Bairros

Meninas no crime: 3 casos em 3 dias

Por Cinthia Milanez | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 5 min

João Rosan

Três casos policiais em três dias preocupam Fábio Delgado e Ieda de Souza, do Conselho Tutelar

Três casos de adolescentes envolvidas com atos infracionais foram registrados em apenas três dias, uma situação incomum no cotidiano policial em Bauru (leia mais abaixo).

“O principal problema gira em torno da deterioração da família”. É o que constata o delegado titular da Delegacia da Infância e Juventude (Diju) de Bauru, Roberval Fabbro.

De acordo com ele, os laços entre as jovens e os responsáveis estão cada vez mais distantes. Divórcios, casamentos, novos irmãos. Com isso, as adolescentes dão mais valor às amizades que fazem nas ruas do que às próprias famílias e acabam envolvidas com a criminalidade.

Para o delegado, a maioria dos casos registrados envolve brigas nas escolas ou ofensas em redes sociais. E, embora seja mais comum entre os meninos, ainda existem adolescentes do sexo feminino envolvidas em situações mais graves, como furto e consumo de drogas.

“Nesses casos mais graves, é feito um procedimento de ato infracional e ele é encaminhado ao Poder Judiciário, que propõe a aplicação de medidas socioeducativas. Elas variam desde uma simples advertência até a internação em estabelecimentos educacionais”, explica.

Com o objetivo de prevenir esse tipo de comportamento, os dois Conselhos Tutelares de Bauru entram em ação. “Nós trabalhamos no sentido de evitar que as jovens cometam atos infracionais, ouvindo e aconselhando as adolescentes e as famílias”, reforça a presidente de um dos Conselhos Tutelares, Ieda Maria de Souza.

Segundo Ieda, além de os laços familiares estarem cada vez mais distantes, a necessidade de as jovens chamarem atenção da sociedade e a evasão escolar são fatores que contribuem para que as adolescentes se envolvam com a criminalidade.

Para o presidente de outro Conselho Tutelar, Fabio Henrique Martinez Delgado, os órgãos agem no sentido de dar apoio às jovens e às famílias, reforçando o laço entre ambas e evitando que as adolescentes fiquem com tempo ocioso.

“Além dos projetos de inclusão social que desenvolvemos nos Centros de Referência em Assistência Social (Cras), com dança, músicas e esportes, nós fazemos palestras em escolas e para a comunidade. Com isso, conseguimos prevenir futuros atos infracionais cometidos por adolescentes”.


Os casos

O primeiro caso ocorreu por volta das 15h de quinta-feira da semana passada. Uma jovem de 20 anos e três adolescentes foram detidos acusados de furtar uma loja de roupas localizada em um condomínio comercial, na avenida Doutor Marcos de Paula Raphael, no Núcleo Mary Dota.

Um funcionário teria flagrado a ação do grupo, que fugiu em seguida. Os policiais militares patrulharam a área e encontraram os jovens, que acabaram detidos com os produtos da loja e levados à Central de Polícia Judiciária (CPJ) para prestarem depoimento.

Na delegacia, após confessarem o crime, a jovem de 20 anos recebeu voz de prisão em flagrante. Já os adolescentes – dois de 16 anos e uma com 14 anos – prestaram depoimento acompanhados dos responsáveis, que assinaram termo de responsabilidade com a Justiça.

Outro caso ocorreu na última sexta-feira, por volta das 22h, na quadra 11 da rua Primeiro de Agosto, no Centro. Três jovens fugiram assim que avistaram uma viatura policial se aproximando.

Eles foram abordados e, após busca pessoal, foi encontrado um invólucro plástico contendo maconha na bolsa de uma adolescente de 16 anos. Ela foi encaminhada à CPJ e, após a chegada da mãe, foi liberada mediante termo de compromisso e responsabilidade.

Por fim, o último caso foi registrado na última segunda-feira. Uma jovem de 16 anos foi pega furtando produtos de um mercado localizado na rua Campos Salles, na Vila Falcão, por volta das 15h.

Os seguranças da loja perceberam a atitude suspeita da menina e, quando ela se aproximava da porta, foi abordada e acabou confessando que havia pegado os produtos para consumo próprio. Ela foi encaminhada à CPJ, mas foi liberada após assinatura de termo de responsabilidade pela mãe.

  • Serviço

Os pais ou os responsáveis que estiverem enfrentando problemas com os adolescentes em casa podem pedir orientação para os dois Conselhos Tutelares de Bauru. Eles estão sediados junto à Secretaria Municipal do Bem Estar Social, que fica na quadra 1 da rua Alfredo Maia, s/n.

Os Conselhos Tutelares funcionam de segunda a sexta-feira, entre 8h e 18h. Mais informações podem ser obtidas pelos telefones (14) 3227-3339 ou (14) 3227-3499. Em casos de emergência, as famílias podem ligar para o celular (14) 98804-5530, que fica disponível 24 horas, incluindo sábados, domingos e feriados.


‘Eu quero a minha filha de volta’

Este é o desabafo de uma mãe desesperada. Preferindo não ser identificada, a mãe de uma adolescente de 16 anos – apreendida com maconha dentro da bolsa na última sexta-feira – diz que a menina sempre foi muito mimada e que nunca faltou nada para ela.

Porém, há um ano a jovem mudou. Começou a andar com amigos mais velhos, maiores de 18 anos, inclusive. Mesmo assim, a mãe afirma que nunca deixou de conversar com a filha e aconselhá-la sobre as decisões erradas que sua filha estava tomando.

“Nós sempre fomos muito amigas, eu sou costureira e ela até me ajudava quando o serviço apertava. Mas, há um ano, a minha menina mudou. Começou a andar com amigos mais velhos e parou de conversar comigo, com o padrasto e com os irmãos. Eu quero a minha filha de volta”, lamenta.

Como qualquer outra mãe, a costureira ainda não perdeu as esperanças. Conversou com a filha após o último incidente, que prometeu mudar. “Ela até mandou currículo para algumas empresas depois do que aconteceu. Você sabe, mãe que é mãe nunca desiste de um filho”.

Comentários

Comentários