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Ano realmente Novo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Se me fosse dado escolher as frases mais marcantes de 2013 ficaria com aquelas dos cartazes levados às ruas pelos jovens, a partir de junho. Pedaços de cartolina rabiscados à mão passaram a exigir "Saúde padrão Fifa" e o término da corrupção. "Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil". Resumia um dos pôsteres: "Tem tanta coisa errada que não cabe num cartaz". A maioria desaprovou os excessos dos black blocs. O quebra-quebra seria até compreensível. A corrupção não tem freios e nenhum diálogo romântico será capaz de brecá-la.

Por trás das máscaras do personagem Guy Fawkes, de V de Vingança, o recado foi dado. A sombra dos manifestantes projetadas pelos holofotes nas meias cumbucas do Congresso são imagens que já fazem parte da história republicana. Os sinais de alerta dados aos políticos valeu, pelo menos enquanto duraram seus efeitos. Passado o susto, voltamos à velha rotina de se apropriar do que é público, como se fosse particular. Está aí o recalcitrante Renan Calheiros que requisitou um avião da FAB para ir de Brasília a Recife fazer um implante capilar. Cabe nele, como uma luva a sentença da fábula: "Lobo perde o pelo, mas não perde o costume". E ainda teve o desplante de ir à televisão para exaltar seus feitos como presidente do Senado, e pregar moralidade.

Houve sinais de melhora. Vamos ser otimistas. Ninguém acreditava. Nem os próprios condenados. Estão na cadeia 17 dos réus sentenciados pelo maior escândalo de corrupção da história do país. Um deles fugiu para o exterior. Habituada a ver delinquentes poderosos escaparem impunes, a população celebrou no Dia da Proclamação da República, a decretação da prisão dos réus, pelo Supremo Tribunal Federal. A impunidade é parceira dileta da corrupção. Quem sabe, daqui para frente os corruptos sejam tratados como criminosos comuns e tenham a cadeia como destino para purgação dos seus atos contra a sociedade. Ninguém duvida. O processo judicial conhecido como mensalão foi o fato mais marcante de 2013. Entraram para o vocabulário nacional termos jurídicos como a Teoria do Domínio do Fato - é considerado autor de um crime a pessoa que, mesmo, não tendo participado diretamente do ato criminoso, decidiu, ordenou ou facilitou a sua efetivação. Ficamos sabendo o que são embargos infringentes e embargos declaratórios, acessíveis apenas aos que têm bons e caros advogados. Nesses meandros processuais é que os ladrões do erário escapam, pela prescrição. O presidente do STF Joaquim Barbosa transformou-se em celebridade, a ponto de ser considerado virtual candidato à presidência do país. O povo gostou da sua inflexibilidade nas condenações. Ainda é cedo para saber se o desfecho da Ação Penal 470 irá inaugurar um novo tempo. O recado das ruas também foi dado e demonstra que o povo descobriu o poder da mobilização pelas redes sociais. Basta um hashtag. A palavra-chave iniciada pelo sinal do "jogo da velha" - # VemPraRua. #OGiganteAcordou, #MudaBrasil. Ficou muito comunicar-se com a turma. O hashtag, quem diria, amplificou os poderes dos jovens para exigir integridade e honestidade dos seus representantes. Pelo menos o Congresso acabou com o voto secreto em alguns casos, facilitando o acompanhamento por parte da imprensa e dos eleitores. Continua, porém, devendo uma reforma política mais ampla a ponto de recuperar a confiança perdida.

Na passagem do ano é costume na Itália todo mundo atirar pela janela as panelas velhas e vasos rachados, assim que soam os sinos à meia-noite. Quem sabe, na próxima eleição possamos fazer o mesmo com os políticos carcomidos que conspurcam a nação com suas fichas sujas. Para ganhar um Ano Novo, que realmente mereça este nome, eu, você, nós temos que fazer por merecê-lo. Por inteiro. Não só quanto aos nossos interesses pessoais. Temos responsabilidades como cidadãos.

O poeta Carlos Drummond de Andrade virou estátua em Copacabana, sem nunca ter tido essa pretensão. Roubaram-lhe os óculos oito vezes. Amanheceu pichado. Nem respeitam a sua obra na qual cantou a vida. O poeta ensinou que o ano velho não morre. Apenas ressuscita para uma vida nova que, se espera, tenha menos máculas. "É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre". Desejo a todos um Ano Novo que mereça este nome. Não é nada fácil, mas vale tentar.

O autor, Zarcillo Barbosa é jornalista e articulista do JC

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