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Claudete mostra ofício da Defensoria Pública para solicitar a cessão da trabectedina |
Os cabelos curtos, ainda sem corte definido, denunciam a batalha travada pela vigilante Claudete Mércia Gonçalves. Em 2009, ela foi diagnosticada com câncer e, mesmo depois de duas cirurgias e mais de um ano e meio de quimioterapia, o tumor insiste em habitar seu corpo.
Diferentemente do que ocorre com a maioria dos pacientes, os cabelos crescidos de Claudete não são motivo de comemoração. O processo quimioterápico não surtiu o efeito esperado e, agora, aos 50 anos, a vigilante luta contra o tempo.
O novo tratamento indicado pelos médicos custa caro. Muito caro. Cada dose de três miligramas do medicamento importado trabectedina custa US$ 3,5 mil - aproximadamente R$ 8,2 mil. Somadas, as seis doses recomendadas para a primeira fase da ofensiva contra o câncer representariam gasto de quase R$ 50 mil.
Aposentada por invalidez, solteira e sem filhos que pudessem ajudá-la, Claudete não possui recursos para tanto. A esperança está em conseguir o medicamento gratuitamente, por intermédio do poder público. A vigilante ainda não conseguiu reunir todos os documentos necessários para protocolar o pedido, mas já teria sido advertida por uma funcionária da Farmácia de Alto Custo da Secretaria de Estado da Saúde: depois da solicitação, terá de aguardar até 50 dias para ter uma resposta.
“Infelizmente, não posso me dar ao luxo de esperar todo esse tempo. Eu preciso e quero viver. Só que, sozinha, sei que não vou conseguir. Sem tratamento, minha vida está em contagem regressiva”, diz. Os cabelos de Claudete continuam crescendo.
À espera
A vigilante sofre de um tipo de câncer que afeta o tecido adiposo, chamado lipossarcoma. A trabectedina seria o agente mais apropriado para combater este tipo de tumor depois do insucesso da utilização de outros procedimentos, como a quimioterapia, que a paciente concluiu em outubro do ano passado.
“A tomografia demonstrou que o tumor continua progredindo. A médica disse que o remédio consegue murchar essa ‘massa’ que está no meu abdômen. Só então, eu poderia ser submetida a uma terceira cirurgia para tentar salvar minha vida”, conta ela. O tratamento inicial consistiria na aplicação de seis doses de trabectedina, em intervalos de 21 dias.
Defensoria
No entanto, já se passou quase um mês desde que o medicamento foi prescrito. No dia 27 de dezembro, Claudete procurou a Defensoria Pública de Bauru, que emitiu um ofício para solicitar a cessão da trabectedina ao Estado e ao município. “Fui eu mesma que levei o documento até as secretarias municipal e estadual de Saúde. Mas, até o momento, nenhum deles deu qualquer resposta”, lamenta.
Ontem pela manhã, a vigilante procurou a Farmácia de Alto Custo da Secretaria de Estado para entregar um relatório médico sobre todo o seu histórico de luta contra o lipossarcoma, mas a falta da prescrição médica impediu que ela ingressasse com o pedido para ter acesso ao remédio de que precisa.
“E mesmo quando eu levar a receita, ainda vou ter de esperar 40 a 50 dias para a análise do caso. Enquanto isso, o tumor cresce no meu abdômen. Não sei se vou estar viva até lá”, teme.
Análise
Em nota, a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde informou que a trabectedina, por ser um medicamento importado e não possuir registro junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), não integra a lista de remédios definida pelo governo federal para distribuição via Sistema Único de Saúde (SUS).
Mas a pasta destaca que dispõe de um canal de solicitações administrativas de produtos não contemplados na lista, que são “avaliadas individualmente, conforme evidências científicas sobre a eficácia terapêutica” da droga.
Para ter acesso, o paciente deve formalizar o pedido por meio da apresentação de documentos, exames e laudos médicos que comprovem a necessidade da excepcionalidade de compra do medicamento. Embora tenha sido questionada pela reportagem, a secretaria não informou, contudo, o prazo estimado para que esse tipo de análise seja feito.
Avisada à tarde, a assessoria de imprensa da prefeitura deu retorno sobre o caso, mas não houve tempo para levantamento de informações ainda na quarta-feira, o que deve ocorrer hoje.
