Eles atuam em dupla, conhecem muito bem a dinâmica do trânsito na região central e, por lá, fazem valer uma regra de camaradagem que protege camelôs e frequentadores do comércio. Os agentes do Grupo de Operações do Trânsito (GOT) de Bauru não aplicam o talonário de multas e nem as regras de uso do estacionamento rotativo de forma isonômica. Ao contrário, fazem “vista grossa” para infratores contumazes do escasso espaço destinado a permitir vagas no comércio central.
|
João Rosan |
|
Centro é palco de ‘camaradagem’ |
Para confirmar que na região central de Bauru os azuizinhos são camaradas com “amigos” frequentadores é fácil. A “proteção” ao arrepio da lei acontece em mais de um setor. O quadrilátero formado a partir do eixo paralelo à avenida Rodrigues Alves, três quadras acima e três abaixo, concentra o maior foco de prevaricação.
Sob sol e chuva, os azuizinhos enfrentam obstáculos iniciais em sua atuação, sendo a extensão da área, a grande concentração de veículos e, na contramão, o reduzido número de fiscais. Na década passada, a presença efetiva da Polícia Militar tornava a operação no trânsito central mais eficiente. Mas o fim do pró-labore no convênio com a prefeitura coincidiu com a redução da presença de soldados nas ruas ao redor do Calçadão.
Entretanto, o contexto não justifica a omissão e negligência, onde a caneta rabisca fácil o talonário de multas para alguns enquanto, ao lado, “protegidos” assistem também sem respeitar a legislação.
A camaradagem está espalhada por vários cantos da região da Rodrigues. Por isso, a reportagem escolheu apenas alguns casos. Entre os protegidos, estão carros que ocupam as laterais da praça Dom Pedro sem uso de cartão, integrantes do comércio que permanecem com veículos em frente durante todo o dia e diversos ambulantes que tomam conta de vagas como se suas fossem.
A apropriação particular do espaço público, contrariando a regra de rotatividade, é rotina em várias quadras. A reportagem permaneceu três dias anotando horários, placas e cartões da área de estacionamento rotativo e, somente na última sexta-feira, acionou os agentes de trânsito para argumentar em relação ao não cumprimento da lei.
A dupla reconheceu abusos, mas apontou algumas justificativas: grande extensão da área de cobertura para poucos fiscais e combinação de troca de cartões por integrantes do comércio formal e informal quando há abordagem, dificultando a aplicação de multas.
O JC listou placas, acompanhou rotinas e insistiu junto a dois agentes da necessidade de cumprimento irrestrito da lei. Após muita insistência, três veículos de trabalhadores informais foram convidados a deixar a vaga, apenas no final da última sexta-feira, sendo na rua Azarias Leite e na Virgílio Malta, uma quadra após a Rodrigues Alves. “Você vai ver, eles vão trocar o cartão após uma hora quando a gente chega no local. Todo dia é assim”, argumentou um agente na sexta-feira, às 15h05.
De fato, nos dias anteriores, os agentes passaram várias vezes pelos costumeiros endereços sem sequer verificar cartões e horários. Já a “troca de cartões”, alegada pelos fiscais, não justifica. A regra exige que os veículos deixem o local exatamente para permitir a rotatividade do sistema. Mas camelôs, funcionários e integrantes do comércio ficam o dia inteiro parados.
As testemunhas são várias. No ponto de táxi, Pedro Eugênio é um entre vários espectadores diários da conduta. “É todo dia assim. Os que têm trailer encostam junto o carro e ficam o dia inteiro. Basta pegar essas placas e ver quantas vezes foram multados no ano?”, conta o trabalhador que atua há anos na Azarias Leite.
Gilberto Pereira é um dos poucos permissionários que usam trailer sem veículo. “Eu nem coloco veículo e fiz questão de instalar o trailer no tamanho da vaga. Mas infelizmente muitos usam a vaga o dia todo e com carro junto, tomam conta do lugar”, reforça. Na mesma quadra onde ele está instalado, na Virgílio Malta, uma Zafira e uma Kombi, todo dia, ficam o dia todo ocupando vaga do estacionamento rotativo. Na Azarias, perto do ponto de táxi, uma Kombi amarela chega a usar o veículo como suporte de barraca, amarrando lona que cria obstáculo na calçada. Junto a ele, uma picape e uma perua tomam, juntos, seis vagas, todos os dias.
Enquanto isso, nas quadras um pouco mais afastadas, comerciantes usam a própria vaga em frente a lojas como espaço particular.
No olho da rua
A gerência de trânsito da Emdurb espera ter controle sobre a ação dos azuizinhos com a adoção do cartão eletrônico. “Nós teremos o georeferenciamento de cada fiscal e, com isso, teremos condições efetivas de ver o percurso realizado por cada um no tempo e cruzar com as autuações. Acreditamos que os problemas com uso irregular de vagas no Centro será coibido. Hoje nós cobramos e eles alegam que o usuário troca o cartão. Mas a vaga é rotativa. Após uma hora na área verde, o veículo tem de deixar o local para outro. O sistema informatizado vai eliminar isso”, diz Gustavo Cardoso.
Mas os cidadãos querem mais. Usuários cobram escalas de agentes em horários de pico e revezamento nos principais gargalos da cidade, como a manhã em locais como a área próxima da linha férrea na Comendador da Silva Martha, a passagem na baixada da Duque na região do cruzamento com a avenida Castelo Branco, os intervalos após as 18h na própria Duque de Caxias e viaduto Antonio Eufrásio de Toledo, os fluxos de ida e volta em direção à região do Fórum e no viaduto da 13 de Maio, o afunilamento na Getúlio Vargas em direção à região dos Villagio e em focos de demanda específicas em pontos de grande fluxo comercial, como nos dois shoppings.
Escalas noturnas, reciclagem para formação de perfil de orientadores de trânsito em grupos distintos dos aplicadores de autuações, adoção de súmula com prazos estabelecidos para análise de defesa prévia, montagem de banco de dados estatístico analítico como ferramenta para análise dos pontos críticos e permanente e rápida intervenção de engenharia em obras viárias são algumas das reivindicações apresentadas para o setor de trânsito.
Supervisão dos agentes e aplicação de conduta administrativa, medidas reclamadas para coibir prevaricação e evitar represálias, como a que reclama um proprietário de veículos que operam como táxi. “Meu funcionário discutiu com um agente e foi ameaçado de que o carro seria multado. Foram nove multas aplicadas. Tenho rastreador para demonstrar que multas seguidas vieram por retaliação, porque o carro não estava nos locais mencionados”, aponta sob garantia de preservação do nome.
Leia também