hoje são os consultórios de dentistas que predominam, seguidos dos diversos pontos de cabeleireiro. Mas a Rodrigues também mostra sua diversidade.

 

Dente e cabelo dominam Rodrigues


Levantamento de instalações da parte central da avenida mostra deterioração e predomínio de consultórios e salões de beleza

O maior terminal urbano a céu aberto de Bauru também tem a maior concentração de consultórios de dentistas e de salões de cabeleireiros. O predomínio desses serviços está entre as quadras 01 e 13 da Avenida Rodrigues Alves, da ligação com a Av. Pedro de Toledo até o cruzamento com a Av. Nações Unidas.


Este também é o trecho mais deteriorado, no piso da via ou nas ocupações dos imóveis, situação que contrasta com a Rodrigues Alves em direção ao Jardim Higienópolis/Vila Cardia. Nesta segunda parte até o canteiro central é mais verde, com palmeiras no canteiro central e lojas de serviços em melhor estado de conservação.


Nas 13 quadras que compõem o trecho central da Rodrigues Alves estão instalados 31 consultórios dentários individuais, sem contar a clínica da quadra 11. Nos dois sentidos de direção da avenida também estão espalhados 17 pontos de salão de beleza, todos de prontidão para atrair a clientela de funcionários do comércio e consumidores da região da Calçadão da Batista de Carvalho.


O perfil dos dois segmentos que sobressaem nesta região é de serviços predominantemente para as classes C e D. Nos consultórios de dentistas, os frequentadores da Rodrigues são “convidados “ por distribuidores de promoções. O convite tradicional é para que o munícipe realize o check-up sem compromisso. O atrativo inclui, claro, planos de manutenção dentária com pagamentos mensais que variam de R$ 12,00 a R$ 25,00. A variação de preços, curiosamente em faixa similar a do serviço de dentistas, também é regra para corte de cabelo.


Para o porteiro João Dias, do Edifício Pioneiro, o grande volume  de passageiros do transporte coletivo associado à presença de centenas de comerciários explica a concentração desses serviços na avenida. “Todo mundo que trabalha na região desce aqui e muita gente vem fazer compra e ai o comerciante aproveita para tentar vender seu serviço”, comenta.


Mas Dias protesta: “muitas lojas estão com a fachada mal conservadas e tem muito prédio caindo aos pedaços. É preciso revitalizar a avenida, exigir isso também do comerciante, para que a Rodrigues Alves fortaleça o comércio, seja atrativa, na região mais central”.



Visão paralela


A correria do cotidiano, mesmo para quem embarca ou desembarca de um coletivo ou percorre trechos a pé da Rodrigues Alves, promove aquele efeito de cegueira da visão periférica. A pressa ajuda a confirmar a impressão de que andamos pelas ruas sem conhecer os lugares. Com a Rodrigues não é diferente.  


A lista com os tipos de instalações na avenida mostra a diversidade de serviços na região, alguns remanescentes de séculos, como a Casa do Carimbo na quadra 09, e outros de certa forma inesperados para o “perfil” da avenida, como o comércio de aquários (quadra 11|) e de objetos militares (quadra 12).    


O JC percorreu toda a extensão, nos dois sentidos, da quadra 01 à quadra 13. A parte central da Rodrigues Alves tem de tudo e por lá se vende de quase tudo (veja lista nesta página).


A quadra 01 tem somente dois imóveis, um é pensão e o outro hotel ainda remanescente da fase de instalação da ferrovia. Pelas três primeiras quadras há circulação de usuários de drogas e pontos “escondidos” de oferta de prostituição. João, nome “fantasia” para um frentista que aceitou falar sobre o local descreve: “Aqui perto da ferrovia, de dia é fácil ver usuário de crack circulando e se prestar atenção percebe os locais que servem de prostituição com fachada de local para dormir”. Quanto mais perto do pátio ferroviário, mas a Rodrigues tem “cara de velha” e de abandono.


Ao longo da avenida, muitos imóveis estão desocupados. A Rodrigues tem inúmeros sobrados, uma parcela desocupada. O térreo desses imóveis abriga lojas diversificadas, de suco a venda de títulos de capitalização, de bolsa a loja de fraldas.


Prédios inteiros permanecem fechados e outros estão por cair. É o caso do recentemente interditado, o histórico Hotel Terra Branca. Por falar em usado como conceito de velho, brechós estão em quatro pontos da Rodrigues e lojas de móveis usados se concentram nas três primeiras quadras.         


O lado cruel da caminhada pela parte central da Rodrigues é que  há, coincidentemente, usuários de álcool e drogas perambulando no início, nas quadras 01 e dois, e no final: já na pracinha no cruzamento com a Avenida Nações Unidas e, mais à noite, no ponto de encontro no posto de combustível da esquina, desativado há pouco tempo.

Dois lados do ponto

Nesta estação de calor no pico, parar nos pontos de ônibus de transporte coletivo na Avenida Rodrigues Alves é submeter o corpo à fadiga. Coberturas pequenas e assentos minúsculos para o volume de passageiros na avenida tornam a espera dos ônibus uma saga.


O exemplo de como a falta de arborização na Rodrigues Alves penaliza o bauruense está no ponto em frente à Câmara Municipal. (Detalhe: a avenida já foi arborizada, no passado – veja na página 01). Do lado direito da praça Dom Pedro II, as árvores garantem brisa e sombra suficiente para minimizar o efeito do calor. Mas do outro lado do prédio, o calor é insuportável na calçada.


Mas há uma questão. Quem desfruta da brisa do lado direito de frente para o Legislativo também convive com o fedor vindo de andarilhos que usam áreas do jardim para defecar. Do outro lado da praça, o olfato não sofre esta agressão e não há viciados em álcool e droga ocupando o espaço.

 

Região central da avenida tem de tudo

Você quer comprar afiador de faca, máquina de assar frango, aquário, comprar livro ou disco LP? Na Rodrigues central tem! Quer vender ouro, fazer carimbo, visitar um templo maçônico, comprar artigos de umbanda, bolas ou fraldas? Na Rodrigues central tem!


As 13 quadras iniciais formam o diverso da Rodrigues. A região tem oito hotéis, seis estacionamentos de veículos, lojas de móveis usados e novos, brechós, tabacaria, magazines, lojas de roupas, sapatos, bolsas. Mas na Rodrigues Alves também é possível comprar aquário, fazer supletivo, aula de informática, tomar suco, comprar produtos de armarinhos e papelaria, visitar templo religioso, vereadores.


A Rodrigues também já teve mais postos de combustíveis, mas alguns permanecem, assim como por lá também há estúdio de tatuagem, cinco óticas e duas relojoarias. A região central também vende livros da literatura moderna e nos sebos próximos da quadra do Edifício Pioneiro é possível encontrar publicações raras. Quer comprar uma botina usada para a roça ou montar a caricatura do caipira para um evento? Na Rodrigues central tem!


Livrarias, restaurantes fast food, aluguel de traje de noiva, loja de bolos e doces, casa do biscoito, curso de música e venda de instrumentos, uma sobrevivente lan house, lotérica e até artigos militares são encontrados na região central da avenida.  

 

Um terminal de piso ‘torto’

O trecho central da Avenida Rodrigues Alves forma o maior terminal a céu aberto de passageiros. Pela via, entretanto, carros de passeio e ônibus convivem com a insolúvel deterioração do piso.


Um projeto da Prefeitura gestado junto à Emdurb prevê a retirada da camada de asfalto e a instalação de placas de concreto de 20 centímetros de espessura. Segundo o engenheiro de trânsito da empresa municipal, Anibal Ramalho, o problema no piso não é a base, mas o tipo de material escolhido.


“A base não é o problema, porque não há recalque lá (afundamento). O problema é que asfalto com muito calor e peso nesses pontos gera deformação do piso. A placa de concreto é utilizada nos corredores do mundo inteiro. Até há algum ponto de infiltração que precisa ser reparado, mas não por problema na base, mas pela fissura gerada pela deformação. Estamos realizando a fresagem para nivelar o que existe. O projeto de instalação das placas depende de recursos e está com a Prefeitura”, conta.


Os números da avenida mostram que 91% das linhas do transporte coletivo passam pela região central da Rodrigues Alves, sendo 600 veículos nos horários de pico (das 7h às 9 horas e das 17h às 19 horas). 12,4% do total de embarques em toda a área urbana da cidade se concentra em algumas quadras da avenida.


Para comparar, o arquiteto da Emdurb João Felipe Lança conta que a Rodrigues, no trecho estudado, recebe 200 ônibus/hora no pico, entre os 600 veículos/hora do total, indicador muito abaixo de avenidas como a Duque de Caxias e Comendador da Silva Martha. “Na Rodrigues, o entrelaçamento dos ônibus prejudicam o fluxo em quadras centrais. Isso se resolve com o novo sistema de embarques, com espaçamento dos pontos por linhas entre as quadras e baias exclusivas para os ônibus e de passagem para carros nas laterais. Mas na Rodrigues predomina o transporte coletivo de pessoas. Na Duque o fluxo no pico é de 1.400 veículos/hora e na Comendador 1.600/hora, muito acima dos 600 da Rodrigues nessas quadras. É preciso privilegiar o transporte coletivo de pessoas e não o individual, sobretudo nessa região da Rodrigues”, defende.

 

50 anos de Rodrigues

O comerciante Sérgio Rubio de Lima completa em março próximo 50 anos ininterruptos de trabalho na quadra 09 da Avenida Rodrigues Alves. Em 1964 o ponto foi instalado no lado ímpar. “Era uma quitanda de frutas e ai começamos a fazer sucos. Por 34 anos estamos agora no lado par, no 9-70. Vou completar cinco décadas de comércio com sucos e lanches”, diz.


Sérgio Lima conta que a mãe, vinda de Birigui, começou a fazer salgados por encomenda na época. “E o negócio começou a dar certo e o volume ficou tal que foi montado o ponto. Eu tinha 12 anos e comecei a trabalhar aqui e não sai mais até hoje. Nos primeiros 20 anos o público tinha classes A e B aqui. Com a chegada do ponto de ônibus o perfil mudou. Agora é para consumo rápido. O cliente está de olho no ônibus e aproveita para comer um salgado, um lanche rápido e tomar um suco. Tem de estar com tudo na mão”, complementa.



 

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