Regional

Rio Lençóis de ponta a ponta

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 10 min

Um documentário contendo a história do Rio Lençóis está “saindo do forno” para virar um livro, sendo que 90% dele está pronto e foi batizado de “Rio Lençóis de Ponta a Ponta”. O especialista em sustentabilidade corporativa Sidney Aguiar é quem retrata as histórias, curiosidades, particularidades econômicas e as ficções que envolvem o rio que corre ao contrário dos demais, do oeste para o leste.

Na opinião dele, a história do Rio Lençóis é atraente demais para não ser registrada. “Eu comecei a pesquisar o rio em 2004 quando trabalhava em uma ONG. Ele é diferente, a começar pela estrutura geomorfológica. Enquanto a maioria dos rios corre do nascente ao poente ou do nascente ao ponto neutro, ele nasce no oeste, faz uma angulação e corre a leste. Ou seja, do oeste para o leste. Faz o fluxo contrário.”

Aguiar ressalta que pouca gente sabe que uma das mais antigas usinas hidroelétricas do Brasil, no município de Macatuba, tem energia gerada por este manancial. “Ela está funcionando. A maioria das pessoas não sabe que o Rio Lençóis gera energia elétrica. São detalhes sobre o rio que eu reúno em uma coletânea de estudos técnicos. Achei interessante porque há muita gente estudando o meio ambiente, e com o livro terão informações importantes”, observa Aguiar.

O Rio Lençóis nasce na serra de Agudos, numa área acima do Seminário Santo Antônio. Ali ele recebe o nome de Taperão por conta de uma briga política. “Antigamente, a divisa de terras era feita pelos rios. Havia uma disputa entre Agudos e Lençóis pela sede da comarca. Os agudenses ameaçaram os lençoenses a desviar o curso do rio. Não conseguiram e resolveram trocar o nome do rio.”

A cerveja fabricada em Agudos é feita com água do Pilintra, um afluente do Rio Lençóis, outra curiosidade contida na pesquisa. Os ‘causos’ contados por antigos moradores, alguns bem fantasiosos, fazem parte da obra que deverá ser lançada ainda este ano.

O Córrego Taperão, o Córrego da Serrinha e o Ribeirão da Anta, segundo o trabalho, são os afluentes do Rio Lençóis. O Taperão, também chamado de água do Taperão, é um pequeno curso de água formado pelo arroio São Pedro (extinto) e a própria nascente localizada na chácara Primavera, no município de Agudos. Seu nome foi uma referência a um velho casarão de madeira nas proximidades do atual Seminário Santo Antônio.

O córrego da Serrinha também está no município de Agudos. Foi a antiga divisa de Lençóis e Agudos. Atualmente, divide Borebi de Agudos. O nome é uma alusão à fazenda serrinha, onde estão as duas nascentes, projetadas no alto da uma pequena serra localizada parte em Borebi e outra parte em Agudos.

O Ribeirão da Anta é formado pela junção do córrego do coronel leite e o São José. O nome teria originado da incidência de antas ás margens do rio que originalmente era chamado de água da anta. Ele tem uma das nascentes nas proximidades da fazenda Noiva da Colina, que até hoje mantém causos assombrosos.

 

Afluente fornece água para cerveja

Quem gosta de cerveja encorpada/suave procura as bebidas fabricadas em Agudos pela Ambev. O segredo é a água captada no mesmo sistema aquífero do rio Pilintra, um afluente do Rio Lençóis. 

 

A história comprova que, entre 1951 e 1953, empresários austríacos buscavam terras brasileiras que tivessem mananciais de águas com características que permitissem a fabricação de uma cerveja idêntica à que se fazia na Áustria, uma vez que as características da água são fundamentais no processo de fabricação da bebida.

 

“Dois austríacos desembarcaram na região na busca por uma água de qualidade. Eles queriam fabricar no Brasil uma cerveja que fosse parecida com a austríaca, e para isso precisavam de água. A cerveja para ser boa tem que ter água boa. Não adianta ter uma estrutura operacional boa se a água não tiver qualidade”, explica Sidney Aguiar.

 

Para facilitar a produção, as cervejarias da época optavam por instalar seu parque industrial próximo aos mananciais, e foi em Agudos que eles encontraram um manancial que reproduzia da melhor forma as características europeias. Assim nascia a Cervejaria Vienense, uma referência a Viena, capital austríaca onde eram fabricadas as melhores cervejas do mundo. 

 

 

 

Captação subterrânea

 

No início, a fábrica captava a água superficialmente. “Eles começaram a fazer captação superficial da água do Pilintra. Depois, quando a Brahma comprou a Vienense, a captação passou a ser subterrânea, mas o sistema aquífero do qual se faz a cerveja é o mesmo da água do Pilintra. Esse é o grande segredo da cerveja de Agudos, o diferencial dela.” 

 

As qualidades físico-químicas da água do Pilintra fizeram os austríacos se renderem. “Eles fizeram inúmeros testes e constataram a qualidade da água. Na época, o Rio Lençóis recebia dejetos orgânicos de Borebi e parte de Agudos e tinha poucos afluentes com condições de captação”, ressalta o especialista.

 

Atualmente, a região do Córrego do Pilintra é protegida por vegetação nativa e por grandes extensões de florestas comerciais. O manancial é o mais protegido de todo o sistema hidrográfico do Rio Lençóis. 

 

 

Uma das primeiras hidrelétricas

 

O leito do Rio Lençóis foi escolhido para abrigar uma das primeiras usinas hidrelétricas do Brasil. A usina entrou em operação em 1917 pela extinta Empresa Força e Luz de São Manuel com o objetivo de mandar seu fator elétrico às cidades de São Manoel do Paraíso e posteriormente a Bauru.

 

Segundo um morador antigo de São Manuel que trabalhou na empresa, a usina deveria ser construída na parte mais baixa do Ribeirão Paraíso, e não no Rio Lençóis. Ela foi construída há alguns quilômetros abaixo devido à sua angulação, que segundo os estudos da época, não comportaria a barragem. Dessa forma, o local escolhido para a construção foi na atual localização, aproveitando as águas do Rio Lençóis.

 

Em 1917, a usina Guaianás (que pertencia à extinta Empresa de Eletricidade de Bauru) foi destruída por uma enchente. A empresa bauruense passou então a comprar energia da Empresa Força e Luz de São Manoel, pertencente à CPFL, que gerava eletricidade na nova usina do Rio Lençóis, com potência instalada de 1.700 kW. 

 

Conforme consta em umas das cláusulas de uso em nome da Empresa Força e Luz de São Manoel, ela teria um contrato de 20 anos com o município de São Manoel do Paraíso para fornecimento de energia elétrica.

 

 

Os causos do Rio Lençóis 

 

As histórias contadas na coletânea do documentário Rio Lençóis de Ponta a Ponta, segundo o autor do estudo Sidney Aguiar, foram colhidas junto a antigos moradores de Lençóis, Agudos e Borebi. Pessoas que viveram a história e ainda estão vivas para contar. Informações que foram passadas de pai para filho, quase uma lenda. 

 

Um dos ‘causos’ bastante comentados pelos pescadores do arroio que deságua no Rio Lençóis é de uma entidade que costumava aparecer nos finais de tarde em vários pontos. O suposto ser ectoplásmico tinha um sinal, o forte cheiro de fumo que os pescadores sentiam quando ele chegava. 

 

Dizem os antigos moradores que, após sentirem esse cheiro, sentiam a presença do “ser”, que se sentava ao lado dos pescadores. Embora pareça história de pescador, os antigos garantem que era verdade.  

 

Outro ‘causo’ de outro mundo, contado no livro e colhido junto aos moradores do caminho do Rio Lençóis, é do lobisomem de Borebi. Dizem que ele era um senhor simpático considerado um bom caçador que se transformava em lobisomem nas noites do sexto dia da semana. 

 

A lenda da noiva da colina é outro ‘causo’ narrado no livro. Segundo contam os moradores mais antigos da região, essa moça teria sido morta nas proximidades do córrego por ciúmes do noivo. De tempos em tempos, ela aparecia no local vestida de noiva à procura de seu assassino. 

 

O fato foi descrito por diversos caminhoneiros. As aparições aconteciam sempre à noite. O fantasma em forma de noiva teria sido visto, esporadicamente, na estrada bem próxima ao córrego do coronel Leite. Ela transitava dali até a porteira de acesso à fazenda Noiva da Colina. 

 

 

O caminho feito pelas águas do rio

 

O rio que corre em sentido contrário foi batizado de Rio Lençóis por conta de uma espuma branca parecida com lençóis brancos que se formava sobre as águas, diz o documentário de Sidney Aguiar. “Antes do represamento do Rio Tietê para a construção de usinas hidroelétricas, a foz do Rio Lençóis apresentava um desnível em relação ao Tietê. Esse desnível gerava correntezas que favoreciam a formação de espumas parecidas com lençóis brancos. Quem passava pelo Tietê e olhava a margem esquerda dizia: ‘olha as águas que parecem lençóis’”.  

 

O Sistema Hidrográfico do Rio Lençóis está localizado no interior do Estado de São Paulo e distribuído por sete municípios da região centro-oeste paulista: Agudos Areiópolis, Borebi, Lençóis Paulista, Macatuba, São Manuel e Igaraçu do Tietê. Sua base geológica está posicionada entre a Cuesta de Botucatu, a Serra da Jacutinga e o vale do Paranapanema. Seus principais divisores de bacia são a do Tietê, Batalha, Paranapanema e Tietê- Capivara. 

 

Segundo Aguiar, o Rio Lençóis é a principal fonte de captação de águas para tratamento convencional da cidade de Lençóis Paulista, abastecendo cerca de 60% de sua população. As informações foram fornecidas pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) de Lençóis. 

 

A área onde estão localizados os olhos d’água que formam o arroio de onde se origina o Rio Lençóis está no município de Agudos. Sua foz fica em Igaraçu do Tietê.

 

 

Manancial motivou conflitos de terras 

 

Todas as cidades que compõem a bacia hidrográfica do Rio Lençóis têm suas histórias entrelaçadas. “O Rio Lençóis era muito utilizado pelos desbravadores sertanistas que colonizaram o interior paulista. As disputas políticas entre Agudos e Lençóis Paulista deixaram fatos marcantes na história do rio. A briga entre as duas cidades garantiu a mudança do nome do rio na parte que pertence a Agudos, ondechama-se córrego do Taperão. O rio nasce na Serra da Jacutinga, nas proximidades do município de Borebi,”, detalha Sidney Aguiar.

O estudo feito pelo especialista em sustentabilidade corporativa fala um pouco sobre cada munícipio por onde o Rio Lençóis passa.

Três nomes são de grande importância para a história de Agudos, segundo ele. “Faustino Ribeiro da Silva, Cel. Delfino Alexandrino de Oliveira Machado e Benedicto Ottoni de Almeida Cardia. O coronel Delfino foi líder que se dedicou para que Agudos se firmasse como uma cidade próspera. O nome da cidade teria surgido a partir do padroeiro São Paulo e por estar na serra dos Agudos.”

O coronel teria encabeçado uma representação ao Presidente do Estado para que Agudos conquistasse a comarca. Promulgada pela Lei 635, de 22 de julho de 1899, que “transfere para a vala de São Paulo dos Agudos” a sede da Comarca de Lençóis.

O patrimônio de Santa Maria de Borebi nasceu em 1898. A ocupação foi de famílias de imigrantes italianos, espanhóis, portugueses e sírios. Na localidade se produzia um café de 1ª qualidade. Os colonos tinham direito de plantar cereais entre as ruas de café e, assim, produzir milho e com o alimento sustentar galinhas e porcos. Além do café, havia pecuária de leite e corte. No ano de 1990 a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo criou o município, que passou a se chamar Borebi.

O povoado de Areiópolis surgiu de um aglomerado (Vila Areia Branca) na confluência de várias propriedades agrícolas que exploravam a cultura do café, na região compreendida entre os municípios de Lençóis Paulista, São Manoel e Igaraçu do Tietê. Em 1893 começou a formação da Vila de Areia Branca.

 

O início

Lençóis Paulista teve início em meados do século XIX, quando o sertanista mineiro José Teodoro de Souza fixou residência no local. Outra versão atribui a fundação a Francisco Alves Pereia.

Lençóis também tem “filhos” ilustres, como o ator Guilherme Leme, o historiador Alexandre Chitto e o mais ilustre de todos: o jornalista, romancista e ensaísta brasileiro Orígenes Lessa, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Lençóis é hoje considerada a Cidade do Livro, graças a Lessa.

Macatuba nasceu do povoado de Santo Antônio do Tanquinho, onde pequenos lavradores fixaram residência. O nome do povoado é uma homenagem ao santo de maior devoção dos primeiros habitantes e faz alusão aos vários tanques que existiam no povoado. A denominação Macatuba, de origem indígena, significa abundância de macás, uma espécie de palmeira nativa da região.

Igaraçu do Tietê, que em tupi-guarani significa Canoa Grande, nasceu com a colonização da margem do rio Tietê, em meados do século XIX. O município possui grande faixa hídrica pelos rios Tietê e Lençóis. O advento da cana-de-açúcar deu grande impulso à economia local.

São Manuel foi fundada em 1871. O povoamento do atual território da cidade deu-se antes de 1850, e suas terras eram, em geral, provenientes de posses registradas de acordo com a lei de 1850, havendo também algumas sesmarias.

 

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