Músico, aluno, filho, pesquisador, jornalista, namorado, mochileiro, aventureiro, e por aí vai (...). Impossível negar, a lista é longa. Do auge (?) dos meus 20 anos, essas foram algumas das identidades que assumi (ou que me foram atribuídas) durante um (ainda) curto período de existência físico-carnal-social em contato com meus semelhantes homens e suas culturas. Falo homens, pois seria impossível que essas identidades e suas simbologias fossem produzidas por qualquer outra espécie que não dominasse as palavras, o código de linguagem básico que nos diferencia dos demais animais. Mas esta não é a questão central deste texto. O ponto aqui é: por que atribuímos identidades a nós mesmos e aos outros? E qual é a relação dessas atribuições de identidade com as nossas ações e a cultura?
Antes de tudo, é importante delimitar que adotaremos uma concepção fenomenológica e intersubjetiva para o conceito de cultura, baseada nos estudos antropólogo Clifford Geertz. Geertz define a cultura como uma teia de significados, adotando uma visão weberiana e semiótica em sua abordagem, e mostra que a mesma pode aprisionar e se impor aos indivíduos, apesar de ser uma construção social produzida pelo homem. Isto significa, por exemplo, que eu posso estar aqui, escrevendo este texto, como aluno de jornalismo, e assumindo, portanto, a identidade de estudante que prestou o vestibular e foi convocado, no final de 2010. Resta saber se, há cerca de três anos essa era realmente a minha vontade. Ou minha escolha foi produto de uma cultura em que pais, amigos e familiares, nas classes médias, exigem de seus filhos um diploma universitário? E se minha vontade fosse ter uma banda de rock - ou permanecer no ócio, como um dos muitos herdeiros do professor Cláudio Bertolli Filho, da Unesp/Bauru?
Provavelmente, adotar essas identidades seria como escolher os caminhos "errados" para a vida, de acordo com alguns integrantes de meu grupo cultural. Mas e se, de fato, eu tivesse talento para a música? Ou se o ócio fosse valorizado, como na Grécia Antiga? Essas escolhas, possivelmente, seriam vistas com bons olhos. O quadro se inverteria. E é aqui que entra a concepção relacional situacional de identidade cultural, defendida pelo antropólogo Frederik Barth, na tentativa de explicar por que atribuímos identidades a nós mesmos e aos outros. Para ele, como bem mostrou Denys Cuchê, a nossa identidade é variável e adaptável, e se modifica de acordo com os conceitos culturais e as situações cotidianas às quais nos inserimos, se construindo e se reconstruindo, a partir de nossas relações sociais e dos sistemas simbólicos que as representam.
O fato é que, em determinados momentos, somos alunos; em outros, filhos; em outros, filhos e alunos. E, deste modo, estamos sempre agindo e moldando nossas (múltiplas) identidades aos parâmetros culturais vigentes, seja para nos diferenciar dos sujeitos da cultura em que vivemos, ou para nos afirmar como atores dessa cultura. A propósito, e para concluir, me identifico como um postulante a jornalista, que ama a música, e odeia o ócio. Mas como será que os outros me identificam? Fica para um próximo texto.
Gabriel Cortez, 20 anos, estudante de jornalismo e pesquisador em comunicação