Bairros

Chuva mais forte do mês causa alagamentos, estragos, sustos e caos em Bauru

Marcele Tonelli , Vítor Oshiro com Paola Patriarca
| Tempo de leitura: 14 min

Menos de duas horas de chuva bastaram para transformar a manhã de ontem em um verdadeiro caos para muitas famílias em Bauru. Num mês até então marcado pela seca, o temporal, que começou das 6h15 às 7h30 e seguiu com intervalos até as 9h, provocou uma onda de estragos por toda a cidade. Por pouco, não houve mortes.

 

Éder Azevedo

Rua Alfredo Maia ficou alagada com a chuva da manhã desta quinta-feira

A média histórica previa 290 milímetros de chuva para janeiro em Bauru, mas até ontem os registros do mês não superavam 80,3 milímetros – os 24,1 milímetros de precipitação ontem, no entanto, já foram suficientes para promover uma série de estragos.

 

Acidentes, carros e ônibus submersos, pessoas sendo resgatadas em meio ao rio que se formou nas avenidas Nações Unidas e Nuno de Assis, trem descarrilado, casa e veículo destruídos por raios, desabamentos, erosões, rios transbordados e alagamentos registrados em vários bairros. 

 

Só no Pousada da Esperança cinco famílias ficaram desalojadas, após suas residências serem invadidas por enxurrada e lama e terem as estruturas danificadas (leia mais na página 11). Ao todo, 15 pessoas foram levadas para hotéis sociais custeados pela Secretaria Municipal do Bem Estar Social. De acordo com a Defesa Civil, outras famílias também ficaram desabrigadas na favela São Manoel.

 

O fenômeno, apesar de esperado durante o verão, surpreendeu pela intensidade.

 

“O temporal veio da região oeste e não da sul e sudeste, como sempre acontece. A chuva começou na região do Geisel e passou por toda a cidade, danificando algumas vias públicas e residências. Era um cenário para ter morrido gente. O que aconteceu hoje aqui era para ter deixado entre 100 e 150 famílias desabrigadas”, avalia o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito.

 

Do sonho ao pesadelo

 

Era por volta das 6h30 quando Lucilene Sanches Gonçalves, de 38 anos, atualmente desempregada, viu seu sonho da casa própria se transformar em pesadelo.

 

Moradora da quadra 1 da rua Aviador Gomes Ribeiro, na Vila Santa Isabel, Lucilene acordou, literalmente, com os pés na lama. 

A casa em que ela mora com as filhas de 12 e 13 anos, financiada pela Caixa Econômica Federal há dois anos, estava tomada pela água da chuva e de um córrego que transbordou nas imediações da linha férrea. 

 

“Tive que colocar cobertores e móveis nas portas para conter a força da água. Foi um desespero. A água chegou a quase um metro. Perdi tudo, vários móveis e materiais de construção”, conta, chorando, a mulher.

 

“Eu não comprei um rio, comprei uma casa que vou continuar pagando pelos próximos 23 anos. Só queria viver com dignidade, afinal pago todos os meus impostos em dia. E ainda estou pagando a geladeira e os móveis que tive que comprar depois chuva no ano passado. Agora, perdi tudo outra vez, não sei o que vou fazer”, completa Lucilene.

 

A desempregada mostra uma solicitação indeferida pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) para implantação de bocas de lobo na rua em questão, que em março de 2013 também sofreu com alagamento.

 

Douglas Reis

Circular  e carro ficaram  submersos  próximo ao Terminal Rodoviário, em alagamento na Nações

Éder Azevedo

Cruzamento da rua Inconfidência com a rua Gustavo Maciel ficou alagado

Desesperador

Além de Lucilene, várias pessoas sofreram com alagamentos em diversas regiões da cidade. 

 

No Jardim Petrópolis, o técnico em informática Fabiano Gomes da Silva, de 31 anos, passou o dia todo em um mutirão com vizinhos limpando as residências da quadra 1 da rua Eurico Ayres Prado, que receberam a enxurrada de toda a parte alta do bairro.

 

“Tive que quebrar parte do muro para a água sair. Foi desesperador ver a água estragando a geladeira, os móveis, tapetes. Os bueiros dessa rua não suportam a água quando chove e já havíamos reclamado para a prefeitura. Mas eles vêm, só fazem a limpeza e vão embora”, reclama o morador. “Chega de sofrimento, vou mudar para um apartamento o quanto antes”, planeja.

 

No mesmo bairro, na quadra 3 da rua Joaquim Radicopa, a mesma sensação de desespero é descrita por Camila da Silva, de 33 anos, e Aliça Bruna Valotti, de 18 anos, mãe e filha.

 

Alguns cômodos da casa também foram invadidos pela enxurrada e por esgoto, por volta das 6h30, o que ocasionou a perda de todos os móveis, inclusive o colchão e o berço do quarto do pequeno João Pedro, de 2 anos.

 

“A boca-de-lobo da rua não comporta a água da chuva e também temos problemas constantes com o retorno de esgoto por aqui. Quero ver quem vai arcar com esse prejuízo agora”, critica Camila. 

Douglas Reis

Enxurrada atingiu residência no Pousada da Esperança e a parede desabou

Pousada da Esperança

O colchão que Felipe Augusto de Oliveira, 16 anos, ganhou há 30 dias estava ontem estirado no meio da rua. Ele foi levado pela água junto com todo o resto da casa do estudante, localizada na quadra 6 da rua Joaquim Gonçalves Soriano, na Pousada da Esperança. Pessimismo? “Pelo menos não morreu ninguém”, diz o jovem, que ajudou a salvar os outros sete familiares que estavam na casa quando a chuva começou.

 

O Pousada da Esperança foi um dos muitos bairros que colecionou histórias tristes na manhã de ontem. Mais do que palavras para descrever a situação era só olhar para os imóveis aparentando terem sido atingidos por uma bomba e para os tijolos, telhas, roupas e muitos eletrodomésticos jogados pela rua. A esperança que batiza o bairro, porém, ainda é vista nas ações dos moradores.

 

“Era umas 6h da manhã. Eu estava dormindo quando a água veio. Estava em um quarto com meus outros irmãos”, conta Felipe. Na casa, além dele, estavam os pais, de 36 e 35 anos, e os irmãos, de 18, 12, 8 e 2 anos. “Tinha ainda uma sobrinha minha, de apenas 8 meses”.

 

Quando a chuva chegou, Felipe conta que viu o muro da casa desabar. O mar de lama veio com toda a força. “Meu irmãozinho, de 12 anos, se escondeu embaixo da cama para o muro não cair nele”.

 

Felipe conta que o pai segurava uma das paredes para não cair enquanto ele e outros irmãos ajudavam a resgatar as crianças. Uma vizinha também veio ajudar. “Eu corri para tirar meu irmão debaixo da cama. Nisso, vi meu pai saindo do meio da água com a pequenininha, de 8 meses, no colo”. 

 

A família, que vive há 3 anos na casa, nunca tinha passado nada semelhante. Todos foram para a casa dos avós de Felipe. Os pais precisaram passar por atendimento médico. “Meu pai machucou as pernas. As pedras e madeiras que vinham com a água batiam nele. Minha mãe bateu a cabeça. Eles foram para o hospital, mas não é nada grave. Como eu disse, perdemos tudo, mas sorte que todos saímos vivos”, conclui o estudante.

 

Quebrou o muro

 

Na casa ao lado, mora Dulce Aparecida Costa, de 53 anos. “Estávamos no quarto, quando fomos surpreendidos pela enxurrada. A parede desabou e a casa ficou destelhada. Se não fosse meu marido, teríamos morrido. Destruiu tudo. Perdi todos os móveis. Trabalhei tanto e agora não tenho mais nada”, lamenta a mulher.

 

Porém, além do marido de dona Dulce, um vizinho foi fundamental para evitar a tragédia. O pedreiro Ademir da Silva Gonçalves, 38 anos, percebeu o volume de água e resolveu ajudar. “Eu moro na esquina. Minha mulher e eu vimos o tanto de água que estava descendo”.

 

Quando eles chegaram em frente à casa de dona Dulce, a cena era assustadora. A geladeira tinha sido arrastada e emperrou a saída. “Foi quando eu escutei eles gritando socorro”, conta o pedreiro.

 

Ao ver que a geladeira impedia a passagem, Ademir empurrou a parede, que, já fragilizada pela enxurrada, cedeu. “Também nunca tinha passado por algo assim. Tinha um monte de fios de energia. Nem pensei em nada. Sorte que conseguimos salvar o casal”, comemora.

 

E são Ademirs e Felipes que fazem o bairro ainda ter o nome de Esperança. Resta a eles, contudo, a esperança de que o poder público aja de forma efetiva para evitar que eles precisem ser heróis novamente.  

Douglas Reis

Móveis da moradora Dulce foram levados pela chuva e ficaram jogados na rua Joaquim Gonçalves Soriano

Douglas Reis

Carro pegou fogo após raio atingir residência

Tragédia há 3 anos

Apesar da grande chuva de ontem, os danos foram somente materiais. O cenário e as histórias de terror deixam claro que a cidade escapou de uma grande tragédia. Há 3 anos, porém, Rafael Zontini foi a vítima de um problema que há tempos se discute, mas não se resolve. 

 

A tragédia aconteceu no dia 30 de novembro de 2010, quando Rafael Franco Zontini, 24 anos, foi arrastado pela enxurrada por cinco quadras após abandonar um táxi e morreu afogado em frente à Praça do Líbano.

 

 

Novas Pancadas

 

De acordo com o Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), os bauruenses devem ficar em alerta com as precipitações nos próximos dias. É que o tempo está marcado por instabilidade e pode haver pancadas de chuva com a mesma intensidade de ontem.

 

“O tempo continua muito instável e há condições de ocorrer chuvas como a de hoje (ontem). Isso ocorre justamente por conta do calor e da umidade. A probabilidade de chover é de cerca de 70%, principalmente durante a tarde e a noite”, explica o meteorologista Fernando Tavares. 

 

A previsão é de que as temperaturas variem hoje entre 19 e 31 graus. “E esse tempo instável também deve ocorrer no fim de semana”.

 

Éder Azevedo

Chuva provocou erosão na rua Daniel Pacífico, próximo à favela São Manoel

Éder Azevedo

Um trem descarrilhou na Vila Pacífico, próximo à Vila Nova Esperança

Alerta da Defesa Civil

A chuva que quase provocou uma tragédia na manhã de ontem em Bauru não deve ser isolada. A Defesa Civil alerta que novas pancadas fortes como essa devem ocorrer até o início de abril. 

 

“Essa é a pior chuva que podemos ter. É aquela que vem rápida e muito concentrada. E podemos esperar que, até o fim de março e o começo de abril, teremos outras assim. Serão, pelo menos, mais umas cinco pancadas dessas”, aponta o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito. 

 

 

 

 

Desabamentos

 

A intensidade da chuva também foi suficiente para derrubar o muro de arrimo de uma casa na quadra 2 da rua Padre Anchieta. A estrutura danificou as paredes de tábua da casa da vizinha. 

 

Já na quadra 2 da rua Targino do Amaral, no Parque Sergipe, a força da enxurrada levou aprte do concreto do quintal de uma casa. A situação foi avaliada pela Defesa Civil, que orientou os moradores a deixarem a residência por conta de riscos de desabamento.

 

A Secretaria Municipal de Obras esteve no local e prometeu realizar reposição de terra para conter os riscos.

 

Raio atinge carro no Jardim TV

 

A chuva que provocou dezenas de estragos por toda a cidade também chocou alguns moradores do Jardim TV por conta de uma cena inusitada.

 

Um carro e parte de uma moto que estavam na garagem da residência, além de um dos cômodos da casa localizada na quadra 6 da rua Wakiti Adachi, ficaram completamente destruídos pelo fogo, após um raio atingir o veículo que estava estacionado.

 

No momento, o morador Bento Emanuel de Mello tomava banho aos fundos da casa e sentiu somente o estrondo. 

 

“Achei que fossem só trovão e raios. Quando percebi a fumaça na casa fui ver o que havia acontecido. Os vizinhos ficaram em pânico também. Só pensei em tirar meus filhos dali”, conta Emanuel.

 

O Corpo de Bombeiros foi acionado e conseguiu controlar o incêndio. Ninguém ficou ferido.

 

Segundo o JC apurou junto ao Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), os núcleos atmosféricos mais intensos, onde houve descargas elétricas, ficaram sobre os municípios de Piratininga, Bauru, Tabatinga e Santa Adélia. (MT)

 

Temporal deixa legião de ilhados

Por conta da chuva, muita gente ficou ilhada na avenida Nações Unidas próximo ao Teatro Municipal e também próximo ao Terminal Rodoviário, como a pedestre Sônia Rossi da Silva, de 56 anos.

"Eu desci do coletivo e não imaginava a proporção da chuva. Tive que ficar em cima de um banco por uma hora até a enxurrada diminuir e poder ir ao trabalho", conta.

A aposentada Claudinei Catalano Cicareli teve de deixar seu Honda Civic na região da avenida Nações Unidas para ser resgatada por um grupo de pessoas.

Na quadra 6 da rua José Baro, marginal da avenida Nações Norte, uma família ficou ilhada dentro da própria casa após uma tromba d’água atingir o local.

A moradora Aline Cristina de Souza, de 28 anos, sustenta que o problema aconteceu por conta da ineficiência das bocas-de-lobo existentes na alameda Flor do Amor, que deveriam conter o fluxo de água da parte alta do bairro.

“Na Nações Norte, entre as quadras 10 e 14, também não existe boca-de-lobo. Não tínhamos como sair de casa, na rua era só lama. Dois carros quase foram levados pela enxurrada enquanto passavam por lá”, comenta a moradora.

Na quadra 7 e no viaduto da avenida Duque de Caxias, carros ficaram ilhados. De acordo com a Polícia Militar (PM), um carro e um circular foram arrastados na avenida Nações Unidas esquina com a Nuno de Assis.

Na mesma via, no acesso ao bairro Mary Dota, um veículo com duas mulheres passou pela mesma situação. O rio Bauru chegou a transbordar.

Falcão

A rua Benevenuto Tiritan, próximo à linha férrea que corta a avenida Comendador José da Silva Martha, e a avenida Alfredo Maia, Vila Falcão, também registram alagamentos.

Ainda segundo a Polícia Militar (PM), o córrego próximo à rotatória que liga as regiões da Vila Falcão e Independência com a avenida Duque de Caxias teria transbordado.

O prédio do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) ficou sem energia elétrica e os trabalhos da perícia ficaram prejudicados. (PP)

Rodrigues Alves

Na quadra 11 da avenida Rodrigues Alves, foi registrada uma colisão entre carro e motocicleta. Ninguém ficou ferido. Na rua Daniel Pacífico, a enxurrada levou uma motocicleta. (PP)

Trem descarrilado

Na Vila Pacífico, próximo à Vila Nova Esperança, um trem descarrilou. Na quadra 16 da rua Alto Juruá, no Jardim Bela Vista, uma caçamba afundou e, na quadra 10 da rua Princesa Isabel, uma árvore caiu e interditou a rua.

Na quadra 7 da rua Chile, na Vila Independência, um carro perdeu o controle e invadiu uma residência. Apesar do susto, o motorista e moradores não ficaram feridos. (PP)

Queda de árvore

A chuva também provocou a queda de uma árvore de grande porte na quadra 10 da rua Princesa Isabel. Funcionários da prefeitura estiveram no local e o trecho precisou ser interditado por algumas horas.

Já na rua Benevenuto Tiritan, próximo à linha férrea, que corta a avenida Comendador José da Silva Martha, também foram registrados alagamento. (PP)

Ponte interditada

Na rua Daniel Pacífico, um rio transbordou e deixou a cabeceira da ponte que liga os bairros Bela Vista e Vila Falcão destruída. A Defesa Civil esteve no local e interditou o acesso à ponte, que deverá passar por obras.

Já na quadra 6 da rua Alto Juruá, o JC flagrou a erosão provocada pela chuva na calçada de uma casa. Ainda na mesma rua, uma caçamba chegou a afundar no asfalto.

Atendimento suspenso

Palco de inundações constantes, a avenida Alfredo Maia voltou a alagar com o temporal de ontem de manhã. Desta vez, contudo, atingiu a Secretaria do Bem Estar Social, que ficou com as salas alagadas e repletas de lama.

Por conta da situação, a energia do prédio teve que ser desligada e os atendimentos foram suspensos durante toda a manhã. Um mutirão formado por funcionários da pasta e da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), vizinha do prédio, atuou por toda a manhã para a retirada da lama.

A responsável pela pasta, Darlene Tendolo, informou que não houve grandes prejuízos, mas admitiu a possibilidade da chuva ter danificado parte dos computadores do local.

“Os funcionários que estavam aqui foram muito rápidos e conseguiram salvar tudo, mas a água chegou a atingir as tomadas, onde os computadores estavam ligados. Assim que a energia elétrica for religada faremos o teste”, comenta a secretária. “Independentemente disso, estamos atendendo todos os casos emergenciais, inclusive os das famílias que ficaram desalojadas”, completa Darlene.  (MT)

  • Serviço

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    A Secretaria do Bem Estar Social (Sebes) oferece alimentos, abrigo e apoio às vítimas das consequências das chuvas. O contato deve ser feito pelo telefone (14) 3227-8624. A Sebes fica na quadra 1 da avenida Alfredo Maia, Centro.

     

     

     

     

    Douglas Reis

    Na quadra 16 da rua Alto Juruá, o asfalto cedeu em frente de uma residência; no local, estava uma caçamba

    Vídeos:

    A casa de Lucelene Sanches, localizada na quadra 1 da rua Aviador Gomes Ribeiro de Barros, foi invadida pela enxurrada. A moradora conversou com a reportagem do JCNet. Veja o depoimento. (Imagens: Éder Azevedo)

    Pedestres ilhados na avenida Nações Unidas, próximo ao Terminal Rodoviário (Crédito: Divulgação/ Sônia Rossi):

     

     

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