Mateus Solano brilha como Félix. Fato. Mas, até compor o personagem no ponto certo, imagino eu, muito trabalho de equipe rolou ali. É uma cadeia de situações até que a luz individual ofusque a sala dos anônimos.
O talento que aparece não é o único por por dentro daquele enfático personagem. Muitas vezes, a construção toda começa com um burburinho nas ruas.
O autor ouve uma voz mais peculiar, guarda na memória o atípico registro, e isso é só o primeiro passo.
Temos a tendência a endeusar a quem gostamos, mas reis realmente não reinam sozinhos. Da inspiração das ruas nascem, no caso da TV e do cinema, as oficinas de interpretação. As horas e horas e horas de leitura do texto que inventa gente.
Tem, ainda, a escolha certeira do ator. A mão do diretor. E dá-lhe convivência diária em longas gravações. E mais texto, mais ensaio, mais empenho...
O Félix de Mateus Solano é contraditório, a contradição talvez seja a maior crítica ao autor de "Amor à Vida", Walcyr Carrasco, mas e daí? Há um talento interessante na tela, fruto também de capacidades terceiras.
Vale dar crédito aos capazes que pouco aparecem e que, no exemplo de um personagem, estão lá discretamente impregnados na essência dele.
Haverá sempre um solista em todos os ramos de atividade, mas que sequer será "ser" se outros tantos não atuarem, antes e durante, no ofício de sua modelagem.
Portanto, permita-se aplaudir e cuide bem do seu próprio talento: ele pode, em qualquer tempo, tornar-se decisivo no capítulo da vida de alguém.
O autor, João Pedro Feza, é editor executivo do JC