Rolezinho, hoje, é uma das palavras mais pronunciadas no Brasil. É o diminutivo de rolê, que significa "encontro", "passeio". Rolezinho é o flashmob de pobre - a mobilização-relâmpago para fugir ao tédio da periferia feia e suja. A ideia é simples: nas redes sociais, jovens, geralmente negros funkeiros e favelados, combinam um encontro dentro de algum shopping na cidade, e, estando lá, eles passeiam em bando cantando suas músicas preferidas. O local escolhido para esse tipo de manifestação não poderia ter sido mais chocante: o shopping. Um lugar construído, justamente para manter os sem-dinheiro do lado de fora. Eles ousaram quebrar essa barreira e entrar. Querem se divertir fora dos limites do gueto. Esses jovens não sonham com acessos à geladeiras e TV de led. Isso já veio com a criação da nova classe "C", surgida com a ampliação de renda da Era Lula. Faltam as marcas de luxo, e as grifes internacionais que se pretendem exclusivas da elite, em geral branca.
A ideia do rolê não é nova. Existem variantes na literatura. Autores russos como Pushkin e Gogol construíram personagens inconformados com a hegemonia da elite czarista na Av. Nevsky, magnífico espaço público de Petersburgo, cidade projetada para ser a vitrina de modernidade da Rússia. Dostoievsky descreve "o homem do subterrâneo" - o cidadão sem cidadania que de repente brota da periferia. A sua imaginação suscita desejos de participar da vida. O personagem não se conforma em ter que ceder caminho nas calçadas da Av. Nevsky, aos oficiais de cavalaria, aos hussardos, às senhoras de vestidos longos e aos membros enfarpelados da alta burocracia. Os "raznochintsy" eram os russos que não pertenciam à alta ou à baixa nobreza. Emergem dos seus esconderijos nos bairros pobres para afirmar seu direito à cidade; buscam a solidariedade de outros nas mesmas condições, para fazer da cidade, a sua cidade. São levados a inventar uma cultura política própria, num espaço onde a comunicação pode ocorrer. Tornou-se um meio para uma rede de novos significados, um teatro de operações para o eu; um testamento político endereçado a toda sociedade russa. Décadas depois os raznochintsy derrubariam os portões do Palácio de Inverno do czar, marcando o início da Revolução Russa, na mesma Petersburgo. O "homem do subterrâneo" de Dostoievsky decide caminhar pelo boulevard sem se desviar dos ricos. Os ricos que saiam do caminho. Dá de ombros com um oficial que é o dobro da sua estatura e peso. Leva a pior. O cara sequer sentiu o encontrão que quase desmonta o nosso herói. É o que pode acontecer com os que enfrentam quem tem a força incorporada pela própria condição social.
Lembro-me que nos anos 1970, os negros e pobres haviam invadido a Broadway, em Nova York. Justamente um dos espaços mais elitistas do mundo, num tempo em que ainda se ia ao teatro de vestido longo e smoking. Tomaram conta das ruas. O bando fez point sob seus letreiros luminosos. Trouxeram de casa estridentes toca-fitas de música punk, carregados nos ombros. Era uma mistura de sons com fumaça de maconha. Para acabar com isso o prefeito Giuliani primeiro instituiu uma política de lazer, cultura e esportes em todos os bairros. Depois criou o regime policial de "tolerância zero". Qualquer incitação à bagunça passou a ser punida com cana dura. A Times Square voltou a ser "a esquina do mundo", com toda segurança oferecida a milhões de turistas. O debate nacional que se faz hoje é sobre os limites do direito de manifestação, discriminação social e racial, luta de classes e repressão policial. Trata-se de um fenômeno novo apenas na forma, gerado pelo poder de mobilização das redes sociais. Guardam algumas semelhanças com os protestos de rua que surpreenderam o país em junho do ano passado. Da mesma forma, envolvem muitas pessoas pacíficas e bem-intencionadas, mas também oportunistas que se escondem na multidão para transgredir.
Muitos perguntam, "afinal, o que quer essa gente?" A indagação tem sentido porque esses jovens saídos do subterrâneo não fazem qualquer reivindicação expressa. Uma resposta foi dada pelo papa Francisco quando visitou uma favela no Rio: "Eles só querem o seu olhar". Conclusão parecida com a do cartunista de El País - no semáforo, o flanelinha aproxima-se do para-brisa fumê do carro de luxo. O motorista põe cabeça e braço para fora, grita e gesticula para que ele se afaste. O limpador explicou: "não quero dinheiro, quero apenas que me veja". Era o suficiente saber que existia.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista articulista do JC