Tribuna do Leitor

O meu amigo Padre tem razão


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Quatro dias após a marcante e maravilhosa celebração do Santo Natal, com a participação de centenas de fiéis ouvindo uma homilia brilhante e inesquecível com destaque para os milhares de Herodes que existem hoje em todas as partes do mundo provocando a morte de milhões de crianças, reencontrei-o um tanto apressado no estacionamento da igreja, pois vinha para a celebração de outra missa.

Após rápidos cumprimentos, porquanto não queria atrasá-lo, pois a igreja estava lotada aguardando-o, meu amigo padre sacou "- Joaquim, estou cansado desses natais. Será que um dia mudará?" "-Não sei, só o tempo dirá", respondi. E juntos adentramos ao sagrado templo, ele para celebrar e eu para participar.

Confesso que sua afirmação foi impactante e à primeira vista poderia ser entendida como revolucionária, um sacrilégio para os dogmas eclesiais, e após muitas reflexões encontrei o alto significado da afirmação que poderia escandalizar outrem. Entendi que a profundidade do seu inconformismo traz à tona uma triste realidade por todos esclarecidos conhecida, qual seja, o desvirtuamento que vem ocorrendo em relação à data magna da cristandade pelo materialismo, pela mercantilização, pelo comércio ditado pela obrigação de se presentear. Todos nós nos consideramos na obrigação de presentear.

Estamos adotando um princípio de que sem presente não é Natal. E dentro desse entendimento errôneo e anticristão, aquele que não deu ou recebeu poderá pensar de que não comemorou o Natal. Um pensando que foi esquecido e o outro porque não teve condição de presentear. Quando em verdade não existe ninguém, por mais pobre que seja, que não tenha algo para dar ou presentear, como um afago e sorriso para os filhos, vizinhos, amigos, colegas ou pedestre com quem se cruza.

Também não existe ninguém que, por mais rico que seja, não tenha algo para receber, um simples aceno, um cruzamento de olhar ou uma inclinação de cabeça. Vivencia-se um período de muita expectativa, utilização de enfeites, muitas luzes, muitos papais noéis ornamentais e muitas compras! Muitas trocas, muitas alegrias e decepções pelos presentes recebidos ou deixados de receber. Enfim, o Natal chegou, curtiu-se e passou. Agora, o desmonte dos ornamentos, das luzes, dos presépios, também o de minha casa.

Partimos para acomodações das peças e materiais em sacolas e caixas que guardamos nos armários e gavetas para o próximo Natal e outros. Fecham-se as portas dos armários e gavetas. Agora não se ouve mais as músicas natalinas, pouquíssimas por sinal, e nos envolvemos em outras preocupações como início das aulas, carnaval, Copa do Mundo e outras... Assunto e motivação encerrados.

E para perguntarmos, além dos presentes, aprendemos e ensinamos algo? Procuraremos ser diferentes no próximo Natal e nos demais? E o que o meu amigo padre espera? Que não festejemos o Natal durante todo o ano, mas que mantenhamos, muito embora em menos intensidade, os mesmos sentimentos vivenciados, ou seja, sentir a proximidade do outro, a fraternidade, a doação, o amor. Conclusivamente, entendi e respeito o seu desabafo, pois o padre, meu grande amigo tem razão. E muita razão!

Prof. Joaquim Eliseo Mendes

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