Começo de ano não é fácil. As famílias enfrentam uma série de contas e outros gastos extras, característicos dos primeiros meses do calendário. Juntos, eles podem corresponder a quase metade do orçamento das famílias e, somados às despesas fixas, chegam a extrapolar a receita, o que exige cautela e, principalmente, planejamento financeiro.
Tomando como referência um núcleo familiar formado por dois adultos e duas crianças em idade escolar, com renda média de R$ 5.000,00, o economista Carlos Sette, a pedido do Jornal da Cidade, calculou que o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), o Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) e a compra do material escolar consomem, em média, o valor correspondente a 46% do orçamento do mês, algo em torno de R$ 2.300,00.
O cálculo não considerou sequer a tradicional taxa de matrícula cobrada pelas escolas particulares, escolhidas por grande parte das famílias de classe média, que costumam “apertar o cinto” para garantir a educação dos filhos.
A bancária Cintia Cristina Moreti de Lima encontrou uma saída para se livrar não apenas dessa conta, mas do peso da mensalidade da escola do filho de 9 anos durante todo o ano. Com renda familiar mensal de R$ 8 mil, ela aplica seu décimo terceiro salário somado ao do marido para liquidar, no mês de dezembro, todas as despesas referentes ao ano seguinte junto ao estabelecimento de ensino.
“Foram R$ 9.320,00 pagos no dia 20 de dezembro pela anuidade de 2014. É uma conta que não teremos daqui para frente e ainda conseguimos 10% de desconto sobre o valor total”, conta. Já o material escolar será comprado neste mês e deverá custar cerca de R$ 300,00.
Também com o objetivo de pagar menos, ela pretende pagar o IPTU de uma só vez. Em Bauru, há três anos, o vencimento do tributo é adiado para o mês de abril, medida da prefeitura para dar uma folga no orçamento das famílias e, consequentemente, reduzir os índices de inadimplência. O município, porém, oferece a opção de parcelamento em até nove meses.
Com o aumento do imposto aprovado no ano passado, Cintia pagará cerca de R$ 450,00 aos cofres municipais em 2014, 12% a mais do que em 2013.
A mesma tática não poderá ser adotada, porém, no caso do IPVA e do seguro obrigatório referentes à moto e ao carro, ambos ano 2012, que a família da bancária possui. A conta será de R$ 2.200,00. “Vamos parcelar entre os meses de janeiro, fevereiro e março”.
Isso porque, além do financiamento dos veículos - que já consome R$ 1.100,00 da família - e do imóvel onde vivem – que engole mais R$ 550,00 -, Cintia e o marido terão que arcar, no início do ano, com os R$ 2.200,00 referentes ao seguro do automóvel e da motocicleta.
No aperto
Por conta da renda inferior, nem todos conseguem alcançar o mesmo patamar de planejamento e controle financeiro de Cintia e do marido. Renata Aparecida Agulhari Fernandes, por exemplo, vive com o marido e duas filhas, uma de 7 e outra de 4 anos, no Jardim Olímpico, em Bauru. O orçamento mensal da família é de R$ 3.500,00.
“Nessa época do ano, a situação é apertada. Para honrar todas as contas, precisamos recorrer ao décimo terceiro e ao terço das férias, que consigo tirar agora por conta do calendário escolar”, conta a professora da rede estadual de ensino.
Mesmo com as crianças matriculadas em escola pública, pelo menos R$ 200,00 são gastos com o material e o uniforme de uma das filhas. A outra recebe os itens gratuitamente pela prefeitura. “Metade do material eu já comprei em dezembro, usando parte do décimo terceiro. A outra vai ter que ficar para agora”.
Renata e o marido também terão que encarar o IPVA do carro e da moto que possuem. A despesa chegará a R$ 1.150,00, sendo que o casal já paga R$ 600,00 pelo financiamento do automóvel. “A sorte é que só pagamos o seguro a partir do segundo semestre”.
Renata admite, porém, que não sabe quanto pagará nem quanto pagou de IPTU do ano passado. Como não possui casa própria, o valor do tributo vem embutido no aluguel de R$ 600,00.
80% com destinação certa
Se uma família com renda de R$ 5.000,00 pode ter praticamente metade do orçamento comprometido com as contas de final de ano, o cenário fica ainda mais crítico em função das despesas fixas, que independem de sazonalidades.
O economista Carlos Sette afirma que pelo menos 80% da receita de uma residência já tem destinação certa todos os meses e se divide, principalmente, entre os gastos com supermercado (25%), prestação de veículos (17%) e aluguel ou prestação de financiamento imobiliário (12%).
Sette ressalta que na conta dos 80% não estão incluídos gastos como remédios, manutenção de carro, faxineira e lazer. “Somados, poderão ocupar mensalmente os 100% da renda familiar. Quando entram as despesas de início de ano - mesmo sendo parceladas -, o orçamento familiar extrapola”.
Acrescenta-se a esse aperto orçamentário, os gastos extras de final de ano, com ceias, presentes e viagens. “São esses fatores que levam muitas pessoas a entrarem nos limites do cheque especial ou dos cartões de crédito, onde muitas delas se descontrolam”, afirma.
Sem fórmula mágica
Carlos Sette afirma que não há dica milagrosa para evitar o aperto orçamentário. A regra de ouro, no entanto, é poupar. O economista reconhece que a missão é difícil para famílias com baixa renda, mas alega que, para uma com receita mensal de R$ 5 mil, é possível economizar 10% do total. “Além de aliviar as contas, a postura pode tornar viáveis as viagens de férias”.
A segunda regra é não gastar mais do que tem. A bancária Cintia de Lima conta que, ao final de 2013, estabeleceu o valor-teto para gastos com presentes. “Não trouxemos dívidas para 2014. Definimos que gastaríamos R$ 1.000,00 e não passamos disso”, relata.
Consignado é a melhor opção, diz economista
Para quem planejou as finanças a partir do final de 2013 de olho no aumento das contas no início deste ano, a estratégia é apenas controlar os gastos ao longo dos próximos três meses. Quem já está começando o ano endividado, no entanto, precisa fazer esforços. A regra número um, é claro, é o corte de despesas supérfluas.
“O primeiro passo pode ser dado em relação ao vestuário. Ficar sem comprar roupas não vai matar ninguém, diferentemente de deixar de comprar remédios, por exemplo. Os gastos com combustíveis também costumam ser altos e podem ser reduzidos com facilidade moderada. Também se fala muito ao celular”, pontua o economista Carlos Sette.
Ele sugere ainda que, por determinado tempo, as famílias substituam os pacotes de TV a cabo completos por outros mais básicos. “Outro ponto, infelizmente, é reduzir o lazer e as saídas para comer fora. É preciso segurar para poder sair do vermelho”.
Se ainda assim as contas não forem colocadas em dia, Sette indica o crédito consignado – empréstimo com desconto em folha de pagamento – como a melhor saída para as famílias.
As taxas de juros praticadas atualmente para essa modalidade de crédito não ultrapassam 2,14% ao mês, segundo o economista. “Elas são bem melhores do que os 7% médios cobrados do cheque especial. As dos cartões de crédito, então, chegam a 12%”, observa.