Esportes

Outra realidade


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Os tons pastéis dão um sentido de uniformidade ao Catar, como se não houvesse contrastes na rica nação do Oriente Médio. A cor da areia é repetida em todas as edificações, até mesmo na maioria dos carros, para diminuir os efeitos do sol. Mas a diminuta península que invade o Golfo Pérsico, vinda da Arábia Saudita, tem seus conflitos e grandes desafios a superar até 2022, quando abrigará a Copa do Mundo em um território que tem apenas o dobro do tamanho do Distrito Federal.


Entre as questões problemáticas, um crescimento econômico acelerado, cuja demanda por força de trabalho a pequena população não consegue atender, o clima, a dimensão territorial e a falta de perspectiva de o país construir uma seleção minimamente competitiva, resultado de uma liga fraca e pouco estimulante.


Por outro lado, o Catar será uma sede muito menos problemática para a Fifa e suas infindáveis exigências. Dinheiro não é problema. Em 2012, o PIB do Catar foi de US$ 182 bilhões, para uma população de aproximadamente 2 milhões de pessoas, a mais alta renda per capita do mundo.


Ao longo dos próximos oito anos, grande parte dessa riqueza será destinada ao esforço de entregar estádios e a infraestrutura (construção de um sistema de metrô) necessários para a Copa. Projetam-se investimentos de R$ 450 bilhões.


E os estádios estarão prontos como muita antecedência. Situação como a vista no Brasil, quando o Maracanã foi entregue incompleto para a Copa das Confederações e as seis arenas restantes para a Copa de 2014 previstas para conclusão a apenas quatro meses do pontapé inicial, provavelmente não ocorrerão. A expectativa é que o último estádio seja entregue em 2020.


E não espere protestos e reação negativa da população se houver estouro de orçamento. O Catar é uma monarquia absolutista. A voz do povo não é um conceito por lá. Ao contrário, a população local (88% dos habitantes da capital Doha são estrangeiros) dá apoio irrestrito à empreitada.


Ironicamente, porém, tanta riqueza em uma nação que mal aparece no mapa também gera contrastes que não se vê em um giro superficial por Doha. O país não dá conta de avançar na velocidade que a fortuna derivada do petróleo e do gás demanda. E as diferenças de classes começam a surgir entre uma população pouco familiarizada com abismos sociais. A questão da falta de mão de obra, exacerbada pela explosão da construção civil como resultado das obras para a Copa, criou uma classe trabalhadora quase toda estrangeira, pobre e que vive sob regime de escravidão e trabalho forçado.


Protegidas por uma legislação permissiva e não aplicada, as empreiteiras não pagam o combinado e impedem o trabalhador de retornar a seu país. Regras de segurança não são respeitadas e as condições sanitárias e de habitação são degradantes. “É uma oportunidade de avanços físicos, mas também na área social, do trabalho. Sabemos que temos desafios”, diz Nasser Al Khater, diretor de comunicação do Supremo Comitê Catar 2022. “Com a Copa vem o escrutínio (do mundo). Não negamos nossos problemas”.


Mas os obstáculos não dizem respeito apenas a direitos humanos e temas de maior abrangência. Os organizadores ainda brigam com a Fifa a respeito do período da Copa.


Em junho/julho, verão no hemisfério norte e de pausa nas principais ligas, o clima é proibitivo não só para o esporte, mas para a circulação de pessoas.


Se o sistema de ar condicionado nas arenas pode resolver a primeira parte, não resolverá a segunda. Tudo indica que a Copa do Catar será no período de novembro/dezembro, quando os termômetros oscilam entre agradáveis 24º e 29ºC. É o que a Fifa tem acenado.


Encontrar opções de turismo e lazer também será problemático em uma nação pequena e de poucos atrativos. Os estádios estarão quase todos a poucos quilômetros um do outro. “Será uma Copa compacta. Um torcedor poderá ver até três jogos por dia e as delegações e mídia poderão se fixar em uma cidade sem a necessidade de desgaste com viagens de avião e mudança constante de hotéis”, afirma Hassan Al Thawadi, secretário geral do Supremo Comitê.


Outro aspecto vantajoso, para a Fifa, é que não haverá discussão sobre as imposições feitas pela entidade ao país-sede. Tudo no Catar poderá ser resolvido em segundos, com uma assinatura do emir Tamim bin Hamad Al Thani. Assim será dirimida qualquer controvérsia a respeito do consumo de álcool. Alguns hotéis têm liberação de venda de bebidas e isso será estendido aos estádios. Um ponto que pode gerar debate será quanto ao uso de cerveja em áreas abertas, como as “fan fests” e “fan zones”.


A segurança é alvo de pouquíssima preocupação. O Catar é dos países mais seguros do mundo. Não é raro ver um cidadão deixar seu carro com o motor e o ar condicionado ligados enquanto estaciona para uma compra rápida. O terrorismo é um assunto tabu, mas o país não tem o histórico de atentados.


Até a bola rolar para a partida inaugural, o Catar tem tempo para atacar seus problemas e destacar suas virtudes. Disposição para se abrir ao mundo não falta aos catarianos, que não apenas aceitam a presença do Ocidente como desejam o intercâmbio cultural que ele traz.

 

Só salário atrai jogadores

De alguns anos para cá o Oriente Médio se tornou um destino frequente e cobiçado pelos jogadores brasileiros. Atraídos por contratos milionários que dificilmente encontrariam em outros mercados da bola, nossos atletas partem rumo ao desconhecido e à estabilidade financeira. Nessa região, um país intensificou sua caça aos brasileiros. O Catar oferece milhões de seus dólares em troca de nossos craques. Como contrapartida, no que se refere ao futuro no futebol, dá muito pouco.


Só há uma razão para deixar o Brasil: dinheiro. Jogadores e técnicos admitem. Estão no Catar para fazer fortuna. Alguns em fim de carreira, como Raúl, ex-Real Madrid, que está no Al Sadd. “É garantir o futuro da família. É um país tranquilo, não tem violência”, diz Wanderley, ex-Flamengo, do Al Arabi.


Basta uma passagem por um estádio em dia de jogo para se perceber que o futebol tem pouco prestígio. Apesar de ser um povo que gosta do esporte, a predileção é por vê-lo pela TV.


Aos jogadores resta atuar para algumas dezenas de torcedores, a maioria familiares e amigos. A reportagem assistiu a dois jogos da QNB Cup, copa doméstica de menor importância, no mês passado. Em campo, Nilmar e Nenê. Na arquibancada, não mais do que 70 pessoas - nos dois jogos.

 

Kafala escraviza trabalhadores de fora e vira alvo antes de Mundial

Ao longo dos próximos oito anos, o mais grave dos problemas do Catar só tende a se agravar. O ritmo acelerado da expansão do país e a consequente necessidade por mão de obra estrangeira evidenciou a tragédia do sistema kafala, uma legislação trabalhista que tem o potencial - e na prática tem se confirmado - de escravizar o imigrante. Como sede da Copa do Mundo de 2022, tal situação se intensificou e deixou de ser um problema interno de uma nação diminuta para atrair os olhares do mundo.


No período em que a reportagem esteve em Doha, no mês passado, a Anistia Internacional visitou o país para apresentar um dossiê com dados assustadores sobre a situação dos trabalhadores, principalmente da construção civil, e cobrar medidas mais enérgicas do governo e dos organizadores do Mundial.


A kafala é um sistema em que os imigrantes têm suas despesas de passagem e visto, entre outras, pagas pelas empresas para as quais vão trabalhar no Catar. Durante o tempo do contrato, os documentos ficam de posse das companhias e os trabalhadores não podem se demitir ou até mesmo retornar a seu país sem a permissão dos patrões.


Diante da negligência do governo catariano em aplicar o mínimo de rigor ao cumprimento das frouxas leis que já existem, os empregadores não pagam o prometido, muitas vezes não pagam nada, além de não garantir condições de segurança e hospedagem minimamente decentes.


“Os empregadores no Catar demonstram um revoltante descaso com direitos humanos básicos dos operários estrangeiros. Muitas (das construtoras) estão se aproveitando de um ambiente permissivo e de frouxa aplicação das leis trabalhistas existentes para explorar os trabalhadores da construção civil”, disse Salil Shetty, secretário geral da Anistia, durante a apresentação do levantamento.

 

 

 

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