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2014: pode vir quente que eu estou fervendo!

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 4 min

Carlos Imperial e Eduardo Araújo compuseram a letra da música "Pode vir quente que estou fervendo", que ficou consagrada nas vozes de Roberto e Erasmo Carlos. Como o Rei Roberto Carlos nos acompanha a cada virada do ano, optei por iniciar o ano de 2014 falando de economia a partir do título desta música da Jovem Guarda.

É comum no início do ano os economistas realizarem suas previsões econômicas. Conhecedores dos modelos macroeconômicos, que mesclam matemática, estatística e conhecimento em economia, os grandes números do desempenho econômico são projetados, sempre considerando que algumas variáveis não interfiram no modelo. É estabelecida a condição "ceteris-páribus", isto é, que tudo mais fique constante. Isso vale para outras ciências também. Qual a relação das projeções com o título da música? Está intimamente ligada ao fato de ser um ano desafiador.

Se alguém vem quente e você está fervendo, quer dizer que estará mais bem preparado para se defender. Exemplo um: o crescimento econômico. Estudos apontam para um Produto Interno Bruto com crescimento na casa dos 2 a 2,5% em 2014 em relação a 2013. Consumo interno contido; baixos Investimentos; setor externo complicado; inflação tendo que ser controlada; variáveis mais que suficientes para confirmarem esta previsão. Se o crescimento será pífio, o que fazer?

Venha quente que estou fervendo, ou seja, vou planejar minha carreira, meus gastos pessoais, o desempenho da empresa, levando em conta este cenário, com trabalhos preventivos, com metas desafiadoras e alcançáveis, sendo versátil o suficiente para avançar mais se as coisas melhorarem ou recuar caso seja necessário. É a antecipação dos fatos.

Exemplo dois: inflação. Tudo aponta para inflação mais próxima a 6% em 2014 do que no centro da meta que é 4,5%. Virão pressões de inúmeras frentes, mas as principais e já conhecidas são: o represamento do aumento dos preços administrados (tarifas, combustíveis, etc.) e pressão sobre o dólar, trazendo a inflação importada. Se a inflação vem quente, para você estar fervendo é preciso saber que se a inflação ficar mais elevada os juros poderão subir, com isso o crédito ficará mais caro, contribuindo para que o crescimento seja baixo. No ambiente familiar trabalhar o orçamento doméstico sem muita aventura, com os pés no chão e no ambiente empresarial administrar os estoques, estabelecer política de crédito criteriosa, realizar análise detalhada de custo/benefício nos novos investimentos. Exemplo três: emprego e renda. Em ambiente de incertezas o emprego fica mais escasso e a renda não crescerá como desejamos. Se o emprego e a renda vêm quentes, estar fervendo significa se preparar para enfrentar um eventual desemprego, ou o adiamento de uma promoção, com renda sem crescimento significativo. Neste contexto garantir reservas financeiras e não contrair dívidas elevadas são medidas preventivas. Sem pessimismo, mas de olho no comportamento do setor em que trabalha.

Exemplo quatro: câmbio. Diretamente esta variável não atingirá a todos, mas indiretamente sim. Tudo indica que o dólar ficará pressionado o ano todo, vindo quente, a partir da mudança da política monetária nos Estados Unidos. Emitirão menos dólares, diminuindo a oferta global da moeda norte-americana, e aumentarão os juros básicos naquele país, motivando a saída de dólares aqui no Brasil. Menor oferta e maior demanda por moeda estrangeira, câmbio em alta. Inflação importada à vista. O câmbio pode vir quente e estar fervendo neste contexto é aproveitar o câmbio favorável para exportar mais, para uma política de substituição de importação e trabalhar também preventivamente. As reservas cambiais brasileiras dão um alento para que essa variável não tome o vulto que se projeta.

Há inúmeros outros exemplos de que é possível ferver quando a coisa vem quente. Quem opera no mercado brasileiro sempre conviveu com a adversidade. Em determinado período foi a inflação galopante. Em outros a escassez de crédito. O desemprego também foi desafiador. Mesmo sem as reformas estruturais conseguimos derrubar a inflação e fazer a economia nacional gozar de credibilidade internacional. É certo que o modelo econômico brasileiro se esgotou, mas é certo também que a dimensão de nosso mercado não pode ser desprezada e que esta capacidade de atuar em mercados adversos tornou o povo versátil, ágil, capaz de "tirar leite de pedra". Venha 2014 quente que o brasileiro está fervendo, afinal, somente os fracos não enfrentam os desafios e fracos todos nós já provamos que não somos. Venha 2014 quente, que estamos fervendo!

O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor regional do Corecon e articulista do JC

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