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Pioneira da NOB completa 100 anos

Por Cinthia Milanez | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 3 min

Mesmo com dificuldades para andar e ouvir, Nair Salles deixou a equipe de reportagem do Jornal da Cidade bastante surpresa pela forma divertida que encara a vida. Vinda de Cajuru, Interior de São Paulo, filha de mãe professora e pai funcionário público, dona Nair chegou a Bauru em 1929, aos 15 anos, e aqui construiu a vida.

Da infância em Cajuru, a jovem senhora recorda-se apenas da boa relação que tinha com os pais e os nove irmãos. Com os olhos marejados, Nair diz ainda que era uma criança livre e cheia de energia, chegando até a roubar mangas da árvore do vizinho só para sentir aquele frio na barriga decorrente do desafio.

Chegando a Bauru junto à família, dona Nair estudou contabilidade no Colégio Guedes e, logo depois, foi aprovada no 1º concurso da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB). Não demorou muito para que essa jovem, ainda cheia de sonhos, se tornasse uma funcionária conceituada e fosse convidada para implantar novos departamentos da empresa no Rio de Janeiro.

Uma mulher independente, à frente de seu tempo, Nair afirma que nunca enfrentou preconceito de gênero no período em que trabalhou na Noroeste, por onde se aposentou em 1964. O profissionalismo, que impunha com bastante rigor, fez com que fosse respeitada até pelos mais machistas da empresa.

“Eu não fui a primeira mulher a trabalhar na Noroeste. Quando entrei lá, havia muitas outras. Nunca enfrentei preconceito algum, porque fazia o meu trabalho com bastante seriedade”, confessa.

Seriedade esta que tornou Nair personagem de livro. Em 2001, a historiadora Lídia Maria Vianna Possas lançou a obra intitulada ‘Mulheres, trens e trilhos’, que contou com o depoimento de uma das mais antigas funcionárias da empresa. Por conta disso, dona Nair recebeu uma placa de homenagem do então governador do Estado, Mário Covas, em 2002.

‘Não sou boba’

Simples, mas vaidosa até hoje, dona Nair conta que gostava de festas e, principalmente, de namorar. Embora muitos pretendentes tenham feito a grande proposta, ela nunca chegou ao altar nem teve filhos. Questionada sobre o motivo da escolha, Nair foi enfática: “Por quê? Porque eu não sou boba”.

Por outro lado, a família grande preencheu dona Nair por completo. Pedindo ajuda para a irmã caçula Nilza Salles Coelho, 81 anos, ela diz ter 34 sobrinhos, 59 sobrinhos-netos e 26 sobrinhos-bisnetos.

No passado, Nair cuidou dos oito sobrinhos, filhos de Nilza, com a rigidez e o carinho de uma verdadeira mãe. Hoje, são eles que dão assistência a ela, que vive junto à irmã caçula e mais três filhos de Nilza em uma aconchegante casa localizada na rua Saint Martin, no Jardim Aeroporto.

“Eles são tudo para mim. Quando tinham algum problema enquanto adolescentes, eles recorriam à mim, não à mãe deles. Eu sempre fui flexível e entendia muito bem os dilemas dos jovens, porque um dia eu fui jovem também”.


Um século

O dia 20 de janeiro de 2014 é particularmente especial para dona Nair. Não é todo dia que se completa 100 anos de vida, ou melhor, um século. É um feito para ficar na história.

Nair confessa que há quatro anos não aceita presente de aniversário. Familiares e amigos da igreja - dona Nair é católica atuante, como ela mesma reforça - levam 1 quilo de alimento não perecível, a ser doado para o Lar dos Desamparados de Bauru.

Embora debilitada, ela conta que adora ver a casa cheia de gente. Pelo visto, a comemoração do centenário vai encher os finos olhos dessa jovem senhora de uma alegria vibrante, como se já não transmitissem esse sentimento em qualquer outro dia.


Firme e Forte

Doenças decorrentes da idade avançada passaram longe de dona Nair. Claro, os olhos, as pernas e os ouvidos não funcionam tão bem quanto antes. Porém, ela permanece lúcida, recordando muitos detalhes que nem mesmo a irmã caçula conseguiu lembrar.

Desde 2001, Nair tem dificuldades para andar e sofre de artrose, condição que impede o movimento das mãos. No entanto, antes desta data, ela era bastante ativa, acompanhando formaturas e casamentos de parentes. Hoje, a centenária não sai mais de casa, mas permanece com a memória firme e forte.

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