Ciências

Teste da linguinha: querem soltar o freio!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Língua, doce língua, sempre reprimida ou contida. Dizem, algumas pessoas têm língua presa. Mas ela está sempre presa. Tal qual os condenados na justiça, a língua sempre está presa em regime fechado ou semiaberto: que injustiça!

Esta danada, a língua, deve ter aprontado muito em tempos remotos, pois foi condenada a ficar eternamente limitada em seus movimentos. Imagine se a língua fosse uma parte livre, solta e desimpedida, que tivesse vida própria a sair por aí em nosso corpo e nos demais! O mundo seria diferente do que é hoje, podem ter certeza. Nossa! Fica até difícil imaginar tal o grau de furor que o mundo sofreria, ou se beneficiaria, com a língua livre desta condenação!

Quando o indivíduo fala muito sem guardar segredos se diz: tem a língua solta! Mentira, ninguém tem língua solta, pode ter uma língua mais ousada, menos presa que os demais, mas solta não tem; se tivesse, faria o maior sucesso! Agora, chamar o cara de língua frouxa, aí vira ofensa pessoal. Ser chamado de língua frouxa, ninguém merece!

A língua está fixa na parte posterior da boca e entrada da faringe. A sua parte mais solta, os seus dois terços anteriores, sai mais ou menos para fora de acordo com a pessoa, mas me parece que tudo tem limites. Na superfície inferior conhecida como ventre lingual, temos uma prega, membrana ou feixe de tecido: eis o freio ou frênulo que ajuda a conter a mobilidade. Sem o freio haveria uma saída exuberante da língua e poderia se perder o controle, machucando-se pelo contato com os dentes. Algumas raras pessoas tem esta mobilidade lingual excessiva.

Outras pessoas nascem com a língua presa demais, o frênulo pode ser curto demais, muito espesso ou aderido ao soalho da boca e até mesmo à gengiva dos dentes anteriores. A língua presa ‘excessivamente’, pois presa todas são, chama-se anquiloglossia: anquilo = aderido ou atado e glosso = língua. Um certo percentual destas pessoas, nem todas, tem dificuldades em pronunciar palavras com “r” pois não conseguem colocar a ponta da língua para fora da boca ou no palato, falando se como o Cebolinha. Algumas pessoas, com a mesma dificuldade na fala, não tem língua presa, mas tem vícios de posicionamento lingual.

Multifunções

A língua faz parte das formas de amar. Um beijo e uma relação sexual sem língua devem ser muito estranhos. Ela também faz parte do nosso gestual de comunicação. Sem contar que a língua exerce um dos nossos cinco sentidos: o paladar ou gosto. Resumindo: vida sem língua deve ser muito chata, sem gosto e sensações. Antes de começar a falar e amar, desde o nascimento a língua exerce outras funções fundamentais como participar da deglutição e da mastigação. Nos recém-nascidos isto significa literalmente amamentação e capacidade de sucção que requerem uma intensa atividade da língua com um grau mínimo de mobilidade.

Alguns bebês nascem com o frênulo muito aderido à língua, ligando-a excessivamente com a ‘gengiva’ e soalho da boca, impedindo a mobilidade para succionar o leite materno. Sem succionar, o bebe mastiga os mamilos com o rebordo alveolar ou “gengiva sem os dentes” e lábios, podendo machucar. Assim se cansa, não se alimenta, não ganha peso e desiste de amamentar muito cedo, afetando-se o seu desenvolvimento.

Estas são as justificativas para a proposta de lei do ‘teste da linguinha’ que obriga o exame do frênulo lingual logo após o nascimento para evitar problemas na amamentação, no desenvolvimento da criança e posteriormente na fala.

Para os médicos pediatras, algumas questões precisam, no entanto, ser respondidas cientificamente antes que uma lei como esta seja criada: 1. Toda criança com língua presa efetivamente vai ter problemas na fala? 2. Quantas crianças sem língua presa têm os mesmos problemas na fala? 3. Seria a anquiloglossia uma causa significante dos problemas de amamentação ou as portadoras teriam o mesmo índice das crianças sem o problema?

No recém-nascido, um protocolo de avaliação bucal deveria ser atividade normal do profissional sem precisar de lei obrigando a fazê-lo, pois pode se ter fissuras, dentes precoces, cistos e tumores. Imagine uma lei para que a consulta médica não durasse menos que meia hora? Que se deveria fazer radiografias das raízes antes de tratar os dentes?

Pode ser mais interessante ensinar um protocolo aos médicos e cirurgiões dentistas na sua graduação e residência do que criar uma lei para obrigá-los a fazer.

Reflitamos!

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