Todo começo de ano na escola era uma alegria. Voltávamos a ver os amigos, os professores, a turma toda. Ficávamos na expectativa de que se iria entrar alguém novo ou se alguém tinha saído. Tudo muito bom, tudo muito bem, até o momento em que a Tia chegava e dizia: "Crianças, vamos fazer um texto sobre como foram as férias de vocês". Com o perdão da palavra, aquilo me era um inferno. Não pelo fato de precisar fazer uma redação, mas pelo fato de nunca ter algo realmente legal para contar. Enquanto as outras crianças contavam suas viagens maravilhosas, eu sempre contava que tinha ido para o sítio do meu avô ou que tinha brincado com meus primos. Não que isso fosse ruim, mas, né... Na faculdade é a mesma coisa, claro que agora a redação foi substituída pelo bate-papo da mesa do bar.
Enquanto alguns contam que passaram um mês na praia, outros foram para fora do país, eu sempre digo com aquele jeitão caipira do qual tanto me orgulho "Ah, você sabe como é... Cidade pequena, povo tranquillo. Aproveitei para descansar". Eu sempre via essa situação pelo lado negativo da coisa: todo mundo saiu de férias e eu aqui, na internet. Isso se repetiria mais uma vez nesse ano. Eu já estava pronto para lançar a piada que a redação de "Minhas Férias" seria uma folha vazia com o meu nome, até o momento em que eu comecei a enxergar o copo meio cheio.
Não tinha me dado conta o quanto que eu fiz nesse um mês de férias: Andei de Camaro em Vinewood Hills, de lá fui desbravar o meio-oeste americano. Sai dos Estados Unidos e fui passar um tempo na Itália. Veneza, Florença e Roma foram alguns do destinos. De lá fui para a Rússia combater terroristas. Como a situação estava muito pesada, decidir curtir o Taiti, onde eu e meus amigos fomos sequestrados por piratas.
Quando escapamos, decidi voltar ao Brasil para uma nova viagem, dessa vez para fazer um tour pelos maiores estádios do mundo, onde pude ver os melhores em campo. E olha que eu consegui fazer tudo isso acordando 5h45 todos os dias para ir trabalhar. Viajei sem sair de casa. Os mais românticos devem associar essa viagem sem sair do lugar os bons livros. Engana-se, meu caro leitor, minha viagem foi de outro tipo (não, não usei drogas, seu mente poluída). Minhas viagens foram graças ao meu vídeo-game. Sei que sempre existirá uma batalha entre os gamers e as pessoas que não gostam, pois viram nele a quem culpar pelos erros cometidos na educação dos filhos. É só você ler outra vez o parágrafo que eu descrevo minha "viagem".
Na Itália, matei templários, na Rússia enfrentei terroristas e no Taiti tive que eliminar piratas. O vídeogame te dá uma sensação de escapismo, penso eu. Às vezes estou de saco cheio do mundo e nem por isso tenho o direito de descontar nas pessoas. Quem vai sofrer com minha ira são os personagens feitos de pixels dos jogos que eu tanto adora desde de pequeno. O vídeogame nunca me deixou violento. Ma vá, não faço mal a uma mosca. Agora, coloca um templário na minha frente para ver o que acontece...
Matheus Bottura Raulli - estudante de Jornalismo