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Entrevista da semana: Marcelo Torres

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Arquivo Pessoal

Jornalista formado em Bauru fala sobre os desafios da profissão e do orgulho de ter trabalhado em vários países, revoluções e guerras

Um mineirinho nascido e criado em uma cidadezinha ao pé da serra (Andradas), cuja infância foi marcada pelo contato com a natureza e a liberdade das brincadeiras de rua. Ele cresceu, sonhou com o jornalismo e deus os primeiros passos rumo à carreira em Bauru, onde fez faculdade e deu início a um currículo que soma reportagens nos quatro cantos do mundo. A Entrevista da Semana de hoje conta algumas das histórias do jornalista Marcelo Torres, âncora interino do Jornal do SBT.

Entre as grandes reportagens por ele feitas, somam-se três guerras, a Primavera Árabe (onda revolucionária de manifestações e protestos no Oriente Médio), a ida do astronauta brasileiro Marcos Pontes ao espaço, duas Copas do Mundo, duas Olimpíadas...

“Tem muita coisa bacana na minha carreira, mas eu me orgulho muito de ter feito a cobertura da revolução no Egito. Foi um trabalho muito desafiador. Estávamos eu e o cinegrafista Azul Serra, e não tínhamos permissão para entrar no país... Conseguimos mostrar o que outras emissoras grandes não conseguiram. Gravamos no meio do povo, de maneira responsável. Entrevistei pessoas que estavam sofrendo muito, que estavam sendo agredidas. Esse trabalho me deu uma sensação de dever cumprido”, cita como exemplo.  Leia mais, a seguir.


Jornal da Cidade - Quais são as lembranças da infância deste mineirinho?

Marcelo Torres - O que mais marcou a minha infância foi o contato com a natureza. Eu sou de uma cidadezinha que fica bem no pé de uma serra, Andradas, e lá tem muitas montanhas, cachoeiras... Sou o caçula de cinco irmãos e me lembro deles me levando para fazer trilhas no meio das serras, indo para as cachoeiras... Brinquei muito na rua, ficava até tarde da noite brincando.

JC - E quando você saiu daquele paraíso ao pé da serra?

Marcelo - Eu saí da minha cidade aos 17 anos de idade por causa do jornalismo. E escolhi Bauru, onde morei durante seis anos. Fiz faculdade na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e as lembranças que eu tenho são as melhores possíveis. Eu passei alguns dos melhores anos da minha vida em Bauru, anos muito interessantes da minha juventude. Foi uma época de descobertas. Eu era um menino muito tímido e ingênuo quando saí de Andradas e, para mim, Bauru era uma cidade grande. O engraçado é que eu não conhecia a cidade. Prestei o vestibular da Unesp em Campinas, que é mais próxima da minha cidade, e fui para Bauru apenas fazer a matrícula, não conheci nada, e voltei para minha casa. Depois de um mês retornei e não tinha nem lugar para ficar.

JC - Foi uma adaptação difícil?

Marcelo - Quando cheguei, eu estava doente, cansado de andar, o dia estava muito chuvoso e a cidade, alagada. Para piorar, as pensões estavam lotadas, e eu com a minha vida nas costas. Por sorte, encontrei a Ana Paula, uma menina que eu havia conhecido no dia da matrícula. Ela me convidou para passar uns dias em sua república, na rua Rio Branco. Fiquei uns três dias e encontrei outra república. O primeiro dia foi traumático, mas depois foi tudo muito gostoso. Fiz muitas amizades. Adorava a faculdade, que era o meu sonho. E Bauru é uma cidade muito acolhedora. Eu encontrei tudo o que não tinha em Andradas. Encontrei e descobri muitas coisas. Em Bauru, tornei-me adulto e iniciei a minha carreira.

JC - Como foi esse início?

Marcelo - Quando eu era bem jovem, eu sonhava em ser ator e cantor. Só que eram sonhos de criança. Fui crescendo e pensando em publicidade, até que uma professora de português, da qual eu gostava muito, fez elogios ao meu texto e me falou sobre o jornalismo. Amadureci a ideia, prestei o vestibular da Unesp, o único da minha vida, e aqui estou. Comecei como estagiário na Editora Alto Astral e lá aprendi a cuidar muito bem do texto. Aprimorei como nunca a minha escrita e acabei ficando viciado nisso, o que me ajuda até hoje. Trabalhei também no Jornal da Cidade, onde aprendi a ser repórter e tive a base da reportagem. Foi uma grande escola e a minha maior experiência com o jornalismo impresso. Tirei férias do JC e fui cobrir férias na Rede Globo Oeste Paulista, hoje TV Tem, que também foi outra escola. Lá eu gravei a minha primeira passagem e aprendi o “beabá” da televisão. 

JC - De Bauru para o mundo...

Marcelo - Fiquei na Rede Globo Oeste Paulista por aproximadamente um ano, até que recebi um convite para trabalhar na Rede Globo Aliança Paulista, em Sorocaba. Em 2000, fui para a Rede Globo Minas, em Belo Horizonte. Em Sorocaba, eu tinha virado repórter do Jornal Nacional e assim permaneci em BH. De lá eu fui para a Inglaterra. Ganhei uma bolsa do Conselho Britânico e fiz mestrado em jornalismo internacional, em Londres. Enquanto eu estudava, eu passei em um concurso de freelancer da BBC e comecei a trabalhar no serviço mundial da empresa. Acabou meu mestrado e eu voltei para a Globo, fiquei por mais um ano e prestei um outro concurso da BBC, dessa vez para uma vaga fixa. Fui para Londres de vez, em 2004, e fiquei mais um ano na BBC fazendo rádio e internet, além de ter ajudado a implantar um projeto de TV na BBC Brasil, em parceria com a Band. E quando estava perto da estreia, fui convidado para ser correspondente internacional do SBT, e isso era o meu sonho.      

 

JC - Quais foram as suas principais reportagens pelo mundo?

Marcelo - No SBT eu tive a oportunidade de realizar muitos sonhos como repórter. Eu cobri três guerras, além da Primavera Árabe (eu participei de momentos cruciais no Egito, Líbia), mas antes eu já tinha ido para o Iraque, Afeganistão... Cobri muitas viagens presidenciais. Um trabalho muito curioso foi a cobertura da ida do astronauta brasileiro ao espaço. Em Bauru, eu fiz a matéria pelo JC da escolha dele para essa jornada. Entrevistei a família de Marcos Pontes e jamais imaginei que iria ver o lançamento do foguete, no Cazaquistão. Foi uma emoção muito grande. Acabei conversando com ele quando este estava no espaço. Enfim, no SBT fiz grandes coberturas: duas Copas do Mundo, duas Olimpíadas e fui para os quatro cantos do mundo. Trabalhei no Polo Norte, Ásia, África, Europa toda, Estados Unidos e América do Sul...

JC - Hoje você é âncora do principal telejornal do SBT.

Marcelo - Agora estou em outra fase da minha carreira. Voltei para o Brasil em setembro de 2011 e estou tendo a oportunidade de começar a apresentar telejornais. Sou âncora interino do Jornal do SBT (estou cobrindo a ausência do Carlos Nascimento, que está em tratamento de saúde) e faço todo sábado o SBT Brasil. Está sendo muito bacana. Um aprendizado muito grande.            

JC - É um jornalista realizado?

Marcelo - O repórter que diz já ter feito tudo pode se aposentar. A gente sempre tem sonhos a realizar, mas eu acho que realizei muitas das coisas que me motivaram a sair de Minas para estudar em Bauru, porém, ainda há muito a ser conquistado. 

JC - Qual é a reportagem que mais te dá orgulho?

Marcelo - Tem muita coisa bacana na minha carreira, mas eu me orgulho muito de ter feito a cobertura da revolução no Egito. Foi um trabalho muito desafiador. Estávamos eu e o cinegrafista Azul Serra, e não tínhamos permissão para entrar no Egito. Estivemos lá nos dias mais turbulentos e sabíamos que alguns jornalistas estavam sendo agredidos. Entramos como turistas. Ele disse que era músico, o que é verdade porque toca saxofone. E eu disse que era escritor, o que também é verdade. Mas férias no meio da revolução? Indagaram. Fiz um discurso exaltando o país e conseguimos entrar com uma câmera portátil HD. Gravei o áudio no celular e a cobertura ficou muito boa mesmo. Pelo fato do nosso equipamento ser tão insuspeito, conseguimos mostrar o que outras emissoras grandes não conseguiram. Gravamos no meio do povo, de maneira responsável. Entrevistei pessoas que estavam sofrendo muito, que estavam sendo agredidas. Esse trabalho me deu uma sensação de dever cumprido.    

JC - Você disse que também é escritor. Vem lançamento por aí?

Marcelo - Eu já até escrevi um livro falando sobre minhas viagens internacionais como jornalista. Conto sobre o Irã, Iraque... Ainda estou procurando uma editora. Além disso, eu gosto de escrever ficção e estou escrevendo um livro infanto-juvenil que espero acabar ainda este ano. Não tenho muito tempo livre, mas o pouco que sobra eu tento aproveitar escrevendo (risos). O jornalismo exige muita doação, muita entrega, mas é uma grande oportunidade que temos de contar histórias. Isso é um grande privilégio, ser testemunha da história, seja da sua cidade, país ou mundo. Isso me motiva e, apesar de todas as dificuldades, faz com que eu tenha muito entusiasmo com a profissão.


Perfil

Nome: Marcelo Torres

Idade: 38 anos

Cidade: Andradas/Minas Gerais

Livro de cabeceira: “Um longo caminho para a liberdade”, autobiografia de Nelson Mandela

Filme preferido: Todos do Almodóvar

Estilo musical predileto: Rock, pop, MPB 

Time: Santos

Para quem dá nota 10: Para a humildade

Para quem dá nota 0: Para a falta de humildade

E-mail: twitter.com/o_marcelotorres

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