A morte de um suposto traficante, Petrick Costa dos Santos, 21 anos, na noite de sexta-feira, provocou reação de moradores da favela do Cantagalo e levou a Polícia Militar a reforçar o policiamento em Ipanema, na zona sul do Rio. O tráfico tentou proibir comerciantes de abrirem as portas de seus estabelecimentos em uma espécie de luto forçado, comum nas comunidades cariocas.
Ontem, até o começo da tarde, homens do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) fizeram rondas pelo bairro, cartão-postal do Rio e destino preferencial de turistas na cidade. À tarde, PMs armados do 16º Batalhão de Polícia Militar fizeram a segurança da região.
Santos morreu baleado em confronto com policiais da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do Pavão-Pavãozinho/Cantagalo, destacamento de segurança responsável por zelar pela paz no conjunto de favelas que fica nos morros entre Ipanema e Copacabana. Segundo a polícia, Santos já possuía passagens por agressão, uso e posse de entorpecentes e resistência à prisão.
Ferido, o suposto criminoso chegou a ser socorrido no hospital Miguel Couto, na Gávea, mas não resistiu.
No sábado e na madrugada de ontem, supostos envolvidos com o tráfico visitaram os estabelecimentos comerciais das ruas Teixeira de Melo e Barão da Torre. “Eram alguns moleques, passaram aqui avisando para fechar no sábado, era cerca de duas da tarde”, afirmou o funcionário de uma mercearia da área que pede para não ser identificado.
Ele disse que trabalha no local há 22 anos e que, desde o começo da UPP, não via uma cena dessas. “Ele era importante (o suposto traficante morto)? Mas estamos acostumados com isso. Antes acontecia sempre”, afirma.
Em uma loja ao lado, o proprietário confirmou que o pedido de fechamento veio, mas foi ignorado pelos comerciantes. “Aqui é uma área muito importante para fechar. Mesmo com o incômodo, temos de manter aberto”, afirma o homem, apontando para a avenida Visconde de Pirajá, que fica a poucos metros, onde o preço dos imóveis comerciais costumeiramente fica entre os mais altos do país.
UPP em crise
A UPP do Pavão-Pavãozinho/Cantagalo foi inaugurada em dezembro de 2009 para atender a cerca de 10 mil pessoas. Era tratada como uma unidade relativamente fácil de conduzir pela Secretaria de Segurança, em comparação com regiões como o Complexo do Alemão, o Complexo da Maré, ou mesmo a Rocinha. No entanto, o processo de pacificação começou a sofrer abalos com denúncias de moradores que acusavam os policiais de abuso de poder. Em maio de 2012, o Ministério Público chegou a enviar representantes para ouvir as queixas.
A Folha de S.Paulo apurou que desde então as denúncias contra o tráfico foram reduzidas o que fez com que ele ganhasse força novamente. Em outubro de 2013 o comando da UPP fez um pedido ao batalhão de Copacabana para a cessão de dez fuzis. O reforço não foi suficiente: em 24 de outubro, traficantes chegaram a tomar uma parte do morro conhecida como Vietnã. Na ocasião, os policiais da unidade abandonaram seus postos e pediram asilo no batalhão da área, segundo relatos de policiais que não quiseram se identificar.
A assessoria das UPPs, porém, nega que o tráfico tenha domínio de uma área pacificada no alto da favela. A Secretaria de Segurança afirma, por meio de nota, que “todas as áreas dos morros Pavão-Pavãozinho e Cantagalo são patrulhadas diuturnamente por policiais”.