Regional

Poluição no rio atinge duas cidades

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Primeiro foram os rancheiros, e na sequência, os moradores que reclamaram da poluição estranha que exala mau cheiro e atinge o bairro de Anhumas, em Boraceia, conforme o JC publicou na edição do último domingo. Ontem, o prefeito de Arealva, Paulo Padanosque Pereira, confirmou que em Arealva está acontecendo o mesmo, fato que o obrigou a transferir a festa do Réveillon da orla para a praça da matriz.

 

Douglas Reis

José Alves mostra sujeira na margem do rio: moradores reclamam de cheiro insuportável

O mau cheiro exalado pela poluição - que ainda não tem causa definida - está incomodando os moradores de toda a cidade de Boraceia. Pessoas que moram a mais de dois mil metros do rio contam que os finais de tarde no município tornaram-se pesadelo.


A dona de casa Carmelita dos Santos Pereira Silva, 47 anos, confirma. “Moro em Boraceia há 25 anos e nunca vi coisa igual. Na hora do jantar, o cheiro se torna insuportável. Forte demais, semelhante ao cheiro exalado por chiqueiro de porco. Achamos que fosse do córrego, mas acho que não é. Todo mundo sente o cheiro.”


Os primeiros a reclamar pretendem fazer um abaixo-assinado para engrossar as queixas, que serão levadas ao Ministério Público pelo Instituto Sócio Ambiental Eco Vida.


Wagner Ferraguti, que encabeçou as reclamações e é proprietário de um rancho, entrou em contato com o instituto e diz o que pretende. “Vou colher assinaturas para dar força ao instituto. Queremos resolver o problema, porque isso é uma vergonha.”


Outro morador de Boraceia, Flademir Francischini, 54 anos, é incisivo na afirmação que faz. “Estou em Boraceia desde 1989. Já pesquei nesse rio. Agora não dá mais para pescar porque até o peixe está impregnado de um sabor estranho. Um gosto ruim.”


Ele lembra que o odor fétido já o obrigou a fechar as janelas da casa em dias quentes. “Uma madrugada dessas, eu dormia com a janela aberta. Acordei e fechei a janela, tal o cheiro insuportável. Não tem quem aguente. O vento trás para dentro de nossa casa. Dependemos da direção do vento. O Tietê está sofrendo e nós também.”



Análise da água


O prefeito de Boraceia, Marcos Vinício Bilancieri, prometeu protocolar ainda ontem junto à Cetesb um pedido de análise da água. “Quando eu era vereador e fui atrás de informações, eles me informaram que era a poluição do rio Tietê que forma algas, e sob forte calor ela morre e forma a nata verde que exala o cheiro.”


Segundo ele, na barragem de Bariri, na cidade de Arealva e outras, o cheiro também pode ser sentido. “Todo ano, em dezembro, tem mau cheiro. Este está pior. O que me intriga é que coincidentemente é o término da safra de cana. Não podemos dizer nada, mas me intriga essa coincidência.”

 

Cautela

O coordenador do Instituto Sócio Ambiental Eco Vida, José Victor Ficcio reafirmou ontem que fará uma representação ao Ministério Público. Para ele, tudo indica que o fenômeno esteja sendo provocado por algum tipo de material despejado no Rio Tietê, mas pede cautela. “Ainda não sabemos o que é.”


“É um lançamento, mas temos que ser cautelosos. Posso dizer que se fosse um processo natural estaria no rio todo, mas está concentrado na margem esquerda entre Pederneiras e Boraceia. Além de estar só de um lado, é algo não identificado. Se fosse só esgoto não mataria os aguapés. O fenômeno está causando a mortandade da vegetação. Queremos que o MP peça análise da água e de todo esse material.”

 

Equipe irá averiguar


A concessionária AES Tietê prometeu ontem que enviará uma equipe ao município de Boraceia para averiguar as condições do rio. Foram feitas várias tentativas de contato com a Cetesb, que não atendeu o telefone fixo.

 

Evento deixa a orla

O odor fétido do Rio Tietê obrigou a prefeitura de Arealva a transferir a queima de fogos e show programados para comemorar o novo ano para a praça da matriz. O prefeito Paulo Padanosque Pereira ressalta que na cidade o odor não é tão intenso como em Boraceia, mas confirma que está ocorrendo também lá.


Ele quer conversar com os municípios afetados pela poluição a fim de que, juntos, possam exigir uma ação mais rápida e enérgica da Cetesb e AES Tietê. “Eu acredito que juntos temos que solucionar. Somos os mais prejudicados com a situação.”

 

Comerciante reclama


O comerciante Juarez Antonio Migliorini, 59 anos, espera ansioso pelas festas de final de ano, sinônimo de acréscimo em seu faturamento. É nesse período que os ranchos ficam lotados e a venda de bebidas e alimentos aumenta.


Porém, este ano, os ranchos estão fechados e ele pouco tem faturado. Ele diz que há cerca de cinco anos teve algo semelhante, menos grave. “Naquela época não ficamos sabendo o que aconteceu. Agora está difícil de respirar. O cheiro é demais de ruim. Nem mesmo os donos de rancho estão ficando por aqui. Tem sitiante que sempre vem aqui e que mora próximo ao rio que está em situação difícil. Falam em abandonar o local.”

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