O rendimento profissional está diretamente relacionado à qualidade de vida. Partindo-se dessa premissa, os hábitos alimentares são capazes de influir, positiva ou negativamente, no desempenho de cada funcionário e, consequentemente, nos resultados das empresas. Pesquisa publicada recentemente no Journal of Occupational and Environmental Medicine, importante jornal norte-americano na área médica, apontou que pessoas que comem refeições saudáveis e fazem exercício numa base regular têm melhor desempenho no trabalho e menor absentismo. Segundo o estudo, funcionários que comem alimentos saudáveis durante todo o dia são 25% mais propensos a ter melhor desempenho de trabalho, enquanto que aqueles que comem cinco ou mais porções de frutas e vegetais, pelo menos quatro vezes por semana, têm 20% mais propensão a serem mais produtivos. No geral, o absentismo foi 27% menor para os trabalhadores que comeram alimentos saudáveis e faziam regularmente exercício e o desempenho no trabalho foi 11% maior do que os seus pares que eram obesos.
Entretanto, no Brasil, especialmente nas grandes capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, há notório declínio no consumo de alimentos naturais (frutas e vegetais) associado a um aumento no consumo de refeições industrializadas. O tamanho das porções de alimentos prontos ou de fast-foods vem aumentado nos últimos anos, provocando excesso calórico.
Hoje é comum encontrar pessoas que não têm horários fixos para se alimentar e acabam por substituir as principais refeições por lanches rápidos, frituras e fast-food, ricos em calorias e gorduras, ou pelo consumo de guloseimas, refrigerantes e petiscos durante todo o dia. A consequência é o aumento das taxas de obesidade e sobrepeso, gerando impacto negativo na saúde. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima em US$ 3 bilhões a perda anual da economia brasileira com adoecimento e mortes por doenças crônicas, como problemas cardiovasculares, câncer, asma, doença pulmonar obstrutiva crônica e diabetes.
A obesidade e o sobrepeso, oriundos da má alimentação e do sedentarismo, constituem grave problema não somente sob o ponto de vista de saúde pública, mas também para as empresas, que acabam tendo gastos extras com o absenteísmo, baixa produtividade e despesas com seguro-saúde de seus funcionários. Além disso, comportamentos alimentares inadequados são observados em ambientes de trabalho, como longos períodos de jejum, refeições muito volumosas, alto consumo de bebidas cafeinadas e pouco tempo de refeição, associado à mastigação insuficiente dos alimentos. Esses comportamentos podem, com o tempo, gerar dificuldades de digestão, de absorção dos nutrientes, transtornos gastrintestinais, e consequentemente, pior performance no trabalho.
Foi a partir dessas constatações que o Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da FMUSP desenvolveu o "Meu Prato Saudável", um programa de orientação nutricional, referência nacional em alimentação saudável, voltado para toda a população brasileira, com uma metodologia de fácil aplicação e que inclui os alimentos que a maioria da população já está habituada. Promover bons hábitos alimentares, melhorando com isso a qualidade de vida dos trabalhadores e seu rendimento deve estar, mais do que nunca, na agenda do mundo corporativo.
As autoras, Elisabete F. Almeida, é médica com especialização em Educação em Saúde pela Universidade de Harvard e Clínica Mayo e diretora-executiva do Programa "Meu Prato Saudável", do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP; e Lara Natacci é mestre em ciências pela FMUSP com especialização em Distúrbios do Comportamento Alimentar pela Université de Paris 5 René Descartes e nutricionista